Portugal só recicla 35% das embalagens de plástico. 50 empresas assinam Pacto para chegar a 70%

Até 2025, as metas passam por reciclar 70% das embalagens, mas também pela incorporação de 30% de plástico reutilizado na produção de novos produtos.

Quando o tema é reciclagem de embalagens de plástico, Portugal não fica bem na fotografia: está mesmo no top 10 dos países da União Europeia que menos reciclam estes resíduos. De acordo com os números mais recentes do Eurostat, de 2017, quase dois terços (65%) das embalagens de plástico ficam por reciclar e apenas 35% do total segue para os canais de reciclagem. Desta pequena minoria, apenas 70% são efetivamente reutilizadas e 30% são “refugo”, ou seja acabam incineradas ou ilegalmente depositadas em aterros.

Pior: de acordo com o último alerta lançado pela associação ambientalista Zero, em 2018 “Portugal só reciclou 12% do plástico dos resíduos urbanos“, ou seja, apenas 72 mil toneladas de um total de 600 mil foram recicladas, segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente.

Uma realidade reconhecida esta semana pelo próprio Ministério do Ambiente e da Ação Climática e que um grupo de 50 empresas quer agora mudar, a começar pela implementação de metas concretas até 2025 para as embalagens de plástico: uma listagem, a fazer já em 2020, de todos os plástico de uso único problemáticos ou desnecessários; 100% de embalagens reutilizáveis (recicláveis ou compostáveis); incorporação, em média, de 30% de plástico reutilizado na produção de novos produtos; 70% — o dobro — de embalagens efetivamente recicladas.

Uma grande evolução face ao que se tem assistido nos últimos anos em que a taxa de reciclagem das embalagens de plástico não só não aumentou, como tem mesmo vindo a cair — de 43% em 2015 para 42% em 2016 e para 35% em 2017 (colocando o país no 22º lugar dos recicladores europeus, apenas à frente de países como Malta, Finlândia, França, Estónia, Irlanda, Hungria, Áustria e Luxemburgo). Nesse ano, foram utilizadas no país mais de 400 mil toneladas de plástico em Portugal, de acordo com o Eurostat. No mundo, a cada ano, surgem mais 360 milhões de toneladas, sendo que 40% acabam como embalagens de plástico que por sua vez constituem 60% dos resíduos deste material altamente resistente e durável.

Foi para tentar inverter este cenário que Associação Smart Waste Portugal, que reúne “mais de 100 empresas preocupadas com a economia circular”, começou por criar um grupo de trabalho para os plásticos cujo trabalho resulta na assinatura, esta terça-feira, 4 de fevereiro, do primeiro Pacto Português para os Plásticos, que conta com o apoio do Ministério do Ambiente e da Ação Climática, em parceria com a rede dos Pactos para os Plásticos da Fundação norte-americana Ellen MacArthur, que engloba mais de 400 entidades em todo o mundo.

Depois de experiências no Reino Unido, Chile e França, “este é o quinto pacto assinado à escala global e o primeiro a contar com o envolvimento dos municípios. Conta com a participação da fileira completa, da produção à reciclagem, e nasceu da constatação que todos vamos tendo da crescente problemática dos plásticos. Tínhamos de fazer alguma coisa”, revelou ao Capital Verde, do ECO, Aires Pereira, presidente da SmartWaste Portugal.

Além do poder local, com várias câmaras municipais já a bordo do projeto (Lisboa, Cascais, Póvoa do Varzim, entre outras), o Pacto Português para os Plásticos conta também com a associação ambientalista Zero no papel de “amigo crítico” e soma parceiros institucionais (MAAC, Agência Portuguesa do Ambiente, Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, Conselho Empresarial para o desenvolvimento Sustentável), universidades (Porto, Coimbra, Trás-os-Montes e Alto Douro, Nova de Lisboa) e cerca de 50 empresas.

Coca Cola, Delta Cafés, Ecoibéria, Jerónimo Martins, Lidl, Intraplás, Lipor, Sonae, Nestlé, Novo Verde, Sociedade Ponto Verde são apenas alguns exemplo da lista de signatárias que se vão comprometer com a redução de plásticos de uso único, com metas bem definidas para os próximos cinco anos. Além do firme compromisso, estas empresas vão também contribuir com investimento financeiro para o orçamento partilhado do Pacto Português para os Plásticos: cada uma que assinar o documento tem de pagar um valor de inscrição (entre 5.000 e 7.500 euros) e ainda uma quota anual (dos 2.500 aos 3.750 euros).

Citada pela Lusa, Susana Fonseca, da área dos resíduos da associação ambientalista Zero, afirma que a associação “espera para ver” que resultados poderá conseguir este pacto, assinalando que, “no conjunto, a tendência tem sido aumento de resíduos” e que “pouco ou nada foi feito” na prevenção e na reutilização. “Este pacto pode ser uma boa ferramenta, mas vamos esperar para ver”, afirmou, sublinhando que taxar o uso de plásticos de uso único é uma competência do Governo que ainda não produziu resultados. “Isto não pode parar no plástico, temos que atacar tudo o que é descartável”, disse a ambientalista, salientando que substituir plástico por outros materiais não é uma alternativa viável e que é preciso garantir a reutilização.

De acordo com os números mais recentes da Agência Portuguesa do Ambiente, que se referem a 2018, foram produzidos 5,2 milhões de toneladas de resíduos — mais 0,4% do que no ano anterior –, 11,5% das quais são plástico. Desde 2014, a quantidade de resíduos produzidos em Portugal tem aumentado todos os anos, com a APA a reconhecer que “os esforços e investimentos que têm vindo a ser feitos no sentido do aumento da deposição seletiva, não têm tido os devidos reflexos nos comportamentos da população”.

Mas nem só o consumidor final tem falhado na sua missão de enviar os plásticos para a reciclagem. “Apostou-se muito em educar o consumidor, mas a indústria também foi reduzindo cada vez mais a sua taxa de cobertura de reciclagem de plásticos. Este Pacto tem o compromisso da indústria, de que todos vão trabalhar de forma diferente, desde o eco-design à incorporação de plástico reciclado na produção. Temos de começar a mudança pelo início da fileira e pela criação de novas embalagens que não fiquem contaminadas e possam ser devolvidas para reutilização no final do seu tempo de vida“, explica Aires Pereira.

Já a Sociedade Ponto Verde não é tão pessimista e garante que Portugal começou 2019 com dados positivos na reciclagem de embalagens da recolha seletiva, com um crescimento de 11% no primeiro semestre do ano, face ao período homólogo, atingindo cerca de 175 mil toneladas de resíduos encaminhados para reciclagem. “Um valor equivalente ao peso de 450 aviões comerciais”, calcula a SPV. Entre os materiais que registaram maior aumento de toneladas recolhidas destaca-se o vidro, que teve um crescimento de 10%, refletindo um caminho positivo para um material que tem em si grandes desafios para atingir as suas metas. Contam-se também o papel/cartão (com um crescimento de 16%), o alumínio (+13%) e o plástico (+5%). “Estes dados registados em todo o Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE) refletem uma, cada vez maior, atenção dada pelos portugueses à sustentabilidade e economia circular e ao impacto positivo da reciclagem em termos ambientais e socioeconómicos”, sublinhou Ana Isabel Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde.

Na apresentação do Pacto, que terá lugar esta terça-feira na sede da EDP, estará presente o ministro do Ambiente e Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, a representar o Governo, que tanto a Smart Waste Portugal como a Zero defendem que tem um papel essencial para que as intenções do pacto tenham sucesso. Além do ministro, a sessão de abertura da cerimónia de lançamento do Pacto Português para os Plásticos conta também com a presença de António Mexia, CEO da EDP, Aires Pereira, presidente da Associação Smart Waste Portugal, seguindo-se Nolwenn Foray, analista de Economia Circular da Fundação Ellen MacArthur, a falar sobre o tema “A Nova Economia dos Plásticos: A Rede dos Pactos para os Plásticos da Fundação”.

Serão também apresentados exemplos de boas práticas por parte da Nestlé, Delta Cafés, Lidl & Companhia, Intraplás e Sirplaste. A sessão de encerramento ficará a cargo de João Torres, secretário de Estado da Defesa do Consumidor.

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