Banca esmaga financeiras no crédito ao consumo. Já dá 75% do dinheiro

A concessão de crédito ao consumo continua a crescer, com os bancos a captarem cada vez mais quota face às instituições de crédito especializado. Cerca de 75% do financiamento vem dos bancos.

A concessão de crédito ao consumo continua a renovar máximos. Na corrida pela conquista de clientes para as suas soluções de financiamento para consumo, os bancos estão a ganhar terreno face às financeiras. Por cada quatro euros em empréstimos ao consumo, apenas um euro é disponibilizado por uma instituição de crédito especializado. Há seis anos, a divisão era quase de 50%/50%.

Dados do Banco de Portugal mostram que, em julho, os bancos e as financeiras concederam conjuntamente 687 milhões de euros em empréstimos destinados a consumo. Este é o valor mais elevado do histórico da entidade liderada por Carlos Costa, que tem início em janeiro de 2013.

Mas para além da persistente subida dos níveis de concessão, esses dados apontam para uma crescente preponderância da banca neste segmento em detrimento das instituições de crédito especializado.

Evolução do crédito: bancos versus financeiras

Fonte: Banco de Portugal

Do total de crédito ao consumo disponibilizado em Portugal no mês de julho, 515 milhões de euros foram por bancos. Ou seja, 74,9% do valor global, acima dos 74,2% no mês anterior, mas muito superior aos 64,5% registados em maio. Os restantes 172,6 milhões de euros — ou 25% — tiveram origem nas empresas financeiras.

O Banco de Portugal apenas disponibiliza dados que permitem fazer a desagregação entre o crédito ao consumo concedido por bancos e financeiras a partir de janeiro de 2013. Nesse horizonte temporal nunca a “balança” tendeu tanto para os bancos. No início de 2013, a divisão era de 55% para os bancos e 45% para as financeiras nos novos empréstimos ao consumo concedidos.

Filipe Garcia, presidente da IMF, considera contudo, que o crescendo do peso da banca tradicional na concessão de crédito ao consumo não está a ser feito à custa das financeiras. Mas que este resulta sim do facto de estarem a “aproveitar um mercado que durante muito tempo sempre foi secundário para eles e onde conseguem obter margens mais elevadas” quando comparadas com o crédito à habitação, por exemplo.

Neste âmbito, o economista considera que atualmente os bancos estão “muito vocacionados para o crédito automóvel”, segmento que considera poder ajudar a explicar o crescendo dos níveis de financiamento para consumo. Filipe Garcia acrescenta que os elevados montantes habitualmente associados ao financiamento para a compra de carro, poderão estar a ajudar a puxar pelos valores disponibilizados. Até os próprios bancos estão a servir de “montra” para vender carros, oferecendo soluções de financiamento com este fim.

Banca focada em dar crédito

De salientar ainda que no início do histórico do Banco de Portugal, em 2013, a crise financeira estava instalada, com o mandato dos bancos a ser “fechar a torneira do crédito” o máximo possível. Hoje, a realidade é bastante diferente.

O cenário de juros historicamente baixos, mesmo negativos, e o custo de aparcar dinheiro junto do Banco central Europeu (BCE), incentiva-os a procurarem libertar no mercado o máximo de liquidez possível. De salientar ainda que o crédito ao consumo, devido ao nível de risco mais elevado que lhe está associado, é onde os bancos conseguem obter margens mais elevadas.

A vontade de dar crédito ao consumo é facilmente constatável nos sites dos bancos, onde sobressaem campanhas de financiamento com esse fim. Vários têm, aliás, utilizado o homebanking e as apps como plataformas para a contratação de crédito ao consumo. Tanto a CGD, como o BCP, o Novo Banco, o Santander, o BPI e o Crédito Agrícola promovem através dos seus sites soluções de crédito pessoal com essas características.

Face à recente descida dos juros de referência da Zona Euro para um novo mínimo histórico, com a taxa de depósitos a descer para os -0,5%, tudo aponta para que os bancos mantenham a sua aposta na disponibilização de crédito, e em específico para consumo.

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