Profit warnings das grandes empresas multiplicam-se. Investidores pagam para ver

Depois da Apple, a Samsung alertou para uma queda nas receitas. Mas os avisos não se cingem ao setor tecnológico. Setor automóvel e retalho são também exemplos. Em Portugal, houve um alerta.

Tecnologia, retalho, automóvel. Os profit warnings das maiores empresas não distinguem setores nem geografias e os alertas sobre a diminuição nos lucros multiplicam-se. Apesar dos rasgos momentâneos de medo, os investidores parecem dispostos a esperar (e eventualmente pagar) para ver se o tombo é real.

A tecnológica sul-coreana Samsung foi a mais recente empresa a lançar o alerta: “os resultados [do primeiro trimestre do ano] vão ficar aquém das expectativas do mercado”, anunciou em comunicado, a duas semanas de divulgar os dados operacionais preliminares. A razão prende-se com os negócios de memória e fabrico de ecrãs, que em conjunto representam 43% das receitas.

O profit warning foi feito depois de a norte-americana Apple, que compra ecrãs à Samsung, ter cortado, em janeiro, a projeção de receitas pela primeira vez em quase duas décadas. O CEO da dona do iPhone, Tim Cook, anunciou na altura que as vendas deverão ter ficado nos 84 mil milhões de dólares, devido a uma procura abaixo do esperado no mercado chinês. O valor compara com o anterior intervalo estimado de 89 mil milhões a 93 mil milhões de dólares.

Os CEO alertaram, mas os investidores ignoraram. Em janeiro, quando foi feito o anúncio da Apple, as ações tombaram 10% e registaram a maior queda diária em quase seis anos. No entanto, desde os 142,19 dólares em que fechou a 3 de janeiro e os 197 dólares desta sexta-feira, houve uma valorização de 38,5%. No caso da Samsung, nem o efeito inicial foi expressivo: na primeira sessão após o profit warning caiu menos de 1%. Desde então valorizou 3%.

A tendência não é exclusiva do setor tecnológico. Os fabricantes automóveis têm sido altamente penalizados pela guerra comercial. Na semana passada, a alemã BMW afirmou que o lucro antes de impostos de 2019 deverá cair 10% face ao ano anterior e que iria implementar um plano de corte de custos que permitirá uma poupança de 12 mil milhões de euros. O aviso seguiu-se a outro, em setembro do ano passado, associado aos custos da guerra comercial.

A também alemã Leoni ou as norte-americanas Ford Motors e Tesla também se incluem no grupo de fabricantes automóveis que alertaram para cortes nas receitas e lucros. Após o impacto inicial, também estas ações recuperaram: quando foi feito o profit warning, a BMW desvalorizou 5,3%, mas não só já anulou essa perda como negoceia 2,5% do valor da ação antes do aviso.

Se a guerra comercial está a ser o fator penalizador do setor automóvel, no retalho parecer ser o Brexit o grande problema, com as retalhistas britânicas a destacarem-se pela negativa. A Bonmarche ou a ASOS já emitiram profit warning, mas é a Debenhams que está em foco. A retalhista anunciou, no final de março, que a previsão feita a 10 de janeiro, de que os lucros anuais iriam atingir os 8,2 milhões de libras tal como esperado pelos analistas, já não era válido.

O profit warning seguiu-se a outros três lançados ao longo do ano passado. Os investidores focaram-se, no entanto, na hipótese de que o negócio seja comprado pela Sports Direct, com um prémio de 127%, que avalia a empresa em 614 milhões de libras. A eventual transação está condicionada a uma série de critérios e a Sports Direct deixou claro que mesmo que estes sejam cumpridos, não garante a oferta. Ainda assim, as ações da Debenhams dispararam mais de 50% na sessão seguinte.

As cotadas portuguesas — apesar de afetadas igualmente pela desaceleração da economia e pelo aumento dos riscos globais — têm sido mais tímidas nos avisos aos investidores. A exceção foi, no ano passado, a EDP, que emitiu um profit warning no final de setembro relacionado com a devolução ao Estado de 285 milhões de euros devido a “alegadas sobrecompensações” nas rendas que lhe foram atribuídas.

Nas duas sessões seguintes em bolsa, a elétrica liderada por António Mexia desvalorizou 5% e perdeu 600 milhões de euros em bolsa. A capitalização de mercado continuou a cair até dezembro, quando inverteu o sentido. Em plena oferta pública de aquisição e com um acionista ativista, a cotação da EDP já recuperou e situa-se atualmente acima dos 12,8 mil milhões de euros, mais 7,4% que antes do profit warning.

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