Dos desempregados aos inativos, Portugal já passou mesmo o “ponto mais crítico da contração”?

Em junho, 2.600 pessoas encontraram trabalho e recuou o número de inativos em Portugal, mas a taxa de desemprego subiu mais de um ponto percentual.

Depois de ter descido por quatro meses consecutivos, o número de pessoas empregadas em Portugal voltou a crescer, em junho. Apesar de a taxa de desemprego ter também subido nesse mês, o ministro da Economia acredita que os dados divulgados, esta quarta-feira, sinalizam que o “ponto mais crítico da contração económica já ficou para trás”. É mesmo assim?

Os números publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que o universo de empregados está a recuperar pela primeira vez desde o início da pandemia, mas é importante não esquecer que junho é, todos os anos, um mês marcado pelo aumento tradicional do emprego por causa das atividade ligadas ao verão. De salientar também que há ainda 180,7 mil empregos “desaparecidos” face a fevereiro.

A nota divulgada esta quarta-feira sinaliza, por outro lado, que o número de inativos recuou, mas salienta que a taxa de subutilização do emprego aumentou e ultrapassou a faixa dos 15%. Essa evolução é explicada, em exclusivo, pela subida dos desempregados, cuja taxa subiu para 7%. Depois de, nos últimos meses, o crescimento do universo dos inativos ter “mascarado” o desemprego, em junho, já foi possível começar a perceber o verdadeiro impacto da pandemia no mercado de trabalho português.

180 mil empregos destruídos. Há já luz ao fundo do túnel?

Os dados divulgados pelo INE, esta quarta-feira, indicam que, em junho, subiu para 4.657.900 o número de pessoas empregadas em Portugal. Tal reflete, em comparação com o mês anterior, uma subida de 0,1%, ou seja, mais 2.600 trabalhadores encontraram emprego.

De notar, contudo, que junho é um mês em que, por tradição, há mais pessoas empregadas por causa das atividades ligadas ao verão; Além disso, o mês em causa ficou marcado pelo desconfinamento da economia nacional, o que também ajuda a explicar essa evolução positiva. Para o ministro da Economia, o crescimento da população empregada sinaliza uma recuperação, ainda que tímida, da atividade económica.

É ainda importante colocar estes dados em perspetiva e compará-los não só com o mês anterior, mas também com o ano anterior e com os números registados antes da chegada da pandemia de coronavírus a Portugal.

Em junho do ano passado, por exemplo, havia mais 174.300 pessoas empregadas do que em junho deste ano, ou seja, registou-se um recuo de 3,6%. Além disso, é possível concluir que, por causa da pandemia de coronavírus, foram destruídos, nos últimos quatro meses, 180,7 mil empregos: de 4.838.600 pessoas empregadas em fevereiro para 4.657.900 pessoas empregadas em junho.

Em quatro meses, 180,7 mil empregos desapareceram

Fonte: INE

Tudo somado, apesar do recente (e ligeiro) crescimento do número de pessoas empregadas, Portugal ainda está longe de voltar aos níveis pré-pandemia. A subida em causa não pode, de resto, ser desligada do próprio momento do ano em que aconteceu e que tradicionalmente é marcado por uma evolução positiva do emprego. Ainda assim, a boa notícia é que, depois de quatro meses a emagrecer, o universo de empregados voltou a aumentar, pela primeira vez.

Número de inativos cai pela primeira vez em oito meses

O indicador da subutilização de trabalho inclui não só os desempregados, mas também o subemprego de trabalhadores a tempo parcial e os inativos quer estejam à procuram de emprego, mas não estejam disponíveis para trabalhar, quer estejam disponíveis mas não procurem emprego.

Em junho, esta taxa ultrapassou a barreira dos 15%, o que já não acontecia desde o início de 2018. Tal é explicado, em exclusivo, pelo aumento do número de desempregados e pelo subemprego, esclarece o INE. Nos meses anteriores, tinha sido o crescimento do número de inativos a engordar este indicador. No entanto, em junho, o universo de inativos acabou por encolher.

Há menos inativos em Portugal

Fonte: INE

A propósito, segundo o INE, em junho, 2.771.800 pessoas estavam inativas, menos 2,2% do que em maio. Deste modo, depois de oito meses a crescer, o universo de inativos encolheu, pela primeira vez. Ainda assim, este número é mais alto do que aquele registado há um ano, altura em que havia menos 176.100 pessoas nesta situação.

Quanto à subutilização do trabalho, desde abril que a taxa não tem parado de aumentar. O salto verificado entre maio e junho (0,8 pontos percentuais) é, contudo, menos significativo do que aquele registado entre março e abril (um ponto percentual) ou entre abril e maio (1,2 pontos percentuais).

Desemprego com subida mais expressiva desde pandemia

Em junho, a taxa de desemprego atingiu 7%, valor mais alto desde agosto de 2018, ou seja, há quase dois anos que não havia uma fatia tão grande da população ativa sem trabalho.

No primeiro mês em que Portugal se viu confrontado com a pandemia de coronavírus, a taxa de desemprego ainda desceu, com o crescimento do universo dos inativos a “mascarar” o impacto do surto de Covid-19 no mercado laboral luso.

Desemprego subiu 1,1 pontos percentuais em junho

Fonte: INE

Em abril, inverteu-se a tendência e registou-se uma subida muito ligeira da taxa em questão, cuja evolução foi, mais uma vez, “mitigada” pela subida dos inativos. E em maio, a taxa de desemprego chegou mesmo a descer, ainda que 104 mil pessoas tenham perdido o trabalho nesse mês.

Em junho, a tendência voltou a inverter-se, registando-se agora uma subida de 1,1 pontos percentuais face a maio. Isto ao mesmo tempo em que, como já foi referido, o universo de inativos recuou, pela primeira vez. O salto da taxa de desemprego registado em junho foi, de resto, o mais expressivo desde o início da pandemia. O ministro da Economia acredita, ainda assim, que “já existe um abrandamento da tendência de subida do desemprego” e diz mesmo considerar que o “ponto mais crítico da contração económica já ficou para trás”.

De notar que a taxa de desemprego define a relação, em termos percentuais, da população desempregada para com a população ativa. Para ser considerado desempregado, um trabalhador tem de ter procurado um novo emprego e de ter estado disponível para trabalhar. Já a população ativa é definida como “a mão-de-obra disponível para a produção de bens e serviços que entram no circuito económico”.

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