Uma escola sem professores nem horários. Chegou a Portugal a Escola 42

A escola de programação de referência quer ajudar a combater as desigualdades de acesso à formação e a lacuna na oferta destes profissionais. Em menos de um dia, recebeu 500 candidaturas.

Pedro Cardoso, 22 anos, é licenciado em artes plásticas e está a terminar o mestrado em antropologia. Foi o primeiro candidato a passar a primeira fase de testes para integrar o bootcamp intensivo na Escola 42, a escola de programação de referência internacional, apresentada esta segunda-feira. O interesse pela área e a possibilidade de melhores perspetivas profissionais foram as motivações do aluno para se candidatar ao programa, conta à Pessoas. Em cerca de 10 horas, e à data deste artigo, a Escola 42 já tinha recebido 500 candidaturas.

A escola é financiada por mecenas, aberta a candidatos de qualquer área de estudo e totalmente gratuita. O primeiro programa em Portugal arranca em fevereiro do próximo ano.

A Escola 42 vai ocupar os três pisos da antiga tipografia na Rua Neves Ferreira, na freguesia de Penha de França, em Lisboa, naquele que foi considerado no passado um dos edifícios mais robustos da capital — por suportar o peso da maquinaria. As candidaturas já estão abertas e o único critério de elegibilidade é o candidato ter, no mínimo, 18 anos e motivação para aprender a programar.

Escola 42: “Aprender a aprender”

Nesta escola não há professores, não há aulas, nem horários. Cada aluno constrói o plano curricular à sua medida, bem como os seus horários, porque o edifício terá as portas abertas 24 horas por dia, 365 dias por ano. O objetivo é que os alunos “aprendam a aprender” e se tornem autónomos, começa por destacar Pedro Santa Clara, líder do projeto e um dos responsáveis do campus da Nova SBE em Carcavelos, na inauguração da escola.

“O projeto tem três características que me levaram a olhar com olhos diferentes: o facto de ser inovador, de ser inclusivo e estar alinhado com as necessidades de mercado”, acrescenta Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander, um dos parceiros fundadores da Escola 42.

Há uma falta muito grande de profissionais nestas áreas [de programação], portanto achamos que temos também um espaço importante para contribuir para o país, para produzir profissionais que, além de irem trabalhar para as empresas, também começarão as suas startups, os seus projetos e acreditamos que vão ter grandes carreiras.

Pedro Santa Clara

Responsável pelo projeto da Escola 42 em Portugal

Num setor onde, todos os anos, há uma lacuna de 500 mil profissionais das áreas da programação, em Portugal, e cerca de um milhão em toda a União Europeia, é urgente ser “criativo e inovador” para suprir as necessidades de oferta profissional, destaca o responsável.

“Além de ser um projeto revolucionário, o cariz muito inovador foi aquilo que nos atraiu mais, assim como ajudar as pessoas que temos a certeza que querem vir estudar. É talvez o nosso maior investimento neste tipo de ações de responsabilidade social”, destacou José Cardoso Botelho, CEO da Vanguard Properties, uma das empresas que financia a escola.

Uma alternativa ao ensino convencional

“É uma escola muito especial, com um método pedagógico muito próprio, sem aulas, em que os alunos aprendem desenvolvendo projetos, trabalhando uns com os outros, aprendendo entre pares”, descreve Pedro Santa Clara, em conversa com a Pessoas.

O curso divide-se em 21 níveis, com um período mínimo para cumprir cada nível e um máximo de cinco anos para cumprir a totalidade do programa. Em média, o curso pode concluir-se em três anos e meio. Depois do teste online, os alunos poderão integrar três bootcamps, as designadas “Piscine” — em outubro, novembro e janeiro de 2021 — e serão selecionados um terço, ou seja, 150 alunos para o programa que arranca em fevereiro do próximo ano.

As escolas que vão ter sucesso nos próximos anos são aquelas que souberem reinventar a sua experiência física, presencial, tirando partido da tecnologia para oferecer uma experiência melhor aos seus alunos.

Pedro Santa Clara

Responsável pelo projeto Escola 42 em Portugal

A Escola 42 tem mais de 10 mil alunos em todo o mundo, com uma média de idades de 25 anos, e com uma taxa de empregabilidade que se aproxima dos 100%. Durante o programa, os alunos podem fazer dois estágios e aumentar as hipóteses de virem a ser recrutados no futuro: “Faremos tudo para apoiar o recrutamento dos nossos parceiros mas, para além disto, a rede internacional [da Escola 42] tem uma plataforma de empregos em que empresas de todo o mundo competem para recrutar os nossos alunos”, reitera o responsável.

Escola 42, Penha de França, Lisboa.

A pandemia ajudou a “quebrar barreiras”, mas o ensino convencional ainda é pouco trabalho experiencial, alerta o responsável pelo projeto. O futuro do ensino, defende, será muito mais online, ou híbrido (presencial e à distância). “Somos complementares das múltiplas escolas de engenharia informática em Portugal”, sublinha.

Crescer e ajudar a preencher lacunas de mercado

Para o CEO do Santander, a Escola 42 é um dos “maiores aceleradores do elevador social em Portugal” e, por isso, integra-se no tipo de investimento que o banco tem feito nesta área e representa uma oportunidade para o próprio branco. Atualmente, os profissionais das áreas tecnológicas e programação do Santander representam 10% da força de trabalho e o objetivo de futuro é chegar aos 70%, refere Pedro Castro e Almeida, que acredita que a profissão de “bancário” sem qualquer ligação à área tecnológica, “está a perder posição de mercado”.

A Escola 42 está distribuída por três pisos, onde se mantiveram as máquinas da antiga tipografia, e onde os alunos terão acesso a salas com computadores, uma cozinha, espaços de convívio e até um terraço com vista privilegiada sob Lisboa. Por isso, os planos para o futuro são apostar no crescimento e formar cada vez mais alunos, garante Pedro Santa Clara: “Tendo espaço, mesas e computadores, podemos facilmente aumentar o número de alunos e se houver procura, pessoas talentosas e motivadas, faremos de tudo para aumentar a escala do programa”.
“Há uma falta muito grande de profissionais nestas áreas [de programação], portanto temos também um espaço importante para contribuir para o país, para produzir profissionais que, além de irem trabalhar para as empresas onde há muita falta, também começarão as suas startups, os seus projetos e acreditamos que vão ter grandes carreiras”, acrescenta Pedro Santa

Clara.No

futuro, acrescenta “vamos ver as grandes universidades do mundo, grandes empresas tecnológicas e muitas startups que vão procurar novos espaços para ensinar. As escolas que vão ter sucesso nos próximos anos, são aquelas que souberem reinventar a sua experiência física, presencial, tirando partido da tecnologia para oferecer uma experiência melhor aos seus alunos”,

conclui.A

primeira 42 foi fundada em 2013, em Paris, e desde então o projeto estendeu-se a mais de 20 cidades em todo o mundo. Em Portugal, a Escola 42 é inteiramente financiada por mecenas, entre eles o Banco Santander, a Vanguard Properties e a empresária e filantropa sino-americana, Ming Hsu. Em Portugal, a 42 Lisboa conta ainda com a bi4all, o empresário Luís Amaral e a família Alves Ribeiro, assim como a Fundação José Neves como “education partner“.

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