Corrida ao acrílico faz disparar preços. Divisória para restaurantes chega a custar 50 euros

A procura por acrílicos "quintuplicou" em Portugal por causa da pandemia. Encomendas já estão a ser apontadas para agosto e a divisória para restaurantes chega a custar até 50 euros a unidade.

A procura por acrílicos está a disparar em todo o mundo, gerando escassez e esticando os preços.MIGUEL A. LOPES/LUSA

A pandemia continua a gerar distorções em alguns mercados. É o caso do setor do acrílico, um material plástico semelhante ao vidro, cuja procura disparou a nível mundial com as novas exigências de segurança causadas pela pandemia. Também em Portugal aumentou essa procura, gerando escassez e esticando os preços: uma divisória para a mesa de um restaurante chega a custar 50 euros, dependendo da qualidade pretendida.

Esta segunda-feira arrancou a terceira fase de desconfinamento. Fica marcada pela possibilidade de reabertura da restauração com a mesma lotação que os estabelecimentos tinham antes da pandemia, desde que sejam instaladas divisórias entre as mesas. É uma exigência que também já está a puxar pelo mercado, depois de bancos, hipermercados, gasolineiras e até repartições de serviços do Estado também terem instalado estas proteções, de forma a garantirem a segurança dos trabalhadores do atendimento ao público.

João Sousa, membro da gerência da Fabricril, é testemunha desse mesmo efeito no mercado. “A procura aumentou consideravelmente”, começa por revelar o engenheiro, referindo-se especialmente ao acrílico, mas também a outros materiais deste tipo. Com cerca de dez trabalhadores, a Fabricril, sedeada perto de Trofa, executa projetos em acrílico e compra a matéria-prima a fornecedores nacionais, que a importam de países europeus como Espanha e Itália, e também de fora da União Europeia, como é o caso de Israel e até China.

Contudo, essa escassez agravou-se ainda mais com a entrada no setor de players mais oportunistas, que viram na pandemia uma hipótese de fazer negócio numa área com novo fôlego, mesmo fora da sua especialização. “Com esta situação [da pandemia] e com esta exposição mediática, houve um aumento da procura por parte de players que não pertenciam ao setor. Muitas empresas que trabalhavam noutra coisa qualquer — serralharia, carpintaria — estão a comprar o material a preço inflacionado”, queixa-se o empresário. Por outras palavras, o preço aumenta para os players já estabelecidos.

Assim, para além da escassez gerada, que se reflete num aumento significativo do tempo de espera das encomendas de acrílico, também o preço da matéria-prima está a subir. Segundo João Sousa, o preço do acrílico ronda agora os 3,5 a 3,6 euros o quilo. Este ano, diz ter perdido a possibilidade de negociar matéria-prima em quantidade e revela-se obrigado a “pagar já metade” do valor da encomenda, cuja entrega está a ser apontada apenas para agosto. Questionado sobre quanto pode custar cada divisória em acrílico para o setor da restauração, aponta para um intervalo entre 30 a 50 euros.

“Foi um aumento exponencial”, reforça, garantindo ter sido abordado nos últimos meses para executar projetos de divisórias de segurança em notários, escolas, repartições do Estado. “Não conseguia responder, não tinha material”, confessa. “Desde que saiu no noticiário que as proteções deviam ser em acrílico, as pessoas entraram em shopping frenzy“, remata o engenheiro e gerente da Fabricril.

Há um ano, consegui negociar com quantidade quatro ou cinco toneladas. Agora, para quatro ou cinco toneladas, tenho de pagar já metade e só entregam em agosto.

João Sousa

Fabricril

Pandemia “quintuplicou” consumo. “Foi tentador, os ingleses pagavam-nos muito mais dinheiro”

Anselmo Rebelo é diretor-geral da Plexicril, uma empresa importadora e distribuidora de acrílico, que se assume com um volume de negócios a rondar os dez milhões de euros anuais. Tem 60 trabalhadores, sede perto de Vila Nova de Gaia e é uma das empresas fornecedoras de acrílico do mercado nacional.

Ao ECO, Anselmo Rebelo confirma também o aumento considerável da procura por acrílico nos últimos meses. “O mercado está habituado a um determinado tipo de consumo, um determinado tipo de espessura. [Este ano, com a pandemia], a situação quintuplicou os consumos. Houve alguns clientes nacionais que se reinventaram, tomaram as rédeas e forneceram” a grandes empresas nacionais, avança.

Navegar nesta maré alta exigiu a tomada de complexas decisões. Clientes estrangeiros chegaram a oferecer 20% a 30% acima do preço normal que era pago pelos clientes nacionais. Anselmo Rebelo diz que decidiu, contudo, apostar no mercado português e fornecer somente os clientes já habituais. Afinal, “a economia necessita dos acrílicos para poder reabrir”, aponta.

“Chegaram aqui pedidos desde Inglaterra à Grécia, passando por toda esta faixa de França, Itália, Espanha, Luxemburgo, de 1.000 ou 2.000 chapas [de acrílico]”, elenca. “Foi tentador, porque os ingleses pagavam-nos muito mais dinheiro, mas iria causar-nos um problema gravíssimo. Decidimos manter a economia nacional e os nossos clientes a funcionar, [que é] quem nos dá a ganhar dinheiro todo o ano”, confessa.

Questionado sobre o preço atual da matéria-prima, Anselmo Rebelo também aponta para os 11 euros o metro quadrado, ou cerca de três euros o quilo. Mas diz ser o preço “habitual”, que continua a cobrar aos clientes, apesar de antecipar um eventual aumento do preço no produtor em julho e que, admite, terá também de o passar aos clientes. Quanto ao preço “razoável” de uma divisória para a mesa de um restaurante, o profissional, com 42 anos de experiência, aponta também para um intervalo entre 44 e 50 euros a unidade.

Apesar de a pandemia ter trocado as voltas a muitas empresas, a Plexicril tem já preparado um investimento de peso: oito milhões de euros em capitais próprios até 2022, para instalar em Mozelos (Santa Maria da Feira) uma fábrica de acrílico que, segundo Anselmo Rebelo, será a única a nível nacional. As máquinas já estão a caminho e deverão chegar no final de julho ou início de agosto. Segundo números avançados pelo próprio, é uma unidade que deverá empregar mais de 25 pessoas na região e cuja inauguração está apontada para 15 de setembro.

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Corrida ao acrílico faz disparar preços. Divisória para restaurantes chega a custar 50 euros

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião