As forças que estão a pressionar a libra

O crash da libra no final da semana passada deverá ter sido resultado de um 'fat finger', mas há forças a pressionar a divisa britânica. E já há apostas numa paridade entre a libra e o dólar.

A moeda britânica tem estado em foco, mas não pelos melhores motivos. Protagonizou, no final da semana passada, uma forte queda no espaço de apenas alguns minutos que assustou os mercados. Mas já há algum tempo que tem assumido uma tendência negativa por causa do Brexit, decisão que está a colocar pressão para mais estímulos por parte do do Banco de Inglaterra. Conheça todos os fatores que pesam sobre a moeda do Reino Unido.

Crash em dois minutos

Foram dois minutos caóticos no mercado asiático, enquanto os traders europeus ainda dormiam. De um momento para o outro, a libra afundou 6% naquela que foi a maior queda desde que os britânicos votaram a favor da saída da União Europeia, em junho. O crash momentâneo deverá ter sido erro humano, dizem os analistas. Uma ordem executada mal digitada por um trader – o chamado fat finger (dedo gordo) – colocou o mercado em alvoroço, atirando a moeda britânica em mínimos de 31 anos, nos 1,1841 dólares. Os algoritmos e as máquinas com ordens automáticas fizeram questão de exacerbar a pressão vendedora numa altura do dia em que a liquidez é relativamente baixa.

“Provavelmente nunca saberemos a razão desta pressão vendedora, se foi devido a um fat finger ou a outra coisa”, referiu Ryan Myerber, gestor de ativos da Janus Capital. “Não há dúvida de que houve uma componente eletrónica”, acrescentou este responsável.

Nos minutos seguintes a libra viria a recuperar deste sobressalto, mas para níveis bastante inferiores ao que negociava antes deste flash crash.

Flash crash da taxa libra/dólar ocorreu na madrugada da última sexta-feira

Fonte: Bloomberg (valores em dólares)
Fonte: Bloomberg (valores em dólares)

Um Brexit “à bruta”

A crença de que poderá ter sido um erro humano a desencadear esta pressão sobre a libra não apaga, porém, as preocupações do mercado relativamente ao impacto de uma transição complicada do Reino Unido pós-União Europeia.

Theresa May, a primeira-ministra britânica, já revelou que vai acionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, sobre a saída de um país da União Europeia, em março do próximo ano, e não excluiu a possibilidade de um “hard Brexit” com efeitos nefastos para a economia. Um aviso que os investidores estão a levar muito a sério depois de a líder britânica ter assumido uma posição com impacto sobre o setor financeiro, que representa cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) britânico, de que não terá qualquer tratamento especial nas negociações com Bruxelas.

Do lado do projeto europeu, que defende que a livre circulação de pessoas, bens e capitais é inseparável, o discurso também já endureceu. Francois Hollande afirmou na última quinta-feira que União Europeia precisa de se manter firme em relação ao Reino Unido. “O Reino Unido decidiu por um Brexit e creio que um Brexit difícil. Há que retirar todas as consequências da vontade dos britânicos de sair da União Europeia”, enfatizou o presidente francês. Angela Merkel, a chanceler alemã, reforçou esta posição: “Não haverá negociações fáceis”.

O Reino Unido decidiu por um Brexit e creio que um Brexit difícil. Há que retirar todas as consequências da vontade dos britânicos de sair da União Europeia.

François Hollande

Presidente de França

BoE expansionista

Em política monetária, qualquer ação expansionista de um banco central vai tendencialmente desvalorizar a sua moeda. Em sentido contrário, qualquer ação mais contracionista vai impulsionar a moeda.

No caso do Banco de Inglaterra (BoE), além dos juros diretores em mínimos históricos depois do corte realizado em agosto, os decisores de política monetária britânicos alargaram ainda mais o plano de estímulos menos convencionais. O programa de quantitative easing do BoE estendeu as compras de títulos ao setor privado desde há dois meses, uma expansão que mostra a desilusão do banco central com a evolução da economia e da inflação na região.

Já nos EUA, a Reserva Federal norte-americana (Fed) já mostra sinais de que a história dos juros perto de 0% está prestes a terminar, apontando dezembro como mês em que as taxas deverão voltar a subir. A maior economia do mundo deverá crescer na segunda metade deste ano, depois de uma primeira metade mais frouxa, segundo os analistas sondados pela Bloomberg. Quanto ao mercado de trabalho (um dos objetivos da Fed, além da meta de inflação), a taxa de desemprego situou-se nos 5% em setembro, ligeiramente acima do valor registado no mês anterior. E, embora a economia tivesse criado menos empregos face a agosto, os números dos ‘payrolls’ surpreenderam os analistas pela positiva.

Paridade à vista

Com a divergência das políticas monetárias do BoE e Fed e, sobretudo, com o resultado do Brexit, muitos operadores de mercado antecipam já um cenário improvável há alguns meses: a paridade entre a libra e o dólar. Segundo um modelo de previsão da Bloomberg, baseado na volatilidade implícita da taxa de câmbio, há uma probabilidade de 7% de no próximo ano uma libra equivaler a um dólar.

“Há algumas calls para a paridade, sim. Há algumas que estão posicionadas nesse sentido, com essa meta e objetivo, ou então estão com medo que vá nessa direção”, afirmou Neil Jones, da Mizuho Bank, à Bloomberg. “Não diria que é a visão mais ampla mas a tendência de descida estrutural da libra irá ficar intacta por agora”, acrescentou.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

As forças que estão a pressionar a libra

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião