“Pêlos no coração” e a “cor” de Costa. O debate quinzenal aqueceu

Depois de uma semana quente, o Governo foi ao Parlamento para um debate quinzenal que atingiu temperaturas igualmente elevadas. Não faltaram polémicas: dos CTT às polícias.

Debate quinzenal ficou marcado por dois grande temas: CTT e violência no bairro da Jamaica.Hugo Amaral/ECO

Depois de uma semana que ficou marcada pela auditoria ao banco público, pela hipótese de renacionalização dos CTT e pela onda de violência no Seixal, o Governo foi ao Parlamento, esta sexta-feira, para o segundo debate quinzenal de 2019.

Em pouco mais de hora e meia, os sete partidos questionaram o Executivo de António Costa sobre os temas mais variados — dos correios aos medicamentos, passando pelos trabalhadores independentes — chegando mesmo a inflamar o ânimo do primeiro-ministro. Em resposta a Assunção Cristas, Costa atirou: “É pela cor da minha pele que me pergunta se condeno os casos do Bairro da Jamaica?”.

É pela cor da minha pela que me pergunta se condeno ou não os casos de violência no Bairro da Jamaica?

António Costa

Primeiro-ministro

O caso dos episódios de violência no Bairro da Jamaica foi trazido primeiramente a plenário pelo comunista Jerónimo de Sousa, que pediu que se investigue a ação policial. “Uma andorinha não faz a primavera“, respondeu-lhe prontamente António Costa, pedindo “cabeça fria” e “serenidade” no tratamento desta matéria. O líder do Governo frisou ainda: “Não devemos desvalorizar qualquer ato de violência, como também não podemos dramatizar transformando em padrão”.

Seguiu o debate, mas o tema teimou em persistir. Tanto PSD como Bloco martelaram na mesma tecla e António Costa foi repetindo o apelo à serenidade. Isto até Assunção Cristas lhe perguntar se condenava ou não os atos de violência em questão. “É pela cor da minha pela que me pergunta se condeno ou não?”, respondeu o primeiro-ministro, aquecendo os ânimos em todas as bancadas parlamentares. Cristas mudou de assunto, dizendo sentir “vergonha alheia” por tal comentário.

“O primeiro-ministro tem pêlos no coração”

Deputado Fernando Negrão acusou Governo de “insensibilidade” no que diz respeito a algumas matérias da Saúde.Hugo Amaral/ECO

Mas antes de chegar seu pináculo, o debate já contava com outro momento particularmente quente despertado pela outra bancada da direita.

O social-democrata Fernando Negrão questionou o Governo sobre a falta de medicamentos nas farmácias e sobre o aumento da taxa de mortalidade infantil. António Costa respondeu-lhe, respetivamente, com a necessidade de o Estado não se deixar “capturar pelos circuitos comerciais” e de se encontrar uma “boa resposta técnica”.

A tais palavras, o deputado respondeu: “O senhor primeiro-ministro tem pêlos no coração. É insensível”. Negrão chegou mesmo a acusar o líder do Executivo de desumanidade, declarações que mereceram resposta da bancada socialista. “Estou a ver que o medicamento em falta é o Xanax [medicamente calmante]”, atirou Carlos César, com um sorriso irónico nos lábios.

“A senhora deputada esgota a paciência de um santo”

Dois dos momentos mais quentes do debate foram protagonizados pela mesma deputada: Assunção Cristas.Hugo Amaral/ECO

A auditoria da EY à Caixa Geral de Depósitos já tinha sido alvo de debate na quinta-feira e, portanto, pouca presença marcou no plenário desta manhã. Ainda assim, um dos momentos mais quentes do plenário teve exatamente este tema como mote. Assunção Cristas perguntava ao primeiro-ministro se o Parlamento, a “casa da democracia”, teria acesso ao relatório sobre o banco público. “Eu indigno-me. A paciência tem limites”, ripostou António Costa.

O líder do Executivo acusou a deputada do CDS-PP de “esgotar a paciência de um santo” e de ter sido “irresponsável” e “impreparada” nos assuntos relativos à banca quando integrava o Governo anterior. “A senhora deu uma entrevista ao Público, na qual, com o maior desplante, à vontade e total inconsciência, disse que o BES, o Banif e a CGD nunca foram discutidos em Conselho de Ministros”, lembrou o governante.

“O tom exaltado do senhor primeiro-ministro só mostra que o tema é incómodo para o PS”, não se deixou ficar Cristas.

“Temos de cumprir o contrato [dos CTT]. No final, avalia-se”

Jerónimo de Sousa abriu o debate desta sexta, pedindo a renacionalização dos CTT.Hugo Amaral/ECO

Outro dos grandes temas deste debate quinzenal foi o da eventual renacionalização dos CTT. Jerónimo de Sousa ficou encarregue de abrir o plenário e escolheu este assunto para o fazer. “É cada vez mais evidente que a grave situação que está criada só se resolve com a recuperação [dos CTT] para o setor público”, defendeu o comunista.

Na sua primeira intervenção no debate, António Costa garantiu que o contrato de concessão tem de ser “cumprido”, cabendo à ANACOM analisar o serviço em causa. Isto, é claro, até 2020, data do final do contrato. Depois, “em função da avaliação”, será preciso “decidir” o futuro do serviço postal.

“Oxalá não seja tarde”, rematou Jerónimo de Sousa. Por sua vez, Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, fez questão de frisar que o Executivo “não se pode demitir” e deixar a responsabilidade nas mãos do regulador. “O Governo não se demite de coisa nenhuma”, concluiu o primeiro-ministro, referindo, contudo, que as competências de fiscalização não estão nas suas mãos.

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