Moody’s dá cartão vermelho à eficiência da Administração Pública e à competitividade do mercado em Portugal

A agência de rating avisa que o ímpeto reformista em Portugal, e noutros países afetados pela crise, diminuiu recentemente. Administração Pública e competitividade são os pontos fracos.

A eficiência da Administração Pública ou a competitividade do mercado em Portugal melhorou desde a crise? A Moody’s diz que não. Para os analistas da agência de rating o ímpeto reformista diminuiu, contrastando com as reformas implementadas nos primeiros anos da crise. Num evento em Lisboa organizado pela Moody’s, esta quinta-feira, Evan Wohlmann, analista de ratings soberanos, avisa que não houve melhorias nesses campos.

Este cartão vermelho da Moody’s está relacionada com uma preocupação que a agência de notação tem para a zona euro: “A dinâmica de reformas estruturais não se manteve recentemente, em comparação com os primeiros anos da crise”, avisou Evan Wohlmann. O problema não se colocará a curto prazo, mas as pressões demográficas e o legado que se manteve da crise poderá criar um ambiente negativo para os desenvolvimentos a longo prazo.

Para já, a mensagem da Moody’s sobre Portugal e a zona euro é positiva. Até os ‘caracóis’ do crescimento económico aceleraram registando subidas do PIB acima da média, aponta a agência de rating, referindo que apenas a Itália está com perspetivas negativas. E a recuperação tem uma “base ampla”, o que reforça a sua sustentabilidade. Em Portugal, o analista elogia a recuperação do investimento, mostrando confiança de que a tendência vai manter-se nos próximos anos nomeadamente por causa dos fundos europeus.

A dinâmica de reformas estruturais não se manteve recentemente, em comparação com os primeiros anos da crise.

Evan Wohlmann

Analista de ratings soberanos

A agência de notação financeira destacam o crescimento das exportações que está a ser o motor da recuperação económica, o que contrasta com outras recuperações de crises. A Moody’s espera ainda mais melhorias nas balanças comerciais dos países europeus. Além disso, regista a evolução na taxa de desemprego que tem atingido mínimos de muitos anos, como acontece em Portugal. Contudo, Evan Wohlmann assinala que o desemprego jovem continua a ser um problema, o que poderia ser resolvido com mais reformas estruturais.

Apesar de confiar nos Estados-membros para diminuir o seu défice, a Moody’s duvida que a maior parte dos países europeus seja capaz de reduzir o défice estrutural em 2017, face a 2016. Além disso, a dívida também está a estabilizar e a diminuir em alguns países, mas segundo a agência de rating os níveis elevados de endividamento público só desceram aos níveis de 2010 em 40% dos países da União Europeia. Portugal faz parte da outra metade que ainda não chegou lá.

Quanto à cada vez mais perto retirada dos estímulos do Banco Central Europeu, a Moody’s não está preocupada, assinalando que choques provenientes de um menor crescimento económico ou um défice maior seriam mais graves para a dívida pública portuguesa. Para a agência de rating há um tempo entre o fim do programa do BCE e o impacto do choque na taxa de juro de Portugal, dado o trabalho feito pelo IGCP na gestão da dívida.

A Moody’s é a única das grandes agência que mantém o rating português em “lixo”, ainda que com um outlook positivo. A próxima avaliação está marcada para 20 de abril.

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