Banca portuguesa vulnerável a choques na dívida pública, alerta o FMI

Portugal está entre os países que aumentaram exposição da banca a obrigações públicas. O malparado aumenta risco em caso de crise, que iria causar perdas significativas e contágio à economia.

A banca e os seguros em Portugal estão mais vulneráveis a choques na dívida pública devido às ligações ao Governo, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). O fardo do crédito malparado aumenta os riscos, enquanto as almofadas financeiras criadas após a crise reforçam a capacidade dos bancos.

“Os canais financeiros entre soberanos e bancos fortaleceram-se em países com maior endividamento soberano. Os portefólios de dívida pública nos sistemas bancários são elevados face à totalidade dos ativos em vários bancos, particularmente da Bélgica, Itália, Portugal e Espanha“, aponta o FMI, no relatório de estabilidade financeira, acrescentando que as seguradoras são também grandes detentoras de obrigações públicas e bancárias.

O peso dos títulos de dívida pública é consequência da subida nas yields de alguns países — o que não é o caso de Portugal, cujos juros têm caído nos últimos meses até mínimos históricos –, o uso de obrigações como garantia para facilidades de liquidez dos bancos centrais, a redução do risco associado à dívida (que permite aumentar o peso nos portefólios sem prejuízo para os rácios de capital Tier 1) e à maior regulação (que coloca a dívida pública na categoria de ativos líquidos).

Em particular, os bancos portugueses e italianos aumentaram a exposição a títulos com rating mais baixo após revisões em baixa da notação financeira. A banca portuguesa detinha, em setembro do ano passado, quase dois mil milhões de dívida pública de Itália, por exemplo, que foi alvo de downgrades no seguimento do conflito entre o Governo italiano e Bruxelas sobre as metas do défice.

“O crescimento da exposição a dívida pública e as revisões em baixa de crédito de rating soberanos tornaram os bancos em alguns países mais vulneráveis a choques soberanos”, afirma o FMI. “Num cenário grave, aumentos agressivos nas yields das obrigações dos governos iriam gerar perdas significativas para bancos da EBA [Autoridade Bancária Europeia] em Itália, Portugal e Espanha, em particular”.

A análise sugere que o fardo do crédito malparado poderá aumentar ainda mais as perdas. Em sentido contrário, a construção de almofadas financeiras desde a crise diminuem os riscos. Em situações extremas, bancos e seguradoras poderão, ainda assim, funcionar como meios de contágio em caso de desaceleração da economia.

A contração económica resultaria numa quebra nos rendimentos de empresas e famílias, comprometendo a capacidade de fazer face às necessidades de financiamento e aos custos de gestão das dívidas de ambos os segmentos. Em consequência, o crédito malparado voltaria a subir e as receitas do Estado com impostos diminuiriam.

Outro canal de contágio são os custos de financiamento dos bancos, devido à forte correlação entre rating soberano e dos bancos. “Existe o risco de os bancos passarem custos de financiamento mais elevados através de um aumento das taxas de juro dos empréstimos“, refere ainda o FMI. “Um último canal de contágio no eixo soberanos-setor financeiro é o risco de financiamento público ser usado para resgatar bancos em falência, aumento o risco de contingência dos países”.

Canais de contágio entre soberanos e sistema financeiro

Fonte: Relatório de Estabilidade Financeira do FMI

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