Brexit já se faz sentir nas empresas e Reino Unido arrisca recessão

  • Marta Santos Silva
  • 22 Novembro 2016

Dependendo do acordo de saída da UE, o Reino Unido poderá entrar numa recessão ou crescer apenas 0,9%. E o impacto do Brexit, embora camuflado, já se faz sentir nas empresas britânicas.

O choque do referendo do Brexit pode não ter tido um impacto tão grande como o esperado na economia, mas os piores efeitos ainda vêm aí: dependendo dos termos da saída da União Europeia, a economia do Reino Unido pode mesmo entrar numa recessão em 2019, segundo um estudo da Euler Hermes.

Embora o estudo se foque mais nos efeitos a longo prazo da saída da União Europeia, os impactos do referendo na economia britânica já se fazem sentir, explica Ana Boata, economista para a Europa da Euler Hermes. “As insolvências de empresas no Reino Unido estavam a cair há 16 trimestres seguidos mas, no segundo e terceiro trimestres de 2016, já vimos uma inversão da tendência”, afirmou.

"Agora discutimos o impacto da incerteza no crescimento, e o facto de não se atraírem novos investimentos. Mas depois da saída [da UE] talvez os investimentos que lá existem agora queiram relocalizar-se para outro sítio.”

Ana Boata

Economista para a Europa, Euler Hermes

No estudo Brexit: What does it mean for Europe?, os economistas explicam que as empresas britânicas já se ressentem, em parte devido à desvalorização da libra, que dificulta o trabalho de qualquer empresa que dependa de importação de peças ou materiais vindos de outros países. Um desafio ainda maior vem para o ano, quando a equipa de economistas liderada por Ana Boata estima uma taxa de inflação de 2,5%, com impactos óbvios no poder de compra.

As perspetivas agravam-se a longo prazo, com a instabilidade e incerteza acerca do tipo de acordo que vai ser negociado a influenciar negativamente a confiança dos investidores e dos consumidores, a libra, e outros indicadores como as insolvências de empresas e as fusões e aquisições.

Em 2019 é que se vão sentir os maiores impactos

O relatório publicado pela Euler Hermes, uma das acionistas da companhia de seguros de créditos COSEC, prevê um aumento das insolvências de empresas a partir de 2017, com 2019 a ser marcado por um grande número de insolvências, dependendo do tipo de acordo de Brexit que acontece: com um Brexit parcial, em que a Irlanda do Norte e a Escócia permanecem na União Europeia, prevê-se que as insolvências aumentem em 9% relativamente ao ano anterior; já o Brexit total levaria a um aumento de 15%.

“O verdadeiro choque vai ser o ano da saída”, diz Ana Boata. Prevê-se que a saída aconteça em 2019 se o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que dá início a um período de negociações que pode levar cerca de dois anos, for ativado na data prevista em março de 2017. “Agora discutimos o impacto da incerteza no crescimento, e o facto de não se atraírem novos investimentos. Mas depois da saída talvez os investimentos que lá existem agora queiram relocalizar-se para outro sítio”, explica Boata.

Com uma saída rígida da União Europeia, o Reino Unido arrisca-se a entrar em recessão, prevendo-se um crescimento negativo do PIB em -1,2%. Uma saída mais favorável poderia resultar num crescimento quase neutro, de 0,2%, que deve ser pensado “em comparação com o facto de que o crescimento atual do Reino Unido é de mais de 2%”, acrescenta a economista.

Resiliência da economia pode esconder efeitos

A resiliência da economia britânica está a ajudar a diminuir o choque do referendo, em que uma maioria dos eleitores britânicos decidiu que o Reino Unido deveria sair da União Europeia. “Um dos principais fatores de resiliência que temos visto desde o verão foi a reatividade das autoridades”, afirma Ana Boata, “incluindo o Bank of England”. O banco central, explica, teve uma ação muito importante para o mercado, “não só em termos de liquidez mas também em termos de taxas de juro”.

Também a transição rápida entre David Cameron e Theresa May sossegou os mercados e os investidores. “Viram alguém pragmático que sugeriu que não vão sair só por sair” e que o Reino Unido vai demorar a decidir nos termos mais favorecedores, explica Ana Boata, acrescentando que a transição, que se esperava durar até setembro, ficou resolvida em julho.

Para ajudar a economia durante o processo de negociação do Brexit e mesmo após a saída da UE, o governo britânico também tem intenções de reduzir o imposto sobre os rendimentos das empresas e criar estímulos fiscais às despesas nas infraestruturas. “Mas não têm muito espaço de manobra do lado fiscal”, acrescenta a economista. “Podem não estar na Zona Euro, mas continuam a ter de respeitar o limite de défice de 3%”.

E o alívio dos principais efeitos do choque económico pós-Brexit pode até ter um efeito nas medidas implementadas para prevenir futuros choques. “Não excluo que haja medidas nos próximos tempos”, continua Ana Boata. “Mas provavelmente não serão muito impressionantes, ou não tão impressionantes como se tivesse havido um choque mais forte”.

Notícia corrigida às 12.30 do dia 23 de novembro: Retifica a posição acionista da Euler Hermes na COSEC.

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