EDP tropeçou em Trump. Há crise?

  • Rita Atalaia
  • 19 Novembro 2016

A EDP lançou-se numa queda livre quando se soube que Donald Trump seria o novo Presidente dos EUA.. E o para-quedas parece não querer abrir. Há motivos de preocupação, ou é tudo um exagero?

As ações das energéticas portuguesas reagiram negativamente à nomeação de Donald Trump. O republicano não ficou conhecido durante a sua campanha por apoiar as energias renováveis. Pelo contrário. E os receios quanto a medidas contra o setor contagiaram o grupo EDP, pesando na bolsa de Lisboa. Há ou não motivos de preocupação para as energéticas?

“A EDP Renováveis reagiu de forma negativa aos resultados das eleições nos Estados Unidos, comportamento compreensível no seguimento da vitória de um candidato pouco favorável às energias renováveis“, refere a equipa de research do BiG. A EDP, a casa-mãe da empresa de energia renovável, também recuou, “replicando o sentimento mas penalizador que a EDP Renováveis irá enfrentar no mercado norte-americano nos próximos quatro anos”, acrescenta.

No programa de Governo, Donald Trump promete libertar 50 biliões de dólares de reservas de gás natural, petróleo e xisto. E ainda centenas de reservas de carvão, ignorando as energias “verdes”. Para além disso, quer ajudar os EUA a tornarem-se, e manterem-se, totalmente independentes da importação de energia da OPEP ou de quaisquer países “hostis aos nossos interesses”.

EDP ficou sob pressão, mas já recupera

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Fonte: Bloomberg

A equipa de research do BiG nota que apesar da posição do republicano em relação às políticas energéticas, continuam a existir oportunidades de negócio. E isto é crucial, uma vez que a América do Norte representa 46% do EBITDA previsto da EDP Renováveis para 2017, segundo o BPI.

O BiG refere que “tendo em conta que a vitória de Donald Trump constringe, mas não extingue as perspetivas de crescimento da EDP Renováveis nos Estados Unidos”, continuam a “cristalizar-se oportunidades de investimento pela empresa que confirmam o seu perfil de crescimento. Pelo que consideramos que as ações da EDP Renováveis poderão recuperar do embate que foi a vitória de Donald Trump”, assim como vai acontecer com a EDP, pela participação de 75% que tem na empresa de energias renováveis.

Outros analistas falam mesmo de uma reação exagerada ou especulação no mercado acionista. Um analista do setor disse ao ECO que a queda inicial foi “mais causada pela incerteza do que vem a seguir do que por um fator mais concreto” e que os projetos nos EUA não estão nem vou ficar em causa. A empresa liderada por Manso Neto tem vários contratos assinados com empresas privadas para produzir 1.000 megawatts durante 10 ou 20 anos. “Por isso, isto não depende do Presidente”, esclarece o especialista.

EUA “mandam” na EDP Renováveis

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Fonte: EDP (Valores em capacidade instalada em MW, dados referentes ao primeiro semestre de 2016)

Mas há perspetivas contrárias entre os analistas. Eduardo Silva, gestor da corretora XTB, diz que o negócio da subsidiária da EDP pode ser impactado a nível dos projetos de investimento e da estratégia de financiamento. “Trump assumiu que é contra os subsídios às renováveis e considera que a energia solar e eólica são caras, assumindo a energia nuclear e fóssil como a alternativa viável para criar independência energética nos EUA”, nota o gestor.

Foi a incerteza em torno dos próximos passos de Donald Trump a nível da política energética que pressionou o grupo EDP e, de forma mais generalizada, o setor. As utilities europeias caíram quase 4% nos dias que se seguiram ao resultados das eleições dos EUA. Já a EDP e a EDP Renováveis perderam cerca de 5% após a vitória do republicano. Uma queda abrupta que levou os administradores da EDP, incluindo António Mexia, ao mercado, comprando ações para tentarem dar um sinal de confiança aos investidores.

EDP acompanha tendência do setor das utilities

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Fonte: Bloomberg (valores em pontos; base 100)

No entanto, o gestor da XTB também diz que a reação das ações foi exagerada. Eduardo Silva refere que o “período de eleições, que foi dos mais divisivos de sempre, gerou alguma extrapolação para um nível de exagero“. Por isso, o caminho dos títulos deve ser o da recuperação. Tudo agora depende da posição de Donald Trump em relação à energia.

“Claro que Trump como presidente dos EUA, não será o mesmo que Trump em campanha. Com as promessas eleitorais a cair a um ritmo considerável, existe uma grande indefinição em setores chave”, como é o caso do energético, explica Eduardo Silva. Por isso, os investidores vão reagir a quaisquer sinais sobre quais serão as políticas energéticas implementadas e se isso terá algum impacto no negócio das empresas presentes nos EUA.

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