Com que letras se escreve a palavra recuperação? U, V, L ou W?

Para a economia, 2020 será um ano para esquecer. Mas como será recuperação? Acontecerá já em 2021? As teorias dos economistas dividem-se entre os cenários mais ou menos otimistas.

Não há dúvidas de que os próximos meses serão marcados por uma quebra sem precedentes nos vários indicadores económicos e uma subida no desemprego. A dúvida passou a ser o que vai acontecer a seguir à primeira vaga da pandemia. É expectável que haja um regresso gradual a um “novo normal”, mas como irá a economia recuperar?

A resposta a esta pergunta tem várias hipóteses exemplificadas de forma simples por uma letra: uma recuperação em V, U, L ou W, podendo ainda ser equacionadas mais letras. Estas pretendem simular como será o gráfico da quebra e posterior recuperação do PIB e têm subjacentes pressupostos diferentes.

Entre o otimismo e o pessimismo, certo é que a incerteza é grande e, tal como têm repetido os economistas, tudo dependerá da duração e da dimensão do impacto que está a sentir-se neste momento. Além disso, também dependerá da eficácia das respostas económicas que os países colocarem em marcha e do próprio comportamento das empresas e dos consumidores.

A imprevisibilidade dos próprios meses levou também o Fundo Monetário Internacional (FMI) a traçar vários cenários de recuperação no World Economic Outlook, um dos documentos com previsões a que se dá mais atenção a nível internacional. O cenário base é que, após uma queda de 3% em 2020, o PIB mundial deverá crescer 5,8% em 2021, o que poderia refletir uma recuperação em V, mas esta previsão assume que as políticas anunciadas pelos Governos vão prevenir a falência generalizada das empresas, desemprego massivo e dificuldades no sistema financeiro.

E se isso não acontecer? É que há um “risco” real e “severo” de que o resultado seja pior, admitem os técnicos de Washington. O FMI traça três cenários adversos: o primeiro, em que as medidas permanecem durante mais tempo, a contração do PIB seria de 6%, o que se poderia assemelhar mais a uma recuperação demorada em U; no segundo cenário, a pandemia regressa em 2021, o que colocaria a recuperação em pausa, como ilustra o W; no terceiro cenário, o pior destes, conjuga-se um maior período de contenção em 2020 com uma recaída no próximo ano, com o PIB a cair 8% no total, o que pode ser ilustrado pela letra L.

Evolução do PIB mundial prevista pelo FMI no WEO como cenário base face ao que aconteceria sem a pandemia.

Recuperação em V

Esta é a recuperação mais desejada. Neste cenário, o impacto na economia é grande, mas rápido, assim como a sua recuperação. A procura e a oferta reajustam-se rapidamente para níveis próximos ao pré-pandemia com a ajuda dos estímulos orçamentais e monetários. Mas também é preciso assegurar que não haverá uma segunda vaga descontrolada do surto ou a existir que esta não implique o mesmo nível de restrições aplicadas atualmente.

“Caso a crise sanitária seja curta e a recuperação económica forte já na segunda metade deste ano, a comummente designada «recuperação em V» que foi assumida no cenário otimista, seria possível anular as perdas de 2020 já em 2021, com um ganho próximo dos 2% face a 2019″, explicam os economistas da Católica na última atualização das projeções para Portugal, assumindo que nesse cenário “a taxa de desemprego poderia baixar novamente dos 7% já no próximo ano, retomando os níveis de 2019”.

Na mesma linha, João Pisco, analista do Bankinter, antecipava no último outlook que, apesar de prever “uma queda histórica do PIB no 2º trimestre (-10,6%), fruto das fortes medidas de contenção adotadas, a recuperação posterior do crescimento deverá ser bastante mais célere do que em crises passadas. O que habitualmente se define como recuperação em ‘V'”. Esta previsão assume que a pandemia é controlada ainda no decorrer do 2.º trimestre e que o choque económico “não causará danos estruturais”. O PIB português cresceria 3% em 2021.

A mesma comparação com a crise anterior é feita por Keith Wade, economista-chefe da Schroders, que argumenta que ao contrário da crise financeira devemos assistir a uma “rápida recuperação”. “Desta vez será muito diferente dado que, em vez de [uma recuperação] em L, prevemos que a recuperação siga a trajetória em V”, explicava numa nota divulgada no início deste mês, onde antecipava que os EUA poderiam recuperar a atividade económica na sua totalidade logo no terceiro trimestre deste ano.

Recuperação em U

Semelhante à recuperação em V, esta retoma seria igualmente forte mas demoraria mais tempo. Este parece ser o cenário mais provável neste momento uma vez que o regresso à normalidade está a ser gradual na China, país onde a pandemia começou e onde esta já foi controlada.

Além disso, assume-se que as medidas económicas não vão conseguir “congelar” totalmente a economia, o que implica que nem todos os empregos destruídos são recuperados e que algumas empresas podem não sobreviver face ao maior nível de endividamento. Neste cenário as relações comerciais entre os países também demorariam a restabelecer a normalidade.

Uma evolução parecida a esta vai ao encontro do cenário central dos economistas da Católica no qual antecipam que o PIB português continue em 2021 4% abaixo do nível de 2019, sem recuperar das perdas de 2020. “Seria necessário esperar por 2022 para se regressar ao nível de produto do ano passado“, prevê o NECEP, assinalando que “assim, a taxa de desemprego manter-se-ia relativamente elevada (9.0%) em 2021, podendo regressar a valores próximos dos 7% num cenário de recuperação forte em 2022”.

Recuperação em L

Este é um dos cenários mais pessimistas: apesar de entrar numa fase de recuperação, a economia não consegue no curto prazo chegar ao nível pré-pandemia. Além disso, a queda inicial é mais significativa com as restrições a manterem-se durante mais tempo e pressupondo que a crise pandémica se transforme numa crise económica que tem repercussões sérias em todos os setores, tanto para empresas como para trabalhadores.

“Como sugere o cenário pessimista, a variação acumulada do PIB face a 2019 pode vir a degradar-se ligeiramente em 2021, com uma perda de output acima dos 20% acompanhada de uma taxa de desemprego próxima dos 16%”, em Portugal, antecipa o NECEP num cenário pessimista que pode aproximar-se a esta recuperação em L. Mesmo em 2022, o PIB continua 15% abaixo do nível em que terminou 2019.

A recuperação em L é semelhante à que se verificou os dois primeiros anos da crise financeira, principalmente por causa do excesso de endividamento que as economias tinham nessa altura, o que impossibilitava uma forte e rápida recuperação.

Recuperação em W

Este cenário depende ainda mais da evolução da pandemia. A questão que se coloca é: ultrapassada a primeira vaga, virá aí outra no outono sem uma vacina ou um tratamento mais eficaz? E vão ser adotadas as mesmas medidas de confinamento? Caso isto aconteça, o expectável é que a economia possa recuperar brevemente, mas volte novamente a (quase) paralisar.

Este cenário é equacionado pelo economista-chefe da Schroders, que cita uma análise da Imperial College London sobre essa possibilidade. “O risco principal para a nossa previsão central em ‘V’ é o regresso potencial do vírus no terceiro trimestre deste ano, resultando numa repetição da travagem no quarto trimestre“, antecipava Keith Wade, referindo que o resultado disso seria uma evolução da economia em ‘W’.

Há ainda mais letras possíveis para a recuperação. Neste artigo da Bloomberg era referido, por exemplo, o símbolo da Nike em que a queda inicial é grande e a recuperação é lenta e gradual com os Governos a aliviar progressivamente as restrições de confinamento. A cautela entre os consumidores mantém-se, assim como nas empresas, o que leva o PIB a não conseguir recuperar rapidamente em 2021 o que perdeu em 2020. Os economistas do Berenberg Bank que referem este símbolo dizem que demorará dois anos até isso acontecer.

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