Interesse dos chineses na EDP arrefeceu. Ações lideram queda na bolsa com OPA em risco

Chineses parecem estar menos interessados na EDP, perante o amontoar de inesperados obstáculos financeiros, políticos e regulatórios na concretização da OPA sobre a elétrica portuguesa.

Nos últimos meses, o interesse da China Three Gorges na portuguesa EDP arrefeceu perante os obstáculos inesperados que se foram amontoando em torno da Oferta Pública de Aquisição (OPA) dos chineses sobre a elétrica portuguesa, adiantaram várias fontes à agência Bloomberg. Há momentos, as ações da utility nacional cediam 1,8% para 3,062 euros, liderando as quedas na bolsa nacional. É mais um sinal de que o fim da OPA está aí à vista?

No final de agosto, Pequim desfez a cúpula da China Three Gorges que esteve por detrás da oferta sobre a EDP, demitindo primeiro o administrador financeiro e depois o CEO, tal como o ECO avançou em primeira mão. Estas mudanças foram inesperadas e, juntamente com as dificuldades regulatórias e financeiras, levaram a própria China Three Gorges a reavaliar “os méritos e obstáculos do negócio”, admitiram as mesmas fontes.

Oficialmente tudo está a andar sobre rodas e os chineses mantêm a oferta para adquirirem mais de 50% do capital da EDP, com as fontes ouvidas pela Bloomberg a dizerem que uma decisão final sobre o negócio de 9,1 mil milhões de euros só será tomada quando houver total clareza em relação às exigências regulatórias (que são muitas).

Enquanto o processo segue o seu curso normal, os prazos para aprovação dos reguladores na Europa e nos EUA deslizaram do final deste ano para o início do próximo, revelaram duas fontes.

Contactada, a empresa chinesa diz que continua “a trabalhar em pleno com os advisors nas negociações, com os reguladores nas diferentes jurisdições, e no preenchimento das condições para o lançamento das ofertas voluntárias” sobre a EDP e sobre a EDP Renováveis. “Os prazos atuais e o calendário para tais aprovações dos reguladores estão em linha com outras operações comparáveis tanto do ponto de vista da dimensão como de complexidade”, sublinhou ainda.

Tal como o ECO já tinha adiantado, há dificuldades do ponto de vista regulatório e político que estão a travar as ambições da China Three Gorges em Portugal. Embora o Governo chinês não tenha justificado as alterações na liderança da empresa promovidas nos últimos dias de agosto, fontes ouvidas pelo ECO disseram que Pequim tem outra estratégia naquilo que os interesses no setor elétrico: a prioridade não passa tanto pela produção (EDP) mas antes pelas infraestruturas de transporte e distribuição, onde a China já tem um ponta-de-lança de topo mundial, a State Grid, a maior empresa chinesa e que em Portugal já detém 25% da gestora da rede elétrica REN.

Esta situação está criar um enorme problema de regulação para a China Three Gorges. À luz das diretivas europeias, transpostas já para a lei nacional, deve haver uma separação clara entre os operadores da rede de transporte e as atividades de produção e comercialização. Ou seja, isto significaria que os chineses teriam de abdicar da REN para manter a EDP, mas Pequim não está para aí virado.

Mais sinais de dificuldades já haviam sido dados quando os chineses decidiram contratar mais um banco norte-americano para apoiar a operação, como o ECO deu conta em julho passado. Inicialmente, apenas o Bank of America estava a assessorar a OPA sobre a EDP, juntando-se o Citigroup, mostrando que a China Three Gorges não estava a contar com uma operação tão exigente como se está a revelar.

Com o Presidente chinês Xi Jinping de visita a Portugal no próximo mês, a operação poderá conhecer novos desenvolvimentos, sobretudo no que toca ao interesse dos Governos dos dois países em relação ao negócio.

Numa primeira reação, o primeiro-ministro português, António Costa, disse que “não tinha nada a opor” à OPA chinesa, tendo frisado em maio deste ano que os chineses “têm sido bons investidores em Portugal”.

(Notícia atualizada às 10h34)

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