Um dólar é 2,5 vezes mais caro nas ruas de Luanda

  • Lusa
  • 24 Novembro 2017

Comprar um dólar no mercado paralelo e ilegal das ruas de Luanda está a custar cerca de 410 kwanzas (2,10 euros), valor que é duas vezes e meia mais caro do que a taxa de câmbio oficial.

O preço para comprar um dólar norte-americano nas ruas de Luanda manteve-se estável na última semana, mas continua esta sexta-feira a ser transacionado à volta de 410 kwanzas (2,10 euros), duas vezes e meia acima da taxa de câmbio oficial. O custo de cada dólar no mercado paralelo chegou a rondar, após as eleições gerais de 23 de agosto, os 370 kwanzas, quando a taxa de câmbio oficial definida pelo Banco Nacional de Angola (BNA) está há um ano e meio fixa nos 166 kwanzas (85 cêntimos de euro).

“O negócio está a apertar muito nos últimos dias, os fiscais estão a fiscalizar muito”, explicou à Lusa uma das ‘kinguilas’ de Luanda, como são conhecidas as mulheres que se dedicam à compra e venda de divisas. Face à possibilidade de uma forte desvalorização do kwanza a curto prazo, o valor do dólar no mercado de rua de Luanda disparou na primeira semana de novembro até aos 430 kwanzas (2,25 euros), máximos desde janeiro.

Numa ronda realizada esta sexta-feira pela Lusa, foi possível encontrar em Luanda cada dólar a ser vendido entre 400 e 410 kwanzas, em bairros de referência da capital, casos do Mártires de Kifangondo, Mutamba, Maculusso e São Paulo. Só a falta de moeda nacional em circulação, relatam estas ‘kinguilas’, está a travar a subida na cotação da moeda estrangeira.

Este negócio, apesar de ilegal e condenado pelo BNA, representa para muitos, angolanos e trabalhadores expatriados, a única forma de aceder a divisas, face às limitações nos bancos, funcionando a cotação de rua como referência para alguns negócios. O Presidente angolano, João Lourenço, ordenou na segunda-feira, ao novo comandante-geral da Polícia Nacional, comissário-geral Alfredo Mingas, para reforçar o combate ao negócio da venda ilegal de divisas nas ruas, por terem atingido “níveis preocupantes”.

A Lusa noticiou este mês que o dinheiro em circulação em Angola voltou às quebras em setembro, para 434.321 milhões de kwanzas (2.250 milhões de euros) em notas e moedas, depois de em agosto ter atingido o valor mais alto em seis meses. De acordo com o relatório sobre a Base Monetária Ampla do BNA, entre agosto e setembro foram retirados de circulação (física) no país mais 16.702 milhões de kwanzas (86,5 milhões de euros).

“O nosso país encontra-se numa situação económica e financeira difícil, resultante da queda dos preços do petróleo no mercado internacional e da consequente liquidez em moeda externa”, admitiu o Presidente angolano, João Lourenço, na Assembleia Nacional, a 16 de outubro.

Esta conjuntura, recordou, levou as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) do Estado – que estão a ser vendidas aos bancos comerciais para compensar a falta de divisas – a “uma preocupante contração acumulada de 46,4%” entre 2013 e o segundo trimestre de 2017, “como consequência dos sucessivos défices das balanças de pagamentos, devido à diminuição do valor das exportações petrolíferas”.

“Neste contexto, impõe-se a tomada de medidas de política necessárias e inadiáveis, de modo a alcançar-se a estabilidade macroeconómica do país, com a pedra de toque no equilíbrio das variáveis macroeconómicas suscetíveis de garantir os equilíbrios internos e externos do país e as condições necessários para estimular a transformação da economia, o desenvolvimento do setor privado e a competitividade”, disse.

Alguns economistas têm apontado, nas últimas semanas, a possibilidade de uma forte desvalorização do kwanza, moeda nacional, face ao dólar norte-americano, possivelmente à volta de 30%, mas João Lourenço não adiantou medidas concretas neste discurso.

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