Portugal vence maior número de prémios europeus de inovação na saúde

Foram 15 as startups europeias que venceram um prémio de 25 mil euros no âmbito da terceira edição dos prémios EIT Health InnoStars Awards. Cinco são portuguesas. Finalíssima é disputada em novembro.

“Quando estava a operar comecei a reparar que na sala de cirurgia toda a equipa estava sempre cheia de frio. Foi assim que surgiu a ideia de fazer um casaco antibacteriano, impermeável e com vários graus termogénicos”, conta Nuno Muralha, CEO da SurgeonMate, uma das cinco empresas portuguesas que foram selecionadas, de um conjunto de 116 concorrentes para receber um financiamento europeu de 25 mil euros em capital, formação e mentoring.

B-Culture, Bright, HydrUStent, SurgeonMate e TimeUp foram as cinco startups portuguesas selecionadas a par de mais dez a nível europeu. As 15 startups vencedoras da terceira edição dos prémios EIT Health InnoStars Awards 2019 vão agora participar em dois bootcamps na Europa, ter encontros com potenciais clientes, investidores e parceiros. “Após o programa de quatro meses são escolhidos dez finalistas para o pitch final do InnoStars Awards, em novembro, onde estarão a concurso três prémios, correspondendo a um financiamento adicional de 25 mil, 15 mil e dez mil euros”, explica o comunicado do Eit Health enviado às redações.

Um financiamento que seria ouro sobre azul para a SurgeonMate, que tem de trabalhar com uma equipa “muito pequenina”, na qual ninguém recebe salário, explica ao ECO, Nuno Muralha. A empresa pretende avançar até ao final do mês com uma ronda de croundfunding. Vamos colocar um teto de dez mil euros. Não sei se é muito ou pouco, mas, mais do que o dinheiro vai ser importante porque será uma validação do mercado efetivo”, explica o cirurgião cuja paixão é a cirurgia de trauma, uma especialidade que não existe em Portugal.

O preço de venda ao público de cada casaco ainda está em negociação e para garantir a melhor relação qualidade/preço Nuno Muralha até já trocou de empresa fornecedora. O responsável orgulha-se do facto de o casaco ser 100% nacional, desde a ideia, passando pelo design até à confeção. Além das características antibacterianas, impermeabilidade e térmicas, o casaco tem mangas destacáveis, tem bolsos nas mangas, vários tipos de bolsos para guardar intercomunicadores e identificação. “Os vulgares casacos polares, usados agora pelos profissionais nas cirurgias, são um verdadeiro campo de proliferação de bactérias”, alerta o cirurgião, recordando a luta levada a cabo para travar o avanço das bactérias multirresistentes.

As várias característica do casaco aguardam certificação do instituto alemão e assim que a conseguir está dado o passo em falta para avançar para o crowdfunding. E a SurgeonMate tem outros artigos na manga, nomeadamente uns óculos que gravam as operações, através de uma câmara 4K, comandados por voz e têm ponto de vista motorizado. Conseguem ser diferenciadores face a outros protótipos por ultrapassar os problemas do RGPD e “necessitam quase um milhão de euros para serem desenvolvidos”, explicou Nuno Muralha.

B-Culture procura capital de risco e um distribuidor em Portugal

A B-Culture desenvolve modelos de tecido humano in vitro em 4D para testar medicamentos. A ideia foi a base do doutoramento de Raphaël Canadas, o presidente executivo desta startup. A ortopedia foi o primeiro passo, com o desenvolvimento “num passo único de osso e cartilagem, utilizando células estaminais humanas”, conta ao ECO o investigador.

A ideia, que está a ser desenvolvida desde 2013, está a crescer a passos largos já que tem múltiplas utilizações e vem responder a várias necessidades do mercado. Como os medicamentos têm de passar várias barreiras — sistema respiratório, digestivo, sanguíneo, etc — até chegaram ao alvo que pretendem tratar, é preciso testar o comportamento e a quantidade de fármaco a utilizar. “Produzimos essas barreiras, nomeadamente pele para testar cosméticos sem recorrer a testes animais”, explica o CEO. “Começámos agora a explorar entrar no mercado dentário porque a gengiva e osso é muito semelhantes à cartilagem e osso“, acrescenta.

Para já Raphaël Canadas trabalha apenas com os seus dois orientadores de estágio, mas a ideia é contratar uma equipa e ter instalações próprias — agora trabalham no laboratório da 3B’s da Universidade do Minho. Mas para isso é preciso dinheiro e para além de tentar angariar fundos públicos, a B-Culture procura 600 mil euros de capital de risco privado.

A empresa tem já duas patentes registadas na Europa e nos Estados Unidos e tem um terceira pendente. Já fez uma primeira venda para a Bial — “foi um teste piloto de mercado”, conta. “Estamos quase a fechar uma outra venda com a universidade de Louvain na Bélgica e a ter distribuição em Portugal, para além de estarmos em contactos para colocar o produto no Brasil e ter um distribuidor mundial“, elenca Raphaël Canadas.

Saiba quais os projetos das restantes quatro startups portuguesas:

  • Bright: responsável pelo projeto Serious Games for Health, que ajuda os doentes a gerir a sua doença e promove a adesão à terapêutica.
  • HydrUStent: focada no desenvolvimento de dispositivos médicos inovadores baseados em necessidades médicas, junta uma equipa altamente capacitada com diferentes percursos, da medicina à engenharia e ciência dos biomateriais. A empresa está a desenvolver uma tecnologia de teste portátil, wireless e menos invasiva na área da urologia, que permite a monitorização contínua e a longo prazo das pressões intra-urinárias. Isto impacta positivamente a vida dos doentes, ao reduzir o desconforto associado a este tipo de testes, atualmente realizados apenas em ambiente médico.
  • TimeUp: equipa portuguesa que trabalha no desenvolvimento de um dispositivo médico que pode ser usado para monitorizar e detetar a presença de bactérias na urina, alertando profissionais de saúde sobre o potencial desenvolvimento de uma infeção.

(Notícia atualizada às 11h20 com as declarações de Raphaël Canadas da B-Culture)

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