Economia dá a volta. “Fui eu”, reclama a direita nas redes

Álvaro Santos Pereira, Aguiar Branco, Teresa Morais ou Miguel Poiares Maduro são alguns dos responsáveis do anterior Executivo que reivindicam sucessos atuais com políticas passadas da sua autoria.

As redes sociais servem cada vez mais como veículo de mensagens políticas. À porta das autárquicas, isso ainda é mais visível, mas desde que PSD e CDS deixaram o Governo vários governantes têm usado o Facebook ou o Twitter para reivindicar sucessos que resultaram de intervenções suas. O desemprego, o défice e o PIB são os indicadores que mais disputados, mas esta é uma reação transversal a várias temáticas. O ECO recolheu as reivindicações dos ex-ministros e secretários de Estado, quase dois anos depois de terem deixado o Governo.

A guerra dos números económicos passa pelas redes sociais

Foi no terceiro trimestre do ano passado que o PIB começou a surpreender pela positiva. Nessa ocasião, José Pedro Aguiar Branco aproveitou a ocasião para reivindicar parte dessa subida com a venda de F-16. “Um dos contributos para a subida do PIB, segundo o INE. Venda prevista desde 2006, concretizada em 2015 pelo anterior Governo”, escreveu o ex-ministro da Defesa Nacional na sua página de Facebook.

Já em julho deste ano, o ex-ministro da Economia reconheceu o bom momento da economia a crescer “perto de 3%”. “Vale a pena reformar“, escreveu Álvaro Santos Pereira no seu Twitter. Também em maio, o agora deputado do CDS, João Almeida, ex-secretário de Estado da Administração Interna, escrevia no seu Facebook que “se o resultado [do PIB] é bom e a forma pela qual foi obtido é aquela que sempre defendemos (e o contrário da que defendia a esquerda), não há porque dizer mal”.

Em abril, foi a vez da agora deputada do PSD, Teresa Morais, ex-secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade, escrever na sua página de Facebook que o atual Governo “vive da herança que recebeu no plano económico e de expedientes orçamentais para criar a ideia de que cumpre sustentadamente as metas”.

Dentro da economia, também as exportações foram alvo de testes de paternidade. Este foi um dos pilares da estratégia económica do Governo anterior. “Um gráfico para quem pensa que a economia portuguesa não teve uma mudança estrutural nos últimos anos“, mostrava Álvaro Santos Pereira em março deste ano no Twitter.

Já esta semana, com a divulgação do crescimento de 2,8% do PIB no segundo trimestre deste ano, Álvaro Santos Pereira voltou a reclamar para si os louros e a insistir na ideia de que “vale a pena reformar”. O antigo ministro argumenta que o PIB crescia 1% “antes das reformas” e agora, “após reformas”, está a crescer perto dos 3%.

A reivindicação também passa pela ironia. Foi o que utilizou Pedro Silva Martins, ex-secretário de Estado do Emprego: “A retoma atual é mérito do PS porque este provocou o resgate de 2011 e obrigou o PSD à austeridade/reformas de 2011-15”, ironizou na sua página do Twitter.

A questão da competitividade do país tem sido um dos assuntos mais discutidos por causa da reversão de várias reformas. Um assunto levantado por Filipe Lobo d’Ávila, ex-secretário de Estado da Administração Interna, no seu Facebook: “No Global Competitiveness Index 2016-2017 Portugal desce oito lugares”, referiu. “Com o Governo anterior – e apesar do resgate – Portugal era 38.º. Agora passou a ser 46.º”, recordou, classificando-o de “um péssimo indicador”.

O défice a baixar…

Esta foi a grande luta entre esquerda e direita no último ano e meio. Começou pelo valor do défice em 2015 — por causa da resolução do Banif — e prolongou-se até ao défice de 2016.

A dezembro de 2016, Miguel Poiares Maduro, ex-ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, criticou uma entrevista de António Costa por só ter um “suposto sucesso” relativo às finanças públicas. “O primeiro-ministro vir assumir o mérito de um défice inferior a 3%, quando o grande esforço para aí chegar ocorreu nos anos anteriores (tendo-se partido de um défice superior a 10%!) é um pouco como um jogador que entra nos últimos segundos de uma final, nem sequer toca na bola mas depois levanta a taça da vitória e diz que o mérito é seu…!”, exemplificou num post na sua página de Facebook.

Já em março deste ano, quando foi divulgado o défice de 2016, Álvaro Santos Pereira citou uma notícia do Financial Times sobre a novidade. “As reformas e a responsabilidade orçamental continuam a compensar”, escreveu o ex-ministro da Economia no seu Twitter. Na mesma altura, foi a vez de Teresa Morais reivindicar para o seu Governo a preocupação com o controlo do défice: “Quem diria que o défice, cujo controlo foi sempre uma preocupação do Governo anterior, tão criticada pela atual maioria, se tornaria no único e exclusivo objetivo da governação socialista e dos seus parceiros da esquerda radical, mesmo que conseguido à custa de medidas extraordinárias e de enormes cortes nas áreas sociais?”, questionou no seu Facebook.

Meses depois, Portugal saiu do Procedimento por Défices Excessivos (PDE), uma “boa notícia” para a atual líder do CDS e ex-ministra da Agricultura e do Mar. Assunção Cristas escreveu na sua página de Facebook que “a saída do défice excessivo é fruto do esforço de muitos e muitos portugueses e é um procedimento ao qual não queremos voltar”. E reivindicou para o seu Governo uma vitória anterior: “Pena que o Governo socialista não se tivesse empenhado para que acontecesse mais cedo, uma vez que o défice de 2015 acabou por ficar nos 2,98% sem contar com o efeito Banif“, rematou.

… e o desemprego a cair

Se há tema que faz os políticos escreverem nas redes sociais é o desemprego. Os números dos últimos meses têm mostrado uma melhoria cada vez mais presente do mercado de trabalho. Ainda esta semana o INE divulgou a taxa de desemprego do segundo trimestre de 2017 que ficou abaixo dos 9%. Quem é responsável? O Governo atual reivindica para si os louros, mas Álvaro Santos Pereira, ainda recentemente, fez questão de relembrar a “reforma laboral de 2012 e o acordo de concertação social”.

Também o seu secretário de Estado do Emprego de então, Pedro Silva Martins, agradeceu um elogio à reforma do mercado de trabalho de 2012. “Mesmo não sendo tão prioritário, seria importante que se continuasse a reformar agora, com a economia a crescer”, escreveu em julho no Twitter. Ainda em abril, o economista tinha partilhado um gráfico do Banco Central Europeu com uma comparação entre a evolução do mercado de trabalho com reformas e sem reformas.

“Quem esteve contra a reforma laboral de 2012 deve estar arrependido”, escrevia também o ex-ministro da Economia num tweet datado de abril. Pela mesma altura, quando a taxa de desemprego ficou abaixo dos 10%, a notícia foi classificada por João Almeida como “excelente”. Mas o deputado centrista reivindicou para o seu Governo parte da paternidade destes números: “Tem sido um caminho difícil, iniciado no Governo anterior, com continuidade durante o atual Governo”, escreveu no Facebook.

“Não tenho qualquer reserva em reconhecê-lo”, disse. Mas pediu a moeda de troca: “Espero que quem agora governa também não tenha reservas em reconhecer quem, e quando, conseguiu inverter a tendência de crescimento galopante do desemprego“, acrescentou o ex-secretário de Estado da Administração Interna.

Outra das polémicas à volta da reforma laboral incidiu num relatório da OCDE sobre o seu efeito. “Mas afinal que razão explica que o primeiro-ministro desconheça um relatório desta importância e o ministro o desvalorize afirmando não o ter lido? A razão é simples: o documento elogia as políticas do anterior Governo!”, escreveu Teresa Morais no seu mural do Facebook. O documento “não corrobora a tese que convém ao Governo, portanto, esconde-se”, conclui a deputada social-democrata.

Dentro do tema laboral, também o ex-secretário de Estado da Administração Local, António Leitão Amaro, reivindica para o seu Governo a redução da desigualdade nos salários. Já quanto à igualdade de géneros no trabalho, também Teresa Morais tem reivindicações: “O ministro-adjunto, em declarações proferidas após a aprovação de uma lei de quotas para as empresas, terá declarado ‘é um primeiro passo na concretização das medidas de promoção de igualdade entre homens e mulheres em cargos de decisão’. Primeiro passo? Só se for deste Governo que, de facto, num ano nada fez neste domínio embora o tivesse anunciado desde que tomou posse“, escreveu na sua página de Facebook, relembrando o trabalho realizado no anterior Governo.

A subida do turismo

Ao ter contribuído para a recuperação do PIB e da balança comercial dos serviços, o turismo passou a estar no centro do discurso político. Em Lisboa e no Porto, os números de turistas já são tão elevados que se discutem as consequências negativas da sua presença. Ainda assim, é o ex-secretário do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, quem defende a estratégia do Governo anterior na sua página de Facebook.

“A mudança na política de promoção turística de Portugal foi das mais ousadas e ambiciosas decisões políticas que tomámos no Governo, a Cecília Meireles e eu”, reivindicou, acrescentando que “foi no entanto o trabalho de muita gente, a inspiração de muita gente, e a liderança do Turismo de Portugal, que a tornou possível”.

A tese é corroborada pelo ex-ministro da Economia que, citando um tweet da atual secretária de Estado do Turismo, escreveu que “Portugal tem sido o país europeu cujas receitas do turismo mais têm crescido”. Mais uma questiona: “O que mudou?” A sua resposta encaminha-se novamente na herança deixada pelo seu mandato no Governo. “A liberalização e as reformas do setor em 2012/13“, escreveu Álvaro Santos Pereira.

Entre as discussões à volta do turismo está também a do alojamento local e a do arrendamento. Também a líder do CDS reivindicou para o seu Governo uma alteração da reforma do arrendamento. “Os números hoje mostram que a reforma foi positiva, contribuiu para animar o mercado de arrendamento e a reabilitação urbana e decorreu num clima de paz social e tranquilidade, protegendo os mais idosos e as pessoas em situação de carência económica”, escreveu na sua página de Facebook.

Do pastel de nata ao lince ibérico

Apesar de o desemprego, o PIB e o défice terem dominado o discurso políticos nos últimos anos, também há reivindicações noutras áreas tão específicas como o pastel de nata ou o lince ibérico. O primeiro foi alvo de polémica na altura de Álvaro Santos Pereira e posteriormente defendido por Carlos Oliveira, ex-secretário de Estado da Inovação, Investimento e Competitividade. O segundo caso é reivindicado por Miguel de Castro Neto, ex-secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza.

Já o ex-ministro da Defesa Nacional reivindica para si a igualdade de género no Colégio Militar. “Fui o responsável, enquanto ministro da Defesa, pela mediática reforma que acabou com a descriminação de género naquela instituição”, escreveu José Pedro Aguiar Branco no seu Facebook. E o ex-ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional escreveu sobre as mudanças na RTP: “No que diz respeito ao modelo de governo e financiamento do serviço público de rádio e televisão esta avaliação muito positiva não podia ser mais atual face a uma ‘pequena’ (mas extraordinariamente perigosa) alteração prevista no OE para 2017”.

O Facebook do ex-ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, também tem servido para reivindicar o sucesso das reformas do Governo anterior. Tal aconteceu, por exemplo, na área dos combustíveis: “É extraordinária a desfaçatez do atual secretário de Estado da Energia que, nesta notícia, não só omite como até reclama como sua a autoria de uma medida do anterior Governo”, escreveu no seu Facebook, referindo a poupança que deram aos cidadãos. Também no que toca a um assunto tão específico como os sacos plásticos há um reparo: “Um enorme êxito ambiental, sem paralelo noutras experiências à escala internacional”, classificou, criticando o Governo atual por “truncar” os números que divulgou para disfarçar o mérito das suas políticas.

Também nos números dos emigrantes houve bastante discussão. “A verdade é que a redução de tal fluxo migratório até é hoje menor do que em 2014 e em 2015”, reivindicou no seu Facebook o ex-secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário. “A propaganda do Governo não pode reescrever a realidade”, ripostou ao citar uma notícia que dava conta que o atual ministro dos Negócios Estrangeiros dizia que pela primeira vez o número de emigrantes tinha baixado.

Por fim, a Educação. Também nesta área existem várias rivalidades entre Nuno Crato e Tiago Brandão Rodrigues. Tal veio à tona com os resultados do estudo PISA. Nessa altura, Teresa Morais escreveu no Facebook: “Se fosse intelectualmente sério o Ministro da Educação daria os parabéns ao anterior governo!” “Faltou-lhe dar os parabéns ao anterior governo pelas reformas que implementou no sistema educativo, pela exigência, rigor e estrutura curricular, que contribuíram evidentemente para estes resultados”, reivindicou.

Artigo atualizado às 13h51 de 14 de agosto de 2017, com reação e Álvaro Santos Pereira ao crescimento do PIB no segundo trimestre do ano.

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