Moodys alerta que “juros baixos mascaram riscos do elevado endividamento”. Não deverão subir nos próximos cinco anos

Moodys considera "provável" que as melhorias nos custos de gestão da dívida, criadas pelos baixos juros, tenham diminuído a vontade política para reformas estruturais que impulsionem o crescimento.

O ambiente de taxas de juro historicamente baixas traz riscos para o sistema financeiro, a começar pelos países, mas também para bancos e empresas. Apesar disso, a situação não deverá alterar-se nos próximos quatro a cinco anos, de acordo com a estimativa da Moody’s.

“A continuação do atual ambiente de taxas de juro historicamente baixos tem uma série de efeitos para o rating. Para os emitentes de dívida soberana, particularmente em economias desenvolvidas, os baixos juros estão a mascarar os riscos de crédito associados ao elevado endividamento e ao fraco crescimento“, refere o relatório publicado esta terça-feira pela Moody’s.

O Banco Central Europeu (BCE), tal como vários bancos centrais de outras regiões, levou as taxas de juro de referência para mínimos históricos em reação à crise financeira (sendo que no caso dos juros dos depósitos está mesmo em terreno negativo).

Ao contrário do que aconteceu com a Reserva Federal dos EUA (Fed), o responsável de política monetária da Zona Euro nunca conseguiu subir juros após a crise. Já no caso do par norte-americano, subiu, mas voltou a cortar juros este ano para alimentar o ciclo económico e fazer face às incertezas associadas à guerra comercial.

"Enquanto alguns governos estão a aproveitar os baixos juros para alongar as maturidades das dívidas, também parece provável que as melhorias nos custos de gestão da dívida, criadas pelos baixos juros, diminuíram a vontade política para enfrentar a aversão eleitoral a reformas estruturais que poderão impulsionar o crescimento de longo prazo.”

Moody's

“Enquanto alguns governos estão a aproveitar os baixos juros para alongar as maturidades das dívidas, também parece provável que as melhorias nos custos de gestão da dívida, criadas pelos baixos juros, tenham diminuído a vontade política para enfrentar a aversão eleitoral a reformas estruturais que poderão impulsionar o crescimento de longo prazo“.

Portugal tem recorrido à emissão de dívida com maturidades cada vez mais longas. Desde que recuperou a confiança das agências de rating, o país tem emitido dívida com prazos de 10 ou mais anos e trocado títulos por outros que atingem a maturidade mais tarde. No ano passado, o prazo médio situou-se em 10,7 anos, enquanto a taxa de juro média paga pelo país fixou-se no mínimo histórico de 1,1%.

Além da nova dívida beneficiar de yields cada vez mais baixas, os reembolsos antecipados da dívida da troika (mais cara que a restante) têm levado a uma quebra no custo total. A despesa do Estado com juros da dívida vai cair para 7.180 milhões de euros, em 2020 (pela primeira vez abaixo 3% do PIB), mantendo a tendência de descida dos últimos anos.

Investidores atirados para o risco e empresas para a dívida

Mas o risco não é só para os emitentes de dívida pública. “Ao nível empresarial, a alavancagem deverá aumentar ainda mais à medida que as empresas continuam a beneficiar de baixos juros e da procura dos investidores”, refere a Moody’s.

“Para bancos, seguradoras e gestores de ativos, os contínuos juros baixos irão tornar o ambiente operacional mais desafiante. Dependendo do tipo de instituição financeira, o risco mais elevado poderá tomar várias formas, desde elevada exposição a ativos mais arriscados ou mudanças na composição dos ativos. As instituições financeiras com custos de infraestruturas mais pesados serão as mais penalizadas, relançando questões sobre a viabilidade de determinados modelos de negócio a longo prazo“.

No caso da Zona Euro, os bancos (incluindo os portugueses) têm alertado para o impacto dos juros negativos do BCE estão a ter no negócio bancário. A margem financeira corresponde ao negócio core de um banco tradicional, resultando sobretudo da diferença dos juros cobrados nos empréstimos à economia e dos juros pagos nos depósitos.

Assim, com os juros negativos do BCE, os bancos pouco têm a ganhar naquilo que é a sua atividade básica de concessão de crédito e captação de poupança. Tanto bancos como a Moody’s concordam que a situação não deverá alterar-se tão cedo, sendo que a estimativa da agência é que as taxas de juro reais não se alterem nos EUA nos próximos quatro a cinco anos e que, na Zona Euro, vá subindo gradualmente nesse período, mas que se mantenham, ainda assim, muito baixas.

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