Há seis anos que não se produzia tão pouco vinho em Portugal

A primavera chuvosa, o calor de agosto e o granizo recente comprometeram a produção vitivinícola. A campanha deste ano deverá ser, assim, a mais baixa dos últimos seis anos, adianta o IVV ao ECO.

O ano tem sido difícil para as vinhas portuguesas. Ao ECO, o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) adianta que esta será mesmo a “campanha mais baixa dos últimos seis anos” devido às condições meteorológicas “atípicas” verificadas nos últimos meses. Isso em quantidade. Já quanto à qualidade dos bagos, os produtores estão confiantes, sublinha fonte da entidade.

Quantidade de vinho produzida deverá ser pouca, viticultores estão confiantes quanto à sua qualidade.Pixabay

“Este tem sido um ano um bocadinho atípico”, explica Francisco Rico. Segundo o responsável do Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a primavera “húmida e chuvosa”, a “onda de calor” de agosto e as “quedas de granizo” das últimas semanas comprometeram a produção vitivinícola deste ano.

Apesar de todo o território nacional ter sido afetado, Rico salienta que se registaram algumas variações regionais. No que diz respeito às perdas provocadas por escaldão, o “maior impacto foi registado em Lisboa, Alentejo e Setúbal”. No norte, os efeitos da onda de calor foram “um pouco menores”, mas a proliferação de doenças como o míldio fazem desta zona uma das que se encontra atualmente num estado mais debilitado.

“Não é devido ao escaldão que irá haver grande diminuição da produção deste ano”, corrobora o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP). Em declarações ao ECO, o Conselho Diretivo dessa entidade reforça que “existem outros fatores que poderão afetar a produção, nomeadamente a persistência e resistência de míldio”. “O certo é que haverá diminuição face à anunciada nascença que prometia boas produções”, garante o IVDP.

Algarve sai ileso?

Algarve beneficiou de um clima mais ameno.Pixabay

Ao contrário das regiões centro e norte do país, o Algarve não deverá registar “qualquer quebra na sua produção vitivinícola” deste ano, perspetiva o IVV. Esta zona desfruta de um clima mais ameno, fruto da sua proximidade do mar e, portanto, esteve menos sujeita às agravantes referidas, o que protegeu as suas vinhas.

A Comissão Vitivinícola do Algarve já tinha adiantado que a vaga de calor de agosto “não se fez sentir de forma significativa” na região, mantendo-se a perspetiva de um novo aumento de produção.

Por outro lado, no Alentejo, “há produtores que perderam quase tudo”, nota o vice-presidente do Instituto da Vinha e do Vinho, Francisco Rico. Mesmo nesta zona, verificam-se, no entanto, disparidades, sobretudo relacionadas com as variações do stress hídrico.

À Lusa, a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) tinha explicado que o escaldão comprometeu o objetivo de aumentar em 15% a produção de vinho, depois de três anos consecutivos de perdas.

Chuvas não trouxeram só desvantagens

Chuvas permitiram reforçar expansão vegetativa, o que evitou o agravamento dos danos provocados pelo sol.27 Junho, 2018

De acordo com o Instituto do Vinha e do Vinho, estas condições meteorológicas “atípicas” afetaram sobretudo as “vinhas novas ou que tinham sido desfolhadas”, bem como aquelas que estão orientadas a sul ou a poente por estarem mais expostas aos elementos.

Nesse sentido, o IVDP acrescenta que a “boa expansão vegetativa” das vinhas, resultante das chuvas do início do ano, teve uma “ação protetora para os cachos” e acabou por diminuir “o efeito da forte incidência do sol”.

Os principais fatores de risco foram assim “a localização, a exposição, a idade da vinha e a própria casta”, determina o vice-presidente do IVV. Por exemplo, nas castas brancas, a Casta Arinto e a Casta Fernão-Pires foram as mais afetadas.

Prejuízos? Não necessariamente

Uma fatia significativa dos viticultores estão protegidos por seguro de colheitas.

É certo que a este ano haverá menos uvas para transformar em vinho, mas nem tudo são más notícias para os agricultores. O vice-presidente do IVV sublinha que essa situação “não é sinónimo de prejuízo”, já que se deverá registar uma tendência do preço pago pelos cachos. A exceção são, pois, os portugueses que perderam a maior parte das suas produções, uma vez que nesses casos, mesmo com preços mais elevados, será difícil compensar a diferença.

O IVDP adianta, deste modo, que “por efeito da perda de produção”, deverá “existir uma redução de rendimento para alguns viticultores”. Na mesma região, as adegas cooperativas já demonstraram a sua preocupação com os possíveis “preços especulativos”.

Por outro lado, Francisco Rico salienta que 33% dos viticultores nacionais estão protegidos por seguro de colheitas, o que equivale a 40% da vinha lusitana. “Consideramos que este é o melhor instrumento para proteger os investimentos”, diz o vice-presidente do IVV. Destes 33%, 25% têm cobertura especificamente para o caso de escaldão, o que equivale a 60% da área de vinha.

Por último, o responsável do instituto público sublinha que, apesar da vindima ainda estar muito no início, os produtores estão confiantes quanto à qualidade dos bagos. Sim, a colheita deste ano terá de ser “mais seletiva”, isto é, terá de se ter o cuidado de separar os cachos afetados dos que resistiram às intempéries, mas perspetiva-se “muito boa qualidade”.

Em fevereiro, em declarações ao ECO, o presidente do IVDP já explicara que a vinha “é uma planta que precisa de fazer esforço”. Portanto, acrescenta agora o líder do IVV, a quantidade desta campanha deverá ser “pouca”, mas a qualidade, essa, estará nos seus níveis “mais interessantes”.

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