Portugueses poupam pouco face à média da OCDE

Os "poupadores ativos" em Portugal são metade dos verificados em França ou na Noruega. Um estudo mostra que os portugueses estão na cauda da OCDE em relação às poupanças.

As poupanças dos portugueses são curtas em relação às registadas pelos restantes países da OCDE. A conclusão pode retirar-se dos dados sobre a literacia financeira de 30 países, publicados pela organização esta terça-feira. Em Portugal, menos de 40% dos inquiridos foram considerados “poupadores ativos” pelo estudo, em comparação com a média de 60% dos países da OCDE e com os valores superiores a 80% registados na Noruega, França ou Tailândia.

Dados: OCDE
Dados: OCDE

Estes números corroboram os dados revelados sobre os primeiros três meses deste ano. Nesse período o rendimento disponível das famílias portuguesas foi inferior ao consumo. Ou seja, segundo o INE, as famílias gastaram mais do que receberam. A poupança já era baixa na última década mas, este ano, foi para terreno negativo, um caso inédito na economia portuguesa.

Em contraste, parece que os portugueses têm mais cuidado com o planeamento dos gastos do quotidiano. Em Portugal, 72% dos inquiridos pela OCDE respondeu que faz um orçamento, em comparação com a média de 57% dos países abrangidos pela organização. Nomeadamente, 79% dos portugueses considerou que “mantém uma vigilância pessoal apertada nos seus assuntos financeiros”.

Ranking de literacia financeira: Portugal ficou em 10º

Na generalidade do questionário, Portugal registou 4.8 pontos no conhecimento financeiro, 5.9 pontos no comportamental e 3.4 pontos no relativo à atitude. A pontuação média final de Portugal foi 14, colocando-se o país em 10º lugar em 30 países considerados. O número compara com a média de 14.9 do país vencedor, França, e com os 11.6 pontos da Polónia, o último classificado.

Dados: OCDE
Dados: OCDE

Acima da maior parte dos outros países está um valor negativo para a população portuguesa. Dos inquiridos, mais de 30% referiu que o seu salário não permite fazer face a todas as despesas pessoais. E mais de 15% admitiu ter pedido um empréstimo para pagar esses custos de vida.

Portugal foi um dos países em que o longo prazo é mais tido em conta. Isto porque mais de seis inquiridos em 10 indicaram ter um atitude que beneficiava o longo prazo, em detrimento do curto prazo. Os portugueses estão assim em linha com os noruegueses e os húngaros, por exemplo, e melhores do que os chineses ou os polacos.

Apesar disso, no geral das respostas dadas sobre literacia financeira, Portugal ficou ligeiramente abaixo da média da OCDE (62%). Esta percentagem é relativa ao número de inquiridos dos países que conseguiram pelo menos 5 ou mais respostas certas nesta parte do inquérito. A tendência dos homens (67%) responderam mais acertadamente do que as mulheres (54%) verificou-se no caso português.

Existem adultos em todo o mundo com baixos níveis de conhecimento financeiro, que falham em aplicar comportamentos financeiros que podiam melhorar a sua segurança financeira e têm atitudes financeiras orientadas para o curto prazo

OCDE

Relatório sobre literacia financeira

As conclusões da OCDE para os 30 países são, no geral, negativas. “Existem adultos em todo o mundo com baixos níveis de conhecimento financeiro, que falham em aplicar comportamentos financeiros que podiam melhorar a sua segurança financeira e têm atitudes financeiras orientadas para o curto prazo”, considera a OCDE.

O principal problema está na falta de objetivos com um horizonte alargado: “Em 15 países e economias, menos de metade dos adultos estabelecem objetivos financeiros de longo prazo e ambicionam cumpri-los”. “Este comportamento é essencial para garantir segurança financeira e bem-estar a longo prazo”, lê-se no relatório.

Homens têm melhor literacia financeira

De país para país as variações são grandes. A organização concluiu que quatro em cada cinco (84%) adultos em Hong Kong, na China, conseguiram responder corretamente pelo menos a cinco de sete questões sobre conhecimento financeiro. A contrastar está o resultado de menos de um adulto em dois conseguiu o mesmo em países como o Brasil, a Rússia, África do Sul e Reino Unido.

As diferenças não são só entre países, mas também entre géneros. Os homens conseguiram um melhor resultado nas questões em comparação com as mulheres em 18 dos 30 países que participaram no inquérito.

Os países que mais preocupam os investigadores da OCDE são a Tailândia, Geórgia, Turquia, Albânia e Bielorrússia. Neste grupo de Estados, mais de 40% dos participantes no estudo contraíram empréstimos para fazer face a despesas, “indicando um elevado nível de fragilidade financeira”, aponta o organismo. “Possivelmente isto deve-se a salários baixos e/ou a flutuantes e à falta de poupança”, considera o relatório.

Este estudo tem como base um inquérito que avaliou os níveis de conhecimento financeiro, o comportamento e a atitude. As questões da equipa da OCDE foram respondidas por mais de 50 mil adultos entre os 18 e os 79 anos.

Ao todo os inquiridos englobaram 30 países: Albânia, Áustria, Bielorrússia, Bélgica, Brasil, Ilhas Virgens Britânicas, Canadá, Croácia, República Checa, Estónia, Finlândia, França, Geórgia, Hong Kong, Hungria, Jordânia, Coreia do Sul, Letónia, Lituânia, Malásia, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Rússia, África do Sul, Tailândia, Turquia, Reino Unido e Portugal. O estudo pode ser consultado aqui.

Editado por Mariana de Araújo Barbosa.

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