Volta a Portugal em incubadoras: Leiria em versão 4.0

Com quase uma década da história, a Incubadora D. Dinis simplificou o nome para abranger valências. Agora, é IDD.net mas mantém o foco: tecnologia.

Etapa 9: De Oeiras a Leiria são pouco mais de 150 quilómetros. O caminho faz-se, de carro, em pouco mais de uma hora e meia. Chegámos ao IDDnet, a primeira incubadora de Leiria. A viver nesta casa no centro de Portugal estão, em simultâneo, mais de 40 empresas. E até há lista de espera.

É uma espécie de laboratório seguro onde o obrigatório é errar. “Espero que as pessoas errem muito porque se não errarmos não evoluímos. Quanto mais errarmos, quanto mais cabeçadas dermos, melhor. Defendo a cultura de cairmos para aprendermos que por ali não devemos ir. Só sabemos que não devemos ir por algum lugar porque testámos essa opção. Tenho três filhos e gosto que testem os seus limites, pelo menos dar-lhes essa liberdade. Espero que as pessoas estejam dispostas a isso e que os fundadores e colaboradores encarem a falha como um processo de aprendizagem e não como de apontar o dedo a alguém. O processo normal é testarmos diferentes caminhos”, explica Cristina Barros, presidente do conselho de administração do IDDnet, ex-incubadora D. Dinis, em Leiria, e à frente de três empresas, uma delas de software.

A incubadora nasceu num contexto em que se queria estimular o empreendedorismo“, explica Isabel Marto, diretora executiva do IDDnet e à frente do projeto desde o primeiro dia. “Parte-se do pressuposto de que a comunidade ainda não é empreendedora, e vamos tentar mudar os hábitos. Não se pode estar à espera que, de repente, apareçam muitos projetos de base tecnológica porque a comunidade não está preparada. A nossa filosofia foi, sempre que tenhamos capacidade e não haja necessidade de seleção, abrimos a incubadora a todo o tipo de projetos. O que queríamos era apoiar ou dar ajuda a quem quisesse fazer algum tipo de projeto”, acrescenta.

Pelas portas do IDDnet passam diariamente funcionários de 44 empresas incubadas. Alguns deles pertencem a equipas com mais de dez pessoas, um número bastante usual entre as startups fundadas na incubadora focada em negócios de base tecnológica. E muito superior àquela que é a média nacional: 98% das micro empresas portuguesas têm menos de 10 trabalhadores nas suas equipas, assinala a diretora executiva do IDDnet.

IDDnet inaugurou edifício no final de 2008.Paula Nunes / ECO

Criada em 2008, a incubadora de Leiria é, garantem os responsáveis, muito mais do que um lugar de aluguer de espaços. Um dos últimos a ocupar uma mesa foi Diogo Santos, 27 anos.

Estudou marketing em Leiria e, depois de acabado o mestrado, decidiu começar um negócio por conta própria. “Ainda não tenho nenhuma empresa. Estamos aqui a desenvolver uma ideia de negócio há cerca de um mês”, conta, em entrevista ao ECO. O projeto, Be Unyke, tem a ver com uma nova experiência de compra. “Uma plataforma que, através de um processo de compra surpresa, vai permitir surpreender quem quisermos através da vivência de atividades. É assim que estamos a começar”, detalha.

Diogo Santos é um dos mais recentes incubados do IDDnet. A empresa ainda não está criada.Paula Nunes / ECO

A entrada na incubadora, garante Diogo, vem de uma “forma de arriscar decorrente da experiência”. “Eu não nasci assim com esta vontade de arriscar mas vamos encontrando pessoas na nossa vida que nos incentivam e nos provam que somos capazes. Começámos na garagem, tínhamos uma equipa, chateámo-nos e cada um seguiu o seu caminho. É importante ter alguém com experiência — mentores e outros empreendedores — que possa ir orientando”, esclarece.

"Ninguém nasce a saber montar uma empresa: às vezes é preciso levarmos na cabeça porque temos tendência para nos fecharmos muito. Eu tinha a perceção de guardar a ideia do negócio só para mim. Com quantas mais pessoas partilharmos as coisas, tem essa vantagem, começamos a ter feedback e a ver de uma nova forma que ainda não tínhamos pensado. ”

Diogo Santos

Incubado IDDnet

Gestão e estratégia

Os parceiros é que gerem a incubadora, conta Isabel. O conselho de administração é composto por cinco elementos que se reúnem mensalmente para ajudar a definir a estratégia. E, apesar de o Politécnico ter estado desde o primeiro momento na fundação do projeto, a organização não está dependente dos projetos mais académicos para ter ocupação total. “Como já nasceu de uma parceria em que as empresas estão envolvidas desde o início, houve sempre empresários que decidiram a vida da incubadora. Penso que é uma incubadora que acaba por ser um pouco diferente, também por isso. Costumo dizer que foi idealizada por empresários para prestar serviço a outros empresários”, assinala Isabel Marto.

Da totalidade dos projetos incubados ou que já cumpriram os quatro anos de máxima permanência no espaço, cerca de 70% têm uma base tecnológica. E, todos os anos, cerca de 100 aspirantes a empreendedores contactam os serviços da incubadora — assegurados por uma equipa de quatro pessoas. A triagem, em contrapartida, não é feita internamente, garante a responsável. Os próprios fundadores encarregam-se de clarificar a dimensão da vontade.

Para o empreendedor não é um trabalho nada solitário, e o trabalho da incubadora é mesmo esse: fazer com que o empreendedor não esteja isolado porque isso é fator de desmotivação.

Isabel Marto

Diretora executiva IDDnet

“Desde o início não quebramos a vontade empreendedora”, explica a diretora executiva. “Quando vêm procurar informação sobre a incubadora prestamos logo consultoria e já traçamos um plano de ação para implementar a ideia. Pode ser intermediado com uma rede de contactos, pareceres, estudo da concorrência, modelo Canvas, colocar a ideia no papel e, a partir daí, trabalhar. Nessa altura, depois desse plano de ação, muita gente perde-se no caminho. Não é só ter uma ideia: trata-se de a trabalhar todos os dias. E aí há um filtro natural dos projetos. Alguns envolvem-se, continuam a trabalhar connosco, outros perdem-se”, comenta.

Isabel Marto, diretora executiva, e Cristina Barros, presidente do conselho de administração do IDDnet.Paula Nunes / ECO

Mas isso não impede que, por vezes, apareçam outros negócios. Na zona de Leiria, os negócios ligados à indústria são bem representados na região. E isso faz com que alguns dos incubados trabalhem para esse setor diretamente ou sejam fornecedores indiretos.

“Queríamos ser uma incubadora de base tecnológica. Mas desde início não quisemos ter aqui um espaço vazio por falta de ocupação de projetos de base tecnológica. Damos prioridade aos que têm uma base tecnológica mais forte. Vão aparecendo alguns projetos na área da indústria mas existe, na região, outra incubadora mais direcionada para esses negócios e que tem inclusivamente licenciamento industrial — que nós não temos aqui — o Open, na Marinha Grande. Temos aqui alguns projetos que são fornecedores da indústria, que têm alguma ligação, mas é só isso. E quem fundou a incubadora foi o Politécnico de Leiria, a câmara e a NERLEI”. Dos parceiros do IDDnet fazem parte 26 associados, empresas e instituições públicas e privadas que têm uma palavra a dizer na estratégia da incubadora.

“As incubadas são maioritariamente locais, temos algumas spin off de empresas nacionais — o grupo Link, por exemplo. Creio que 20% dos projetos tem esse perfil, os outros são mesmo projetos que nascem aqui em Leiria”, assinala.

De Leiria para o mundo

Um deles foi Carla Gaspar, 33 anos, sócia-gerente da Smartidiom. De Pombal, mudou-se para Leiria para estudar tradução na universidade. “No fim da licenciatura, trabalhei dois anos em Lisboa e, de regresso a Leiria, decidi que já estava na altura de fazer um projeto por conta própria”, conta. Em 2012, lançou a empresa, um projeto inicialmente a título pessoal e que, agora, conta com mais de 20 pessoas espalhadas por três escritórios: Leiria, Lisboa e Porto.

Carla Gaspar começou a trabalhar por conta própria há cinco anos e fundou a Smartidiom, empresa de traduções que conta com uma equipa de 21 pessoas.Paula Nunes / ECO

“Acabou por acontecer muito rápido e inesperado. Comecei a trabalhar com clientes internacionais, queria uma ascensão mais rápida e, um ano depois, um dos clientes deu-me um desafio que não dava para dizer que não”. Precisava que Carla ficasse a coordenar uma equipa e, a partir daí, o crescimento não parou.

Posso dizer que, cinco anos depois, continuamos muito focados nos mercados internacionais e tudo indica que é para continuar precisamente porque conseguimos lá fora aquilo que não conseguimos aqui dentro.” Com uma faturação de meio milhão de euros, a empresa conta com clientes do mercado americano, holandês e do Reino Unido. “O mercado americano tem um enorme potencial, é lá que se passa tudo e é muito mais fácil de fidelizar clientes internacionais do que nacionais”, garante.

"Cada vez sinto mais o peso de trazer pessoas para trabalhar aqui: cada vez precisamos de mais recursos especializados e os motivos, quer sejam boas condições de trabalho ou outras que sirvam para manter um colaborador, é muito difícil atrair pessoas que, por ambição profissional, querem ficar em Lisboa ou no Porto.

Carla Gaspar

Smartidiom

Outro caso de sucesso entre os incubados no IDDnet é o de João Assunção, 42 anos, sócio da Latourette. Fundada em 2010 — e na incubadora desde 2012 — a empresa conta com 25 pessoas entre Leiria, Porto, S. Paulo, Medellín e Bogotá, na Colômbia. O negócio é feito na indústria do software e o papel é capturar documentos e outras fontes de informação — email, faxes — para, a partir dessa informação, trabalhar processos locais mais próprios das empresas. “As empresas têm os próprios sistemas de gestão e controlo que precisam de muita informação interna. Muitas delas vêm de fontes em papel ou outras. A ideia é organizar esses documentos, arrumados no local certo no mínimo tempo possível”, esclarece.

A equipa da Latourette está espalhada por Leiria (na foto), Brasil e Colômbia.Paula Nunes / ECO

Para Cristina Barros, com três empresas a cargo, uma das grandes vantagens de estar numa incubadora é o sentido de grupo. “É muito mais do que um espaço de aluguer, mais do que um negócio imobiliário. As pessoas estão dentro de um ecossistema em que as coisas que acontecem são comunicadas aos empreendedores e onde as pessoas são apoiadas. Apoiamos o desenvolvimento das empresas quando ainda nem sequer existem, da própria ideia de negócio. E depois procuramos estratégias de desenvolvimento, pôr os projetos em contacto com eventuais parceiros. Tentámos passar este valor de uma rede no ecossistema que faz acontecer. É muito mais do que um projeto de apoio ao desenvolvimento: há todo um conjunto de parceiros com as quais trabalhamos a nível nacional ou internacional e que podem apoiar o desenvolvimento das ideias”, assinala.

" Não estávamos a comunicar o real valor da incubadora, que é muito mais do que um espaço de aluguer, mais do que um negócio imobiliário.”

Cristina Barros

Presidente do conselho de administração da IDDnet

Por isso, a administradora diz que gostava que a ligação entre as startups e as grandes empresas da região fosse mais enérgico. “Estamos sempre a convidar para participarem nestes eventos mas acho que temos de dinamizar mais estes processos. Fica o convite para proporem desafios de inovação para ver até que ponto este ecossistema pode dinamizar ou acelerar este processo. Temos de dar muitas cabeçadas mas temos de convergir e fazer acontecer. E quanto mais rápido eu puser um protótipo no mercado mais rápido eu vou testar, nunca será perfeito mas só quando está a ser testado é que começamos a ter feedback, que é fundamental. Aí é que o software começa a ganhar vida”.

O retrato breve do IDD.net, em Leiria.D.R.

Isabel também acredita que, numa fase como a da criação de uma empresa, ter com quem partilhar a experiência é um dos segredos do sucesso. “Para o empreendedor não é um trabalho nada solitário, e o trabalho da incubadora é mesmo esse: fazer com que o empreendedor não esteja isolado porque isso é fator de desmotivação. Às vezes há boas ideias que acabam por não ser trabalhadas e a ideia de uma incubadora é exatamente essa: fazer com que o empreendedor não esteja sozinho e, mesmo que se perca, durante um mês ou dois, recebe um email de um evento. É uma forma de o ir repescar e reavivar a motivação dele”.

  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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