Como (não) funcionou o SIRESP em Pedrógão Grande

A resposta às questões do CDS por parte de António Costa permite traçar a linha do tempo sobre o funcionamento do sistema de comunicações de emergência do Estado no terreno. Saiba o que falhou.

O SIRESP, o polémico Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal, saltou para a atualidade depois de terem sido reportadas falhas no seu funcionamento durante o combate ao incêndio de Pedrógão Grande. Até agora, era tido como certo que tinham existido dificuldades nas comunicações, mas desconhecia-se o que se passou em concreto no terreno.

Esta quinta-feira foi divulgado um documento com as respostas do primeiro-ministro António Costa a um conjunto de questões colocadas pelo CDS-PP. Com base nesse documento, o ECO elaborou a linha do tempo com o que se passou em Pedrógão Grande. O que falhou e não falhou, as decisões que foram tomadas e os momentos mais relevantes do incêndio mais trágico da História moderna portuguesa.

Sábado, 17 de junho

  • 14H43: É dado o primeiro alerta acerca do incêndio via 112.
  • 16H54: Fogo em Pedrógão Grande já é visto pelas autoridades como de “importância elevada”, combatido por 93 bombeiros, apoiados por 25 viaturas e dois helicópteros. É estabelecido um “plano de comunicações” focado em duas redes: a rede dos bombeiros e o SIRESP. Por outras palavras, os rádios com acesso à rede SIRESP são sincronizados num mesmo canal de comunicações, assim como os terminais próprios dos bombeiros. No primeiro caso, a ideia é permitir comunicações cruzadas entre várias autoridades, como bombeiros e GNR, por exemplo. No segundo, todos os bombeiros ficam igualmente ligados a um canal comum.
  • 18H14: O incêndio tem já quatro frentes ativas, “60% a arder livremente”. O território é dividido em cinco setores e é solicitado o uso de quatro novos canais da rede dos bombeiros, uma das duas redes de redundância do SIRESP — a outra é a rede própria da Proteção Civil.
  • 19H38: A estação SIRESP de Pedrógão Grande entra em modo local, o que acontece devido ao corte das ligações por fibra ótica com as restantes estações ou, como indica o Governo, devido à “destruição pelo incêndio de troços de fibra ótica que asseguram a interligação das estações base ao resto da rede”. A estação de Pedrógão Grande fica assim isolada da rede e, a partir deste momento, todos os rádios ligados a esta torre de comunicações só conseguem comunicar entre eles, ao invés de poderem comunicar com a restante rede como seria numa situação normal. É aqui que se encontra o centro das operações, pelo que toda a rede SIRESP deixa de poder comunicar com o posto de comando, à exceção dos rádios ligados a esta estação.
  • 20H26: A esta hora, entram igualmente em modo local as estações de Malhadas e Pampilhosa da Serra, isolando as comunicações para os operacionais a elas ligados.
  • 20H32: Estação SIRESP da Serra da Lousã entra também em modo local, isolando as comunicações aos rádios ligados a ela.
  • 20H55: A esta hora, o Comando Nacional de Operações de Socorro solicita ao chefe de Divisão de Informática e Comunicações da Proteção Civil a colocação de antenas SIRESP em Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos.
  • 21H15: É solicitada pelo menos uma estação móvel à empresa que gere o SIRESP.
  • 21H22: “Por dificuldades nas comunicações da rede SIRESP”, reforça-se o recurso à rede operacional dos bombeiros, indica o Governo nas respostas enviadas ao CDS-PP. É a primeira referência concreta a problemas relacionados com o sistema de comunicações de emergência do Estado. Nesta altura, o IC8 já está cortado ao quilómetro 88, já existem várias pessoas feridas (incluindo uma criança inconsciente) e o número de operacionais envolvidos no combate ao fogo já ascende as três centenas.
  • 21H38: Por esta altura, há relatos do desaparecimento de uma criança de quatro anos. O posto de comando operacional é informado, minutos antes, de que o vento é “forte” e que o incêndio arde “com intensidade” em quatro frentes. Às 21h38, o Comando Nacional de Operações de Socorro solicita a deslocação de “uma estação móvel do SIRESP/PSP” para a zona industrial de Pedrógão Grande, o que só aconteceria no dia seguinte.
  • 22H00: Fogo é combatido por 475 bombeiros, apoiados por 142 veículos, quatro helicópteros e duas máquinas de rasto do Exército.
  • 22H15: GNR corta o troço da estrada nacional 236-1, que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera, já depois da “localização das vítimas mortais”.
  • 23H30: A confirmação das primeiras 19 mortes é comunicada ao secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes: 16 na nacional 236-1 e três por intoxicação por inalação de fumo. Só mais tarde houve a confirmação de 33 mortes nesta estrada: “30 num pequeno troço da via e três alguns quilómetros mais adiante”. Seriam ainda encontrados 14 corpos “em estradas e caminhos de acesso” a esta estrada.

Domingo, 18 de junho

  • 03H53: Estação SIRESP de Figueiró dos Vinhos entra também em modo local. É a estação mais próxima dos locais onde se registaram a maioria das mortes, mas por esta altura, o fogo já por aqui passou. A esta hora, a maioria das estações fixas do SIRESP já só permitem comunicações com os rádios ligados a cada uma delas. Na região mais interior de Pedrógão Grande, estarão ainda ativas as estações da serra do Cabeço do Pião (a noroeste de Pedrógão Grande) e Oleiros (a este). Existem ainda oito outras estações SIRESP totalmente funcionais na região envolvente mas mais exterior, não estando apurado que cubram a área mais interior do incêndio.
  • 6H26: A primeira estação móvel do SIRESP chega ao teatro de operações para “suprir os constrangimentos nas comunicações da rede”. Foi iniciado o processo de montagem e ligação à rede SIRESP, processo que só ficaria concluído três horas depois.
  • 9H32: Estação móvel SIRESP em Pedrógão Grande entra em funcionamento.
  • 11H44: Estação base de Pedrógão Grande volta a entrar em funcionamento normal.
  • 18H07: Entra em funcionamento a estação móvel SIRESP na localidade de Avelar, a oeste de Figueiró dos Vinhos.
  • 21H10: Estação base de Figueiró dos Vinhos volta a entrar em funcionamento normal.

Segunda-feira, 19 de junho

  • 14H55: Estação base da Serra da Lousã volta a entrar em funcionamento normal.
  • 15H27: Estação base de Malhadas volta a entrar em funcionamento normal.
  • 19H15: Estação base de Pampilhosa da Serra volta a entrar em funcionamento normal.

Quarta-feira, 21 de junho

  • 16H44: Incêndio é dado como dominado. Os trabalhos de combate só seriam totalmente concluídos no dia seguinte, pelas 23h49, iniciando-se o período de vigilância.

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António Costa

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