“Países mais endividados suportarão peso do impacto social”, alerta Poul Thomsen, cara da troika em Portugal

Poul Thomsen, a primeira cara da troika em Portugal, avisa os países mais endividados que serão as maiores vítimas desta crise e elogia o fundo de recuperação europeu como a resposta necessária na UE.

Poul Thomsen, que atualmente lidera o Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI), antecipa que os países europeus com maior endividamento irão “suportar o peso do impacto social” desta crise pandémica. Num texto publicado no blog do FMI, o economista que foi a cara da troika no início do programa de ajustamento português admite a divergência da recuperação e, por isso, apoia o fundo de recuperação europeu para apoiar os países mais afetados pela pandemia e os mais pobres.

“Os países da Europa com dívida elevada suportarão o peso do impacto social”, escreve, criticando os países por décadas de crescimento da dívida pública em tempos de crise sem sucessivas descidas quando a economia cresce. Para Poul Thomsen, que vai reformar-se no final deste mês, este é o reflexo de um “desempenho fraco [desses países] na resolução das deficiências estruturais [das suas economias], seja por rigidez institucional seja por vontade política insuficiente”.

O resultado dessa trajetória tem sido “desemprego elevado e emigração, especialmente entre os mais jovens”, aponta, antecipando que isso volte a repetir-se nesta crise com os Governos a privilegiarem a proteção dos mais idosos, até por estarem perante uma questão de saúde, deixando os jovens desprotegidos a nível económico. À semelhança desta dicotomia entre jovens e idosos, também os países europeus mais ou menos endividados terão recuperações diferentes.

Mas não é só a dívida que poderá complicar a recuperação. Poul Thomsen refere a rigidez do mercado laboral, a dependência nacional de indústrias muito integradas nas cadeias de valor internacionais, a falta de folga orçamental, entre outros fatores. “As condições iniciais profundamente divergentes deverão resultar provavelmente numa recuperação altamente desigual na Europa“, vaticina.

É por isso que o economista do FMI apoia a proposta da Comissão Europeia, “Next Generation EU”, também apelidada de fundo de recuperação europeu, que vai ser discutida esta sexta-feira e sábado num Conselho Europeu, órgão que reúne os chefes de Estado da União Europeia, extraordinário. “Dadas as condições nacionais divergentes, há fortes razões para apoiar um estímulo orçamental conjunto da UE“, considera, argumentando que o resultado final será o melhor para o mercado único como um todo.

Para Thomsen os fundos devem focar-se nos países mais afetados pela crise pandémica ou nos que têm menos folga orçamental, são mais pobres e onde o impacto das alterações climáticas é mais forte. Contudo, deixa um aviso: “É vital que isto [o fundo de recuperação] sirva como um catalisador e não como um substituto das reformas estruturais e das políticas orçamentais prudentes”.

“As reformas difíceis devem ser trabalhadas com uma determinação renovada”, exorta, assinalando que os objetivos da política dos Governos europeus devem ser, em primeiro lugar, salvar vidas no momento atual, mas também preparar a Europa para que esta possa emergir como uma economia mais verde “no longo prazo”, “uma onde gerações futuras possam prosperar de forma equitativa”.

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