Portugal já é menos arriscado que Itália para os investidores

No dia em que a Fitch deverá retirar Portugal do nível "lixo", as obrigações portuguesas já negoceiam a uma taxa inferior àquela que é exigida pelo mercado para comprar obrigações italianas.

A dívida portuguesa já comporta menor risco para os investidores do que a dívida italiana, com o bom momento de Portugal nos mercados a ser influenciado pelas expectativas de que a agência Fitch vai retirar o país do “lixo” esta sexta-feira.

Isto acontece depois de as obrigações portuguesas a dez anos terem passado a negociar a uma taxa inferior àquela que é exigida pelos investidores para comprar obrigações italianas no mesmo prazo, algo que o mercado já não observava desde o final de 2009, altura em que Portugal passou para os holofotes internacionais com a instabilidade das dívidas soberanas na Zona Euro.

A yield implícita na dívida portuguesa a dez anos cai esta sexta-feira mais de quatro pontos base para 1,774%. Compara com a taxa de 1,781% da dívida italiana. A diferença entre as duas taxas é agora favorável a Portugal, o que quer dizer que Portugal já é menos arriscado que Itália para o mercado.

Juros a dez anos já estão mais baixos em Portugal

Fonte: Bloomberg

“A verdade é que ambas as economias apresentam o mesmo nível de dívida face ao Produto Interno Bruto (PIB), em torno de 130%. Mas a economia portuguesa parece apresentar maior dinamismo, está a crescer um pouco mais do que a economia italiana”, diz ao ECO o economista-chefe da Schroders, Keith Wade.

“Outra coisa que têm em comum: o sistema bancário nos dois países tem problemas com os elevados montantes de crédito malparado. Há muitas semelhantes e não me surpreende que apresentem o mesmo nível de risco. Há boas razões para ambos terem o mesmo nível de risco, sim. Não estou surpreendido com esta situação“, reforçou o especialista.

"A verdade é que ambas as economias apresentam o mesmo nível de dívida face ao Produto Interno Bruto (PIB), em torno de 130%. Mas a economia portuguesa parece apresentar maior dinamismo, está a crescer um pouco mais do que a economia italiana.”

Keith Wade

Econmista-chefe da Schroders

O facto ganha maior relevância se tivermos em atenção que o rating atribuído pelas agências de notação financeira colocam Itália num patamar bem acima face a Portugal. O que parece contraditório, dado que este rating avalia o perfil de risco dos países.

Nos casos da Moody’s e da Fitch, por exemplo, há dois níveis a separar os ratings de Itália e Portugal, com vantagem para os primeiros. Em relação à Standard & Poor’s, depois de ter melhorado a notação portuguesa em setembro, retirando o país do patamar considerado “investimento especulativo”, a diferença entre o rating português e italiano esbateram-se para um nível apenas.

O que é um rating?

Tudo conjugado, isto quer dizer que os investidores confiam mais em Portugal do que em Itália, ao contrário das agências de rating, que atribuem aos portugueses uma menor capacidade de cumprir com as suas obrigações financeiras.

É um bom indicador” que, em conjunto com outros, mostram que Portugal “está num bom momento”, disse Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, citado pela Lusa. “O que devemos fazer não é deitarmo-nos à sombra dele, mas aproveitá-lo para o transformar em mais um momento” que permita um continuado processo de crescimento, disse ainda.

Os analistas do Rabobank tentam uma explicação com base no exemplo irlandês. As obrigações irlandesas também estão a evidenciar um bom desempenho face às obrigações da Bélgica e da França, isto apesar de a Irlanda ter um rating dois níveis abaixo do que os seus pares de referência. Explicam que tal movimento no mercado de dívida se deva ao facto de a Irlanda ter um montante de dívida transacionável no mercado “relativamente pequeno” face ao total da dívida, o que é uma “característica que Portugal partilha”.

Num cenário em que admite como “provável” uma melhoria do rating português pela Fitch, o Rabobank via as taxas da dívida portuguesa a dez anos a convergirem em direção às taxas italianas. O mercado antecipou e já atribui menor risco a Portugal do que a Itália.

(Notícia atualizada às 13h30 com declarações do ministro Augusto Santos Silva)

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