Cambridge Analytica demite o seu presidente, Alexander Nix. Crise no Facebook continua

  • ECO e Lusa
  • 21 Março 2018

O dossiê da violação de dados de 50 milhões de utilizadores do Facebook continua a ter desenvolvimentos. Sai o presidente da Cambridge Analytica e Mark Zuckerberg é chamado a prestar contas.

A Cambridge Analytica, acusada de ter obtido ilegalmente dados de utilizadores do Facebook, anunciou na terça-feira a suspensão do presidente, depois de uma televisão britânica publicar um vídeo em que aparece a sugerir armadilhas para políticos. Alexander Nix está suspenso com “efeito imediato na expectativa de uma investigação completa e independente”, escreveu a administração da Cambridge Analytica, em comunicado.

A empresa escreveu que os “comentários” de Nix gravados pelo Channel 4, bem como outras “alegações” formuladas contra si, “não representam os valores” da empresa. A cadeia televisiva Channel 4 News difundiu uma investigação na qual Alexander Nix aparecia gravado, com recurso a uma câmara escondida. Questionado por um repórter, que se fazia passar por um rico natural do Sri Lanka, que desejava conseguir fazer eleger candidatos políticos, ele sugeriu técnicas para colocar em dificuldade um rival político.

Assim, oferecer “uma grossa quantia de dinheiro ao candidato para financiar a sua campanha em troca de terrenos, por exemplo, ter tudo gravado, (após o que) apagar o rosto do nosso interlocutor e colocar o vídeo na internet”, ou ainda “enviar mulheres para a residência do candidato”. Questionado pelo diário The Times, Alexander Nix desmentiu ter tentado armadilhar homens políticos.

Especializada em comunicação estratégica, a Cambridge Analytica é acusada de se ter apropriado de dados de 50 milhões de utilizadores da rede social Facebook para elaborar um programa informático que permitisse prever e influenciar o comportamento eleitoral, revelaram no sábado os diários London Observer e o New York Times. As autoridades britânicas estão a investigar a empresa Cambridge Analytica pelo seu tratamento destes dados pessoais. Mas a empresa nega irregularidades.

A Cambridge Analytica trabalhou para a campanha do candidato republicano Donald Trump, eleito Presidente dos EUA no final de 2016. Depois das revelações sobre este caso, a Facebook anunciou que encerrou a conta da firma. Alexander Nix afirmou ter-se encontrado “muitas vezes” com Trump, mas não forneceu detalhes e referiu que a empresa enviou e-mails com um “temporizador de autodestruição” durante a campanha Trump para tornar seu papel mais difícil de rastrear.

Parlamento Europeu pede contas a Zuckerberg

O presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, instou o fundador e administrador executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, a prestar contas aos eurodeputados sobre o uso de dados de cidadãos europeus na sequência do escândalo da Cambridge Analytica.

Uma comissão parlamentar do Reino Unido também tinha anunciado que convocou Mark Zuckerberg para responder sobre o alegado uso de dados da rede social para influenciar indevidamente processos eleitorais. Por outro lado, a comissária da informação do Reino Unido, Elizabeth Denham, também já disse que vai usar todos os poderes ao seu alcance para investigar o Facebook e a Cambridge Analytica. A comissária está a tentar obter um mandato para fazer uma busca aos servidores da Cambridge Analytica.

O método de colheita de dados usado pela Cambridge Analytica também motivou investigações por parte da União Europeia, bem como de responsáveis federais e estaduais nos Estados Unidos. A Comissão de Proteção de Dados da Irlanda (DPC) vai analisar o uso da publicidade política no Facebook, também devido ao alegado uso indevido de dados por parte da Cambridge Analytica.

Investigação ao Facebook pode dar origem a multa milionária

A Comissão Federal do Comércio, dos EUA, abriu uma investigação ao Facebook que poderá implicar uma multa milionária, perante estas suspeitas de facilitar informação relativa a 50 milhões de utilizadores a uma empresa ligada a Donald Trump.

A Cambridge Analytica tem entre os seus investidores o chefe da campanha eleitoral de Trump em 2016 e posteriormente assessor deste na Casa Branca, até se demitir, Steve Bannon. O Facebook já rejeitou as alegações, mas o facto de a Cambridge Analytica ter admitido que teve acesso a informação de milhões de utilizadores daquela rede social implica uma de duas: ou o Facebook sofreu um roubo de informação, ou violou as suas regras e facilitou os seus arquivos a terceiros, conclui o jornalista Rafael Salido, da agência Efe.

Em 2011, a Facebook comprometeu-se a solicitar o consentimento dos seus utilizadores antes de fazer determinadas alterações nas preferências de privacidade daqueles, como parte de um acordo com o Estado, que então a acusava de abusar dos consumidores, ao partilhar com terceiros informação não autorizada. Por este motivo, a suspeita de que a rede social pode ter facilitado esta informação à Cambridge Analytica pressuporia que o Facebook violou o acordo, do que poderia resultar uma multa diária de 40 mil dólares (33 mil euros) diários por cada violação, como informou a Bloomberg.

Esta possibilidade, bem como a perda de atração das ações Facebook, tiveram nos últimos dois dias um claro reflexo em Wall Street, com desvalorizações de quase 7% na segunda-feira e mais 2,56% esta terça-feira. Acresce que, segundo o The New York Times, o chefe de segurança da Facebook, Alex Stamos, anunciou a sua saída do cargo, devido a desacordos internos sobre como a rede social se deve posicionar perante a difusão de informações falsas.

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