Preparados para um hard Brexit? Têxtil, vestuário, mobiliário e turismo medem impacto

Brexit sem acordo pode significar perdas de 2,3 mil milhões de euros para Portugal. O têxtil será o setor mais afetado, segundo um estudo da Universidade de Leuven. Mas o setor desvaloriza.

O Brexit traz consigo um clima de receio e instabilidade para algumas empresas. Segundo um estudo da Universidade de Leuven, um Brexit sem acordo pode ter um grande impacto na economia portuguesa. Pode significar uma perda de 2,3 mil milhões de euros para a balança comercial portuguesa. O ECO falou com intervenientes do setor do têxtil, vestuário, mobiliário e turismo para desmistificar estes números e perceber se o impacto será assim tão grande.

Segundo os dados divulgados pela universidade belga, os têxteis serão o setor mais afetado pela saída do Reino Unido da União Europeia. O setor não concorda com estes números e considera que o “Brexit não vai ser nenhuma tragédia”. A indústria do vestuário considera que a “Europa está melhor preparada para um Brexit que o próprio Reino Unido” e o turismo adianta que este ano, “no primeiro semestre, as receitas do mercado britânico aumentaram 5,1%“. Por outro lado, o setor do mobiliário mostra maior precaução.

O diretor geral da Associação Têxteis de Portugal (ATP), Paulo Vaz, não concorda que os têxteis sejam o setor mais afetado e refere que o Reino Unido é o terceiro mercado mais importante para os têxteis e que vai continuar a ser um “forte mercado para as exportações portuguesas”. Acrescenta ainda que a “saída do Reino Unido da União Europeia (UE) não vai ser nenhuma tragédia”.

Refere ainda que o mais importante “é saber como isto termina”, para as empresas se reposicionarem nos mercados. “A grande problemática é a instabilidade que se vive na Europa e o facto de as empresas estarem numa grande expectativa e apreensivas relativamente à conjuntura internacional, causada não só pelo Brexit mas também pela guerra comercial entre os EUA e a China”, refere Paulo Vaz.

Já o presidente Associação Nacional das Indústrias do Vestuário e Confeção (Anivec), César Araújo, destaca ao ECO que “toda esta incerteza à volta do Brexit está a provocar preocupações no setor do vestuário e na indústria em geral”. Todavia, considera que a “Europa está “melhor preparada para o Brexit que o próprio Reino Unido”. Destaca que o fator cambial é a maior preocupação dos setores, apesar de considerar que “os países europeus vão ser solidários entre eles”.

Por outro lado, os fabricantes de mobiliário e carpintarias portuguesas estão mais precavidos. O presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP), Vítor Poças, destacou que “os fabricantes de mobiliário e carpintarias portuguesas estão a reduzir a exposição ao Reino Unido, optando por parcerias locais em vez de abrir espaços físicos e deslocar pessoal”. Acrescentou que estão a tomar estas medidas “por precaução, para poderem sair [do Reino Unido] rapidamente”, explicou à agência Lusa, à margem da London Design Fair.

As empresas portuguesas não estão a desistir do Reino Unido, muito pelo contrário, estão a apostar no mercado inglês e a intensificar a sua presença nas feiras internacionais.”

Paulo Vaz

Diretor geral da Associação Têxteis de Portugal (ATP)

Apesar de estar otimista, o diretor geral da Associação Têxteis de Portugal está consciente que desde que o Reino Unido manifestou o interesse em sair da União Europeia “o setor dos têxteis tem vindo a perder alguma quota neste mercado; tem vindo a decrescer 3 a 4% anualmente”, refere. Explica que “a desvalorização da libra prejudica imediatamente as exportações para o Reino Unido e esta incerteza acaba por levar a quebras de consumo interno”.

De acordo com o estudo, “o Brexit reduz a atividade económica do Reino Unido cerca de três vezes mais em comparação aos 27 países membros da UE”. A universidade belga prevê que relativamente ao PIB, o Reino Unido vai sofrer um decréscimo na produção de valor agregado: a percentagem desta queda será entre 1,21% (soft Brexit), e 4,47% (hard Brexit), prevendo-se assim um cenário difícil para o Brexit.

Há 17 anos que as exportações de têxtil e vestuário não tinha um mês assim

Mesmo com toda a incerteza que se vive na Europa e no mundo, Portugal exportou 531,4 milhões de euros de têxteis e vestuário, sendo que julho foi o melhor mês desde julho de 2002, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Contudo, as exportações para o Reino Unido continuam em queda, registando-se uma quebra de 6 milhões de euros.

O Reino Unido importa quase tudo e com uma libra mais fraca fica mais pobre.

César Araújo

Presidente Associação Nacional das Indústrias do Vestuário e Confeção (Anivec)

O presidente da Associação Nacional das Indústrias do Vestuário e Confeção, César Araújo, considera que o turismo é um dos setores que mais vai perder com o Brexit. “O turismo deve ser dos setores que mais vai perder com esta desagregação. O turista inglês tem valor acrescentado para o nosso país”. O presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, não concorda.

Reino Unido é principal mercado para o turismo em Portugal

Portugal recebeu, em 2018, cerca de três mil milhões de hóspedes britânicos, sendo o Reino Unido o principal mercado para o nosso país ao representar uma quota de 17% nas receitas totais. Luís Araújo destaca a importância do mercado britânico para o setor do turismo e salienta que “no ano passado, a nível de receitas, crescemos 8,5% e este ano no primeiro semestre 5,1%, quando comparado com o ano passado”.

O presidente do Turismo de Portugal descreve ao ECO que o “objetivo é alargar os mercados e Portugal não ser apenas visto como um “destino de sol e praia”. Destaca que redobraram a atenção com o mercado britânico e que tem vindo a ser feita uma aposta em outros mercados com o objetivo de mostrar Portugal como um país diverso, que aposta em outras regiões, como a região norte e centro, o Alentejo e os Açores.

O setor do turismo tem crescido significativamente e acredito que vai continuar a crescer e a merecer a preferência dos turistas britânicos.

Luís Araújo

Presidente do Turismo de Portugal

“A questão da desvalorização da libra e a crescente concorrência de outros destinos obrigam-nos a ter uma atenção especial e acima de tudo alargar a outros mercados que tragam mais valor acrescentado a Portugal”, refere. Destaca que a “região norte foi a que registou um maior crescimento” e foi a zona do país “que mais cresceu no primeiro trimestre do ano”. Apesar de 60% dos britânicos escolherem o Algarve, seguido da Madeira e Lisboa, a região norte está a destacar-se.

Brexit colocará postos de trabalho em risco?

Segundo o estudo, um Brexit sem acordo pode aumentar o desemprego em 0,6% em Portugal, essencialmente no setor têxtil. Paulo Vaz não concorda e afirmou ao ECO que, pelo menos no setor dos têxteis, os postos de trabalho não estão em risco. “O setor não está a temer pela perda de postos de trabalho, muito pelo contrário, existe falta de mão-de-obra qualificada“. Segundo o estudo, se o Reino Unido chegar a acordo os prejuízos seriam quatro vezes inferiores.

Paulo Vaz afirma que o setor dos têxteis já passou por momentos bem mais complicados como a liberalização mundial do comércio e o fim do acordo multifibras e conclui que “não é o Brexit que nos vai parar. Perdemos quota no Reino Unido mas ganhamos noutros mercados, no pior da hipótese”.

O presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, partilha da mesma opinião e não considera que os postos de trabalho estejam em risco. Salienta que “o setor do turismo tem crescido significativamente e que acredita que vai continuar a crescer e a “merecer a preferência dos turistas britânicos”.

De acordo com o estudo, os países menos afetados por um Brexit sem acordo serão a Grécia, Croácia e a Espanha. Por outro lado, os países mais afetados serão Irlanda, Malta e Bélgica. Portugal aparece no meio da tabela. Segundo o estudo da Universidade de Leuven, um Brexit sem acordo pode acarretar perdas económicas no valor de 200 mil milhões de euros para os 27 países da União Europeia (UE). Para o Reino Unido, esta saída pode significar um prejuízo de 113 mil milhões de euros.

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