Quem ganhou, quem perdeu e quem vai decidir o futuro da União Europeia?

PPE e S&D são os grandes derrotados. Liberais tornam-se indispensáveis e Verdes ganham força. Mas com Merkel desaparecida e Macron derrotado pela extrema-direita, quem vai decidir o futuro da UE?

Qualquer aliança no Parlamento Europeu vai precisar dos liberais, que devem ter finalmente um cargo de topo na Europa, como segunda força no Conselho Europeu e terceira no Parlamento Europeu. Com o Reino Unido com um pé fora da UE, Itália nas mãos dos eurocéticos, Emmanuel Macron derrotado por Marine Le Pen, e Angela Merkel praticamente desaparecida em combate, quem vai decidir o futuro da Europa? Tudo acontece esta terça-feira.

O Parlamento Europeu tem funcionado com uma maioria entre as duas maiores famílias políticas europeias: o Partido Popular Europeu (PPE), onde estão integrados os partidos de centro-direita; e o S&D, o grupo onde estão integrados os socialistas. Estes foram os dois grandes derrotados da noite eleitoral europeia, perdendo a maioria conjunta, e vão precisar de pelo menos mais um partido.

O PPE, partido que tem dominado a liderança das principais instituições (atualmente ainda detém a Comissão Europeia, o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu), voltou a ser o mais votado, mas terá perdido pelo menos 36 lugares no Parlamento. Mas os socialistas do S&D, que cantaram vitória por quebrarem o status quo na Europa, ainda tiveram um resultado pior, perdendo 39 deputados.

Os grandes vencedores da noite eleitoral foram os liberais, que agora terão o En Marche de Emmanuel Macron nas suas fileiras, que passam a ser a terceira força política no Parlamento Europeu com 109 deputados, mais 40 do que tinham nas eleições passadas, e ainda os Verdes, que passam de sexta para quarta força política.

"Achamos claramente que o candidato do PPE [Manfred Weber] está hoje completamente desqualificado. (…) Vamos colocar o nosso peso por detrás ou de um candidato francês, que pode ser Michel Barnier, ou de um candidato muito mais próximo do novo centro de gravidade do Parlamento Europeu, muito menos à direita que antes.”

Pascal Canfin

Número dois da lista do En Marche às europeias

Os partidos de extrema-direita, com Salvini e Le Pen no comando, ganharam força, mas não tanta, e a esquerda unitária, onde se incluem o Bloco de Esquerda e o PCP, passaram de quinta para oitava família política mais votada no Parlamento Europeu.

"Se, como esperamos, os resultados confirmarem que o PPE é a família política mais forte na Europa, então também é claro que Manfred Weber deve assumir a liderança da Comissão Europeia.”

Annegrete Kramp-Karrenbauer

Líder da CDU alemã

Os resultados vão obrigar a uma nova configuração no Parlamento Europeu e a uma dificuldade acrescida na escola dos próximos líderes da União Europeia, mas os resultados nacionais escondem assimetrias que podem ser ainda mais problemáticas que os resultados europeus na altura de escolher os líderes.

Esta terça-feira há três reuniões chave:

  • Primeiro, os líderes das famílias políticas no Parlamento Europeu vão reunir-se à porta fechada, para decidirem futuras alianças;
  • Depois, os chefes de governo que participam no Conselho Europeu reúnem-se por família política;
  • Finalmente, o Conselho Europeu reúne-se informalmente com todo os chefes de governo da União Europeia, para decidir quem vai liderar a Comissão Europeia (mas também o Conselho Europeu, o Banco Central Europeu e os restantes cargos de liderança da União Europeia).

Quem são as peças chave desta negociação?

Angela Merkel: quanto poder resta à “Rainha da Europa”?

Esteve praticamente desaparecida da campanha às europeias e deixou esse papel para a sua sucessora na CDU, Annegret Kramp-Karrenbauer. A nova líder da CDU já veio defender o sptizenkandidaten do PPE, família política mais votada nas europeias, como o candidato com maior legitimidade para liderar a Comissão Europeia, mas como chanceler alemã, Angela Merkel é quem irá tomar as decisões no Conselho Europeu, e a chanceler gosta de manter as suas opções em aberto.

Nem apoiou inequivocamente Manfred Weber, nem mostrou publicamente a sua simpatia pela liberal Margrethe Vestager (que o fez à porta fechada). A “Rainha da Europa” está à frente da maior economia da Zona Euro desde 2005, lidera o grupo do PPE no Conselho Europeu (o mais numeroso e poderoso) e é uma das mais experientes e hábeis políticas nestas andanças. Qualquer decisão terá de ter a sua bênção, ou uma contrapartida que seja valiosa para a Alemanha (como a presidência do BCE).

Emmanuel Macron: derrota doméstica, vitória europeia?

Muito contestado em França, perdeu (embora por pouco) as eleições europeias para a extrema-direita de Marine Le Pen, que já pede a dissolução da Assembleia Nacional. No que diz respeito à liderança das principais instituições europeias, tem estado praticamente sozinho no Conselho Europeu, mas na primeira eleição do seu jovem partido para as europeias decidiu juntá-los aos liderais do ALDE, o grande vencedor da noite eleitoral.

Emmanuel Macron e os seus representantes há muito que demonstram o seu desagrado quanto à possibilidade do alemão Manfred Weber assumir a presidência da Comissão Europeia, porque não tem experiência governativa, porque não tem um perfil progressista e até porque não fala francês. Macron já tem encontro marcado com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sanchéz, que irá negociar pelos socialistas do Conselho, para tentar uma solução alternativa, mas nem com os Verdes europeus (conservadores, especialmente na Alemanha) conseguirá esta alternativa.

Margrethe Vestager: a presidência ou nada

É quem sai melhor entre os spitzenkandidaten. Uma das várias candidatas dos liberais à liderança da Comissão Europeia, desde cedo que os liberais disseram que não defenderam o processo a 100%. Os liberais passaram a ser a terceira maior força política no Parlamento Europeu e encurtaram significativamente a distância para as duas principais famílias políticas europeias, PPE e S&D.

No seu discurso na noite eleitoral disse que nos últimos quatro anos, a sua função na Comissão Europeia foi quebrar monopólios e agora fez o mesmo, mas na conjugação de forças no Parlamento Europeu, e numa curta entrevista logo a seguir aos resultados anunciados disse que tinha uma “boa relação” com Emmanuel Macron. Será que chega? O caminho para chegar a presidente da Comissão Europeia é longo e cheio de obstáculos, mas os resultados deste domingo e o número de liberais no Conselho Europeu dão-lhe mais hipóteses do que a Manfred Weber. Caso não seja a escolhida, não é sequer garantido que seja a escolhida pela Dinamarca para integrar a próxima comissão

Mark Rutte: condenado a desaparecer?

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, tem feito a sua campanha paralela por um lugar de topo europeu, na esperança de ser uma solução de consenso caso falhe a nomeação de um dos candidatos das principais famílias políticas europeias e capitalizando a sua posição como líder dos liberais no Conselho Europeu, e o já esperado crescimento nas eleições europeias desta família politica.

Mas Rutte, que já tinha contra si estar a fazer campanha quando um desses candidatos era outro holandês — o socialista Frans Timmermans — ainda tem mais alguns fatores que o podem deixar de fora do lugar almejado: escolheu a extrema-direita como principal adversário nas eleições europeias no seu país, e acabou ultrapassado pelos trabalhistas (que nem fazem parte da coligação governamental); partilhava a liderança do grupo dos liberais no Conselho Europeu com Charles Michel da Bélgica, e não só vê Emmanuel Macron e o seu novo partido assumirem a liderança dos liberais como vê Charles Michel ter uma derrota histórica nas eleições conjuntas de domingo; caso haja uma geringonça europeia de forças progressistas, dificilmente terá um lugar já que sempre esteve do lado dos países mais conservadoras na Europa durante a crise [tal como a Áustria, Finlândia e Alemanha].

Frans Timmermans: o sonho da gerigonça europeia

Fez uma campanha muito mais à esquerda que o anterior líder do seu partido na Holanda — o ex-presidente do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem –, e tem defendido a derrota do centro-direita e uma nova aliança progressista na Europa, ou seja, uma espécie de geringonça do centro-esquerda, que juntaria liberais e alguns partidos mais à esquerda. No entanto, ainda tem menos legitimidade para pedir a presidência da Comissão Europeia que Manfred Weber. Os socialistas ficaram em segundo lugar, foram a família política europeia que mais lugares perdeu no Parlamento Europeu e está agora muito perto dos liberais.

Mesmo que se junte aos liberais de Macron, e aos Verdes de Ska Keller, ainda precisaram da Esquerda Unitária onde está o Bloco de Esquerda e o PCP, que perdeu um dos seus principais líderes: Alexis Tsipras. O primeiro-ministro grego sofreu uma derrota significativa nas europeias na Grécia contra a Nova Democracia (centro-direita) e já convocou eleições antecipadas. Na política europeia é sempre cedo para cantar derrota, mas neste caso dificilmente sairá uma vitória. Resta saber o seu primeiro-ministro ainda o indicará para comissário, ou se ficará pelo Parlamento Europeu.

Manfred Weber: o vencedor derrotado

Partiu para a corrida no partido mais que favorito, mas com a sombra de potencial derrotado. Dificilmente a queda do PPE no Parlamento Europeu faria com que o centro-direita deixasse de ser a família política com mais eurodeputados, mas o alemão não era apreciado nem por franceses, nem por socialistas, nem pelos países do sul e, em parte, nem sequer na Alemanha. Alguns apontam-lhe falta de experiência de alto nível, como líder de governo ou até com funções ministeriais de relevância, outros a falta de peso político, e há simplesmente quem não concorde com suas posições mais ortodoxas.

Em qualquer outra situação, este domingo teria sido um dia de celebração, mas cedo Manfred Weber percebeu que dificilmente será o próximo presidente da Comissão Europeia. Se correr mal, como se espera, talvez fique como presidente do Parlamento Europeu, mas até ai pode ver-se a braços com uma nova luta com Frans Timmermans. Tudo vai depender da maioria que será negociada no Parlamento Europeu.

Pedro Sanchéz: que poder tem Espanha e Sanchéz como negociador socialista?

Vai ser quem vai negociar pelos socialistas do Conselho Europeu com os liberais de Emmanuel Macron. O primeiro-ministro espanhol tem a seu favor um resultado eleitoral muito positivo, onde deixou longe o PP espanhol, e no qual os extremos não ganharam a força esperada. Espanha tem feito a sua campanha para que Josep Borrel, o atual ministro dos Negócios Estrangeiros, seja o chefe da diplomacia europeia, até agora a cargo de Federica Mogherini (mas também aceitam a nomeação de Nadia Calviño, ministra da Economia, para o BERD).

No entanto, nem tudo vai bem em terras espanholas. Na quarta maior economia da Zona Euro, os socialistas têm um governo minoritário, e perderam a joia da coroa para a direita: a liderança de Madrid. Pedro Sanchéz terá voz no Conselho Europeu, mas para o ouvirem precisa de aliados poderosos, já que os socialistas são apenas o terceiro grupo entre os líderes dos governos europeus, atrás do PPE e dos liberais.

Michel Barnier: o outsider

A capitalizar o seu papel de negociar principal do Brexit pela União Europeia, Michel Barnier tem visitado as capitais europeias para conversar com os líderes e aproveitar para se mostrar como uma alternativa credível caso falhe o processo do spitzenkandidaten. Mas o francês pode sair prejudicado da contenda por várias razões. Em primeiro lugar, por o presidente francês estar a tentar construir uma alternativa para deixar de fora do PPE (partido do qual Michel Barnier fazia parte). Em segundo lugar, porque nomear um francês para a presidência da Comissão Europeia, poderia significar um presidente alemão no Banco Central Europeu, num cenário em que Alemanha e França dominariam diretamente as principais instituições da União Europeia.

Ska Keller: a onda verde chegou à Europa

A onda verde chegou ao Parlamento Europeu e fez com que esta família política passe de sexta a quarta mais votada, tornando-a obrigatória em qualquer coligação que deixe de fora uma das duas principais famílias políticas do Parlamento Europeu. Caso os liberais queiram efetivar a sua coligação alternativa juntamente com os socialistas, não vão poder dispensar os Verdes. Mas, como já demonstraram nas eleições legislativas alemãs, a família dos Verdes é um osso duro de roer e mais conservadora que a maior parte dos europeus tendem a considerar. Não têm qualquer representante entre os líderes de Governo no Conselho Europeu, mas podem influenciar as decisões no Parlamento Europeu. Resta-lhes a liderança de algumas das comissões no Parlamento Europeu, entre elas a comissão de ambiente.

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