Juros subiram nos EUA. Por que inverteu a Euribor na Europa?

Alteração da política monetária da Fed antecipa uma mudança do paradigma na Europa. Contudo, movimento de subida das últimas sessão não significa uma inversão dos juros na Europa, para já.

O último mês de 2016 vai ficar marcado como o da verdadeira viragem da política monetária nos EUA. Após meses e meses de expectativa, os sinais económicos positivos e a eleição de Trump para a presidência dos EUA abriram finalmente a porta ao primeiro aumento dos juros num ano na maior economia do mundo. A entidade liderada por Janet Yellen deixou ainda a indicação de que 2017 poderá trazer mais subidas no preço do dinheiro.

A alteração da política monetária foi nos EUA, mas teve repercussões nos juros europeus. Nas sessões seguintes a esse anúncio, as Euribor inverteram face ao rumo descendente para valores cada vez mais negativos que vinham a assumir. Como se poderá se justificar essa mudança de sentido nos indexantes a que estão associados grande parte dos contratos de crédito à habitação dos portugueses?

Euribor a 3 meses em dezembro

Fonte: Bloomberg (Valores em percentagem)
Fonte: Bloomberg (Valores em percentagem)

A explicação estará na mudança das perspetivas no que diz respeito às políticas económicas e dos bancos centrais. “Este movimento reflete a alteração de expectativas no mercado relativamente às políticas económicas futuras e cenário de crescimento global, afetando naturalmente a Zona Euro. Na prática, o que está implícito é o reconhecimento de que possivelmente o grau de estímulo da política monetária na UEM já alcançou o máximo, e os próximos passos serão de aperto das condições, ainda que este momento possa estar algo distante”, explica Paula Carvalho, economista-chefe do BPI.

"Este movimento reflete a alteração de expectativas no mercado relativamente às políticas económicas futuras e cenário de crescimento global, afetando naturalmente a Zona Euro.”

Paula Carvalho

BPI

A última reunião de política monetária do Banco Central europeu que decorreu a 8 de dezembro, ainda antes do encontro dos responsáveis da Fed uma semana depois, já deu algumas indicações nesse sentido. Apesar de a instituição liderada por Mario Draghi não ter mexido na taxa de juro de referência do espaço do Euro que se mantém em 0%, e de ter estendido até ao final de 2017 o programa de aquisição de ativos, em compensação reduziu o montante das compras mensais, dos 80 mil milhões para 60 mil milhões de euros a partir de março do próximo ano. Ou seja, deu um sinal de que o apoio do BCE à economia da Zona Euro vai começar a cair.

Será este um sinal de que o aumento dos juros na Europa poderá estar para breve, bem como o prolongar das subidas das Euribor? A opinião de três especialistas consultados pelo ECO não vai nesse sentido. “As subidas das Euribor nos últimos dias são marginais e não podem ser consideradas uma inversão de tendência. As Euribor estão em tendência de baixa há vários anos e apenas estabilizaram no último trimestre devido ao “chão” do BCE de -0,4%. Não há ainda qualquer sinal de inversão de tendência”, diz Filipe Garcia, presidente da IMF. Nas últimas duas sessões, a taxa a três meses voltou às quedas. Está em -0,316%.

"As subidas das Euribor nos últimos dias são marginais e não podem ser consideradas uma inversão de tendência.”

Filipe Garcia

IMF

No mesmo sentido vai a opinião da economista-chefe do BPI. “Não se esperam subidas das taxas diretoras em 2017 e possivelmente 2018, mas a dose de estímulos não deverá aumentar”, salienta Paula Carvalho, apesar de alertar que “todo este cenário é muito incerto”. A economista refere que o mercado financeiro está atualmente a incorporar nos preços dos ativos o melhor dos cenários para a Administração Trump , alertando que existem muitas incertezas quanto aos seus efeitos. No centro do tabuleiro de xadrez estão as implicações, tanto em termos económicos como políticos, “envolvendo a China, Rússia, entre outros atores — e com potenciais impactos imprevisíveis no grau de aversão ao risco global, e no movimento das taxas de juro”, acrescenta a responsável do BPI.

"Mais para o final de 2017 é provável que se venha a assistir a ligeiras subidas [das Euribor].”

Rui Serra

Montepio Geral

Rui Serra, economista-chefe do Montepio, também não antevê um agravamento dos juros na Zona Euro em breve. “As subidas [das Euribor] foram marginais e não pensamos que revelem uma tendência. A nossa perspetiva é que o BCE mantenha as taxas de juro ao longo de todo o ano, pelo que as taxas Euribor deverão ficar, também, relativamente estabilizadas. Mais para o final de 2017 é provável que se venha a assistir a ligeiras subidas”, defende o economista.

Estimativas do gabinete de estudos do Montepio publicadas esta quarta-feira, anteveem que as Euribor se mantenham negativas até ao final de 2017. O mesmo gabinete antecipa que a Euribor a 12 meses supere a taxa de juro de referência da Zona Euro durante o primeiro trimestre de 2018. Já os indexantes com prazos mais curtos — as Euribor a 3 e 6 meses — deverão ultrapassar essa fasquia durante o segundo trimestre de 2018, acredita o Montepio.

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