Situação da zona euro é “mais sólida que em 2008”, diz Trichet

  • Lusa
  • 17 Novembro 2019

Para o ex-presidente do BCE, "é inegável o facto de estarmos numa posição mais sólida do que em 2008". Contudo, "devemos manter-nos vigilantes".

O antigo presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, considera que “é inegável” que a zona euro está numa “posição mais sólida que em 2008”, quando estalou a última grande crise financeira, mas é preciso manter a “vigilância”.

É inegável o facto de estarmos numa posição mais sólida do que em 2008, quando tive de enfrentar o colapso do Lehman Brothers”, afirmou Trichet, em entrevista à Lusa, defendendo, no entanto, que isso não permite ser complacente.

“Devemos manter-nos vigilantes porque mesmo numa situação mais forte, podemos ter de lidar com choques vindos do resto do mundo”, disse o antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE).

O economista francês referiu que existe hoje o “choque decorrente da redução no comércio internacional”, com impacto no abrandamento do crescimento económico global que afeta o crescimento económico da zona euro. E referiu também que a zona euro pode ter de lidar com outros fenómenos, como “um drama nas economias emergentes ou uma grande recessão nos Estados Unidos”. “Isso seria certamente um choque para nós. E a resiliência é absolutamente essencial nessas circunstâncias”, salientou.

“Podemos ter surpresas vindas de vários pontos da economia e do sistema financeiro à escala global e devemos continuar o trabalho árduo ao nível da Europa e de cada país individualmente”, frisou o antigo presidente do BCE.

Questionado sobre o que pode a zona euro fazer para estar melhor preparada para enfrentar potenciais choques, Trichet apontou a união bancária e a união do mercado de capitais como pontos “muito importantes para reforçar a solidariedade e a coesão na zona euro”.

O economista frisou também que são necessárias “boas decisões para reforçar a resiliência”, quer ao nível da zona euro, quer ao nível interno de cada país, destacando a importância de um procedimento de equilíbrio económico, que monitorize a competitividade de cada economia da zona euro. Na entrevista à Lusa, defendeu ainda que as posições do Parlamento Europeu sejam “a última palavra em caso de decisões muito difíceis na zona euro porque isso iria reforçar a responsabilidade democrática da zona euro”.

Questionado sobre se considera que o poder de artilharia do BCE diminuiu, depois das medidas de política monetária não convencionais que têm vindo a ser aplicadas, Trichet respondeu que “pensa que não”, apesar de admitir que “muitas decisões foram tomadas” e muitas com caráter acomodatício. “É óbvio que muito já foi feito e que não se pode contar apenas com os bancos centrais como o único parceiro ativo”, frisou, salientando que é necessário no futuro “muita participação ativa de Governos, poderes executivos de modo geral, deputados” ao nível das medidas orçamentais e reformas estruturais.

“E também precisamos que todos os outros parceiros, incluindo o setor privado, preparem o caminho para sairmos de uma situação que é anormal”, com uma inflação anormalmente baixa, referiu.

O antigo presidente do BCE disse ainda acreditar que, se for necessário tomar decisões extraordinárias para enfrentar “circunstâncias muito difíceis”, os bancos centrais assim o farão, referindo-se tanto ao BCE, como ao Banco do Japão ou à Reserva Federal norte-americana (Fed).

Sobre uma possível descida do objetivo do BCE para a inflação na zona euro, atualmente “abaixo mas próximo de 2%”, como sugeriu recentemente o governador do banco central austríaco, Robert Holzmann, Trichet respondeu não gostar de mudanças na definição da estabilidade de preços, por um lado, pelo facto de os bancos centrais serem “pilares da estabilidade a médio e longo prazo” e existirem para “ancorar expectativas”.

Por outro lado, o economista francês realçou que, antes da última grande crise financeira, apenas o BCE tinha esta meta para a inflação, mas, “desde a crise e por causa da crise”, também a Fed e o Banco do Japão decidiram juntar-se ao grupo que considera os 2% como a definição da estabilidade de preços. “Considero que foi uma muito importante demonstração de convergência conceptual dos principais bancos centrais como consequência da crise”, declarou.

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