Banca continua a ter demasiados balcões. Fechar mais pode ser “eficaz”, diz o Banco de Portugal

Apesar da redução, Portugal continua a ter mais balcões e trabalhadores no sistema bancário do que a média europeia.

O ajustamento já feito pela banca portuguesa, que levou ao fecho de centenas de balcões e a despedimentos de milhares de funcionários, não é suficiente. Para o Banco de Portugal, o sistema bancário português continua a ter demasiados balcões e trabalhadores para a dimensão do país, sobretudo quando comparado com o resto da Europa.

A conclusão consta da edição de outono do Relatório de Estabilidade Financeira, publicado esta quarta-feira pelo Banco de Portugal, que nota que, entre 2008 e 2015, a banca nacional reduziu o número de balcões de 0,61 para 0,54 por mil habitantes. Contudo, a média europeia baixou de 0,44 para 0,35 balcões por cada mil habitantes.

Já o número de trabalhadores do sistema bancário português, em percentagem da população ativa, caiu de 1,13% para 1,02% neste período. Aqui, Portugal está, na perspetiva do regulador, melhor do que a Europa, onde, em média, este indicador passou de 1,42% para 1,18%.

Os cortes são ainda mais expressivos nos países que, como Portugal, foram mais afetados pela crise financeira. Na Grécia, por exemplo, o número de balcões passou de 0,37 por cada mil habitantes, em 2008, para 0,23 em 2015, uma redução de 37,4%, bastante superior ao corte de 11,9% verificado por cá. Irlanda e Espanha são outros exemplos, onde o número de balcões se reduziu em 26,6% e 33,2%, respetivamente (apesar de Espanha continuar com um rácio superior ao de Portugal, de 0,67 balcões por mil habitantes).

"Em Portugal, apesar do ajustamento efetuado, a redução [de balcões e trabalhadores] foi menos do que na média da União Europeia. O sistema bancário português manteve uma densidade de balcões claramente acima da média europeia.”

Banco de Portugal

Relatório de Estabilidade Financeira

“Em Portugal, apesar do ajustamento efetuado, a redução em ambas as métricas [balcões e trabalhadores] foi menos do que na média da União Europeia a 15 países e do que nos vários Estados-membros considerados. O sistema bancário português, apesar da redução, manteve uma densidade de balcões claramente acima da média europeia, da Grécia e da Irlanda e apenas inferior ao caso espanhol”, refere o Relatório de Estabilidade Financeira.

Perante estes números, o Banco de Portugal classifica a banca nacional de “menos eficiente” do que os pares europeus.

Os bancos portugueses até conseguiram, entre 2011 e 2015, reduzir os custos operacionais de 1,63% do ativo para 1,48% do ativo. É um indicador positivo, mas que é anulado por outro: no mesmo período, os custos operacionais aumentaram de 23% da receita líquida de imparidades para 39,9%.

"Afigura-se indispensável uma reavaliação abrangente dos modelos de negócio e da estrutura de custos das insituições financeiras.”

Banco de Portugal

Relatório de Estabilidade Financeira

Face a este cenário, agravado pelo “ambiente de taxas de juro muito baixas por um período prolongado”, a instituição liderada por Carlos Costa elege o aumento da eficiência como um dos caminhos a privilegiar pelos bancos portugueses, e isso passa por uma “indispensável reavaliação abrangente dos modelos de negócio e da estrutura de custos das instituições financeiras“.

Entre as medidas que poderão ser adotadas para este aumento da eficiência, o Banco de Portugal aponta para soluções de contenção de custos ou de consolidação, salientando, contudo, que estas têm riscos associados e não devem comprometer a qualidade da governação dos bancos.

"[O fecho de balcões] pode ser eficaz quando o sistema bancário como um todo reduz a rede.”

Banco de Portugal

Relatório de Estabilidade Financeira

A reformulação dos modelos de negócio deve, assim, “ter em conta as oportunidades e os desafios associados à digitalização do negócio”, ou seja, às chamadas fintechs (startups financeiras). Seja como for, o Banco de Portugal não descarta o fecho de mais balcões como uma boa solução, se feita em conjunto.

É necessário analisar se o fecho de balcões gera poupanças relevantes, especialmente no curto prazo, dado que esta estratégia implica custos para reposição do espaço comercial e a potencial perda de clientes, o que pode reduzir o valor de um banco como negócio de retalho”, aponta o relatório. Mas acrescenta: “esta solução pode ser eficaz quando o sistema bancário como um todo reduz a sua rede, porque nesse caso poderá ter um impacto menor nas quotas de mercado”.

Já na terça-feira, o governador Carlos Costa tinha salientado a necessidade de os bancos “reduzirem a dimensão física dos recursos humanos“.

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