O que é que a dívida do Estado tem?

Famílias portuguesas confiam ao Governo poupanças de 37 mil milhões de euros, o valor mais elevado de sempre. O que têm de especial os produtos de poupança do Estado?

No “mar” revolto das poupanças, o Estado continua a ser um “farol” que tem atraído a atenção (e o dinheiro) dos pequenos aforradores nacionais nos últimos anos. Nem mesmo a crise da dívida que atirou Portugal para a troika abalou a confiança das famílias portuguesas, que continuam hoje em dia a confiar ao Governo a gestão das suas poupanças. Mas o que é que a dívida pública tem?

Podemos colocar a questão ao contrário: o que é que os outros produtos de poupança seguros não têm? Não têm retornos. Aplicar o dinheiro num tradicional depósito a prazo deixou de ser opção há muito tempo do ponto de vista da rendibilidade. E assim deverá continuar nos próximos anos tendo em conta que o Banco Central Europeu (BCE) vai manter as taxas de juros em mínimos, retirando margem aos bancos para tornarem os depósitos minimamente atrativos.

De resto, entre colocar o dinheiro numa conta a prazo ou deixá-lo à ordem, os depositantes estão a ir pela segunda opção: preferem ter o dinheiro à vista de tão baixas que são as remunerações que encontram se pensam aplicá-lo a prazo. Os bancos continuam a cortar os juros nos depósitos a prazo. Atualmente, a taxa de juro média nas novas aplicações a prazo está no mínimo histórico de 0,11%.

Neste cenário, entre soluções de poupança de baixo risco, os produtos do Estado continuam na montra. Falamos dos certificados de Aforro, dos certificados do Tesouro e ainda das Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV).

37 mil milhões aplicados no Estado

De acordo com os dados do Banco de Portugal e do IGCP, as famílias portuguesas têm quase 37 mil milhões de euros aplicados em produtos de dívida pública. É mais do dobro face ao que acontecia em 2014, altura em que o país estava ainda a contas com o resgate da troika. Com o Governo português a ser um dos mais endividados, isto significa que aproximadamente 15% da dívida pública portuguesa está nas mãos das famílias portuguesas.

“O dia em que o Estado falhar, então nem imaginemos os outros setores”, diz Pedro Amorim, analista da corretora Infinox. “Os produtos de dívida pública são os mais seguros, e os números de procura em momentos mais instáveis falam por si”, sublinha.

Famílias continuam a apostar em dívida pública

Fonte: Banco de Portugal e IGCP.

Este ano não houve qualquer emissão de OTRV face às condições do mercado — leia-se, juros baixos do BCE. E nem deverá haver qualquer operação do género tão cedo, com o IGCP a considerar que “não é o produto mais interessante para ser lançado neste momento”. Ainda assim, as anteriores emissões revelaram-se populares, tendo atraído quase oito mil milhões de euros. Hoje em dia, fica muito mais barato à República financiar-se nos mercados e as emissões de OTRV estão postas de lado.

“As OTRV foram sempre um dos meus produtos favoritos para o retalho (…). Nos dias de hoje, com taxa de juro baixas, o IGCP consegue emitir dívida ao mesmo prazo e a taxa de juro negativa tem afastado novas emissões de OTRV”, explica Pedro Amorim.

No caso dos certificados de Aforro e dos certificados do Tesouro, é possível ir hoje a um balcão dos CTT ou à internet — site do IGCP – e aplicar dinheiro nestes dois produtos de poupança onde os portugueses já têm investidos 12 mil milhões e 17 mil milhões de euros, respetivamente.

Onde é que os portugueses investem no Estado

Fonte: Banco de Portugal e IGCP.

Tanto os certificados de Aforro como os certificados do Tesouro oferecem remunerações mais atrativas do que os depósitos bancários. Mas isto é especialmente verdade para os Certificados do Tesouro Poupança Crescimento (CTPC), que surgiram há dois anos. Quem optar por aplicar o seu dinheiro nos CTPC conta com uma remuneração de 0,75% no primeiro ano, sendo que nos sete anos do horizonte máximo de aplicação a taxa de juro média é de 1,38%. Esse valor pode ser superior, já que a partir do segundo ano a taxa é acrescida de um prémio, em função do crescimento médio real do PIB.

Já as novas aplicações nos velhinhos certificados de Aforro efetuadas em outubro são remuneradas a uma taxa de juro de 0,598%. Parece pouco, mas rende mais do que deixar o dinheiro numa conta a prazo no banco. É como assinala Pedro Amorim: “Na categoria de segurança de capital, são os melhores produtos”.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

O que é que a dívida do Estado tem?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião