Bruxelas alerta para exposição da banca portuguesa à dívida pública

Em Portugal e Itália, a exposição tem aumentado nos últimos anos. Mais de 8% dos ativos detidos pelos bancos portugueses são, atualmente, dívida pública portuguesa, face a cerca de 1% em 2008.

A elevada exposição da banca a dívida pública em alguns dos países da Zona Euro é uma preocupação da Comissão Europeia. Nas projeções de primavera, publicadas esta terça-feira, Bruxelas alerta para o crescimento deste risco que poderá ter implicações no financiamento dos bancos. Portugal é um dos países em que a situação mais se agravou nos últimos anos.

“Em termos de composição dos ativos bancários, um aspeto importante é a elevada parcela de dívida soberana doméstica em alguns Estados-membros da Zona Euro. As participações dos bancos em dívida soberana doméstica tem aumentado desde 2008 nos países mais vulneráveis”, alerta a Comissão Europeia.

Bruxelas aponta para um gráfico onde mostra a percentagem de dívida pública do próprio país na totalidade dos ativos detidos por bancos em Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. No entanto, a situação difere nos vários Estados. Se em Espanha, França e Alemanha, a exposição tem diminuído nos últimos anos, em Portugal e Itália a tendência tem sido de forte aumento. Mais de 8% dos ativos detidos pelos bancos portugueses são, atualmente, dívida pública portuguesa, face a cerca de 1% em 2008.

Portugal e Itália são os países onde exposição à dívida mais aumentou

Fonte: Projeções de primavera da Comissão Europeia (dados do BCE)

Vulnerabilidades ao contágio mostram falhas da União Bancária

“Isto sinaliza um risco crescente devido aos efeitos de arrastamento nocivos vistos durante a crise já que se perpetua um nível perigoso de interdependência entre bancos e soberanos. Isto poderá afetar as condições de financiamento dos bancos se tensões atingirem os mercados de dívida soberana”, sublinha.

Portugal tem beneficiado nos últimos anos de uma descida acentuada dos juros da dívida pública tanto em mercado primário como secundário, tendo atingido mesmo mínimos históricos. Esta terça-feira, a yield das obrigações do Tesouro a 10 anos negoceiam em 1,10%. No entanto, a Comissão lembra o episódio de subida das yields de Itália, no ano passado, considerando que recordou a hipótese de “tais desenvolvimentos adversos” e “mostra que o objetivo da União Bancária ainda não foi conseguido”.

A Comissão Europeia não é a única a alertar para o risco desta situação. No relatório de estabilidade financeira publicado no mês passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) também considerou que a banca e os seguros em Portugal estão mais vulneráveis a choques na dívida pública devido às ligações ao Governo, acrescentando que o fardo do crédito malparado aumenta os riscos, apesar de as almofadas financeiras criadas após a crise reforçarem a capacidade dos bancos.

Banca está mais resiliente, mas desafios são grandes

A avaliação geral da Comissão Europeia é que o setor bancário da Zona Euro está mais resiliente a choques do que antes da crise, graças à adaptação das estruturas de financiamento dos bancos e ao reforço da capacidade de absorção de choques. Em simultâneo, o setor tem beneficiado da política monetária acomodatícia do Banco Central Europeu e do reforço da estabilidade financeira.

O setor bancário continua, ainda assim, a enfrentar grandes desafios, em especial a capacidade de gerar lucros e a qualidade dos ativos. Por um lado, a rendibilidade (medida através do retorno das ações), que caiu significativamente durante a crise, ainda não recuperou e situa-se atualmente em 6,5%, em média, castigada por fracas receitas e custos persistentemente elevados. Por outro, o elevado aumento do crédito malparado entre 2008 e 2014 continua a ser um fardo para o setor.

“Apesar dos progressos que tornaram os bancos mais seguros, muitos investidores mantêm uma predisposição negativa em relação ao setor bancário da Zona Euro com base na fraca rendibilidade”, refere a Comissão Europeia, acrescentando que “ao longo do último ano, o preço das ações dos bancos da Zona Euro caiu significativamente, tendo um desempenho abaixo de outras firmas financeiras e do mercado global”. Bruxelas antecipa que caso o sentimento dos investidores continue a deteriorar-se, não só irá penalizar ainda mais os retornos acionistas como terá impacto nos custos de financiamento.

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