Bancadas em vez de impressoras. Neste cowork partilham-se cozinhas (e incubam-se negócios)

Investimento de meio milhão de euros resultou num espaço que junta cloud e dark kitchens. Quer acolher seis projetos gastronómicos de delivery em simultâneo e criar até 30 postos de trabalho.

As bancadas são mesas de trabalho. As impressoras partilhadas transformaram-se em robôs de cozinha, frigoríficos e termómetros gastronómicos. E, a separar as cozinhas, apenas o aroma de pratos com muitas inspirações diferentes. Neste “cowork”, acabado de abrir na capital portuguesa, há a ambição de ser um hub de cozinhas, cozinheiros e negócios gastronómicos.

A ideia nasceu há dois anos, discutida pelos promotores Frederico Carneiro (ex-Second Home Lisboa), Anna Arany (fundadora de conceitos como o Noori ou a Levoo) e João Bon de Sousa, investidor do WEAT.

João Bon de Sousa, Anna Arany e Frederico Carneiro são os fundadores do Weat..D.R.

“Surgiu em conversa com a Anna, por causa da experiência que tem no negócio da restauração, e de me confessar a dificuldade de testar conceitos em espaços mais profissionais. Começámos a pensar no que havia lá fora e concluímos que nos Estados Unidos havia já muito esse tipo de espaços que, numa lógica comunitária, de open space com bancadas, frigoríficos e arcas congeladoras partilhadas, permitia a partilha de experiências e um espaço comum num registo informal e comunitário“, explica Frederico Carneiro, em conversa com o ECO.

O WEAT é, assim, um espaço que junta dois conceitos diferentes: o de cloud kitchen — numa lógica de incubadora e de escalabilidade — e o de dark kitchen — pensado especialmente para negócios ligados à gastronomia mas cujo único canal de vendas assenta numa lógica de delivery ou entrega em casa.

“Fizemos contas, pensámos como avançar. E entretanto surge da Uber Eats e percebemos que começam a existir aquilo a que se chama as dark kitchens, cozinhas fechadas onde de onde só saem ‘restaurantes’ virtuais”, assinala Frederico.

Em Portugal, o primeiro negócio deste género foi lançado por Olivier da Costa: a marca Sauvage foi especificamente criada para ser vendida na Uber Eats, e lançada em janeiro de 2019.

O espaço, pensado para pessoas que querem testar negócios e perceber se os conceitos têm fit com o mercado ou, ainda, para empreendedores focados em serviços pontuais como é o caso do catering, o WEAT respeita uma lógica aberta de funcionamento. “Em vez de secretárias tens bancadas e, também, também contamos com uma parte de cozinhas fechadas, para empresas com uma estrutura maior, que já têm aqui o seu ‘escritório’ fechado”, assinala o responsável.

É logicamente um cowork mas em versão cozinha: ao fim do dia, vais embora e vem uma empresa que aspira, que limpa, que trata. De manhã chegas lá, tudo impecável, abres o ‘PC’ – ligas o fogão – e continuas a trabalhar”, defende o gestor.

Dark e cloud, dois lados da mesma moeda

Comunitária, mas com espaços privados. Privada, mas com transparência. As quatro cozinhas independentes da WEAT estão instaladas paredes meias com uma cozinha comunitária, em regime de coworking e disponível para alugar à hora — 25 euros/hora, por um período mínimo de duas horas –, e com uma cozinha vintage que tanto pode ser usada para produções como para workshops ou team buildings.

Esta foi a forma que os sócios do WEAT encontraram para, num mesmo espaço, juntarem os conceitos de dark e de cloud kitchen. Enquanto o primeiro descreve estruturas já montadas em que podem testar-se conceitos de restauração apenas disponíveis virtualmente, sem espaço físico, este último “responde, em termos de elasticidade, como a cloud responde no IT convencional”, detalha o gestor. “No fundo é algo que ajuda, em termos de pico de capacidade, a suprir qualquer dificuldade ou necessidade existente nos restaurantes. Se não tens escala, não vais contratar um servidor para uma coisa de um dia, aqui é igual. Precisas da cozinha um dia ou dois, vens, usas e vais embora. Nem tens de te preocupar com a limpeza”, explica Frederico.

Precisas da cozinha um dia ou dois, vens, usas e vais embora. Nem tens de te preocupar com a limpeza.

Frederico Carneiro

Cofundador do WEAT

Com um investimento de meio milhão de euros, o WEAT quer ser um “hub para entre duas a três dezenas de postos de trabalho”. O projeto tem também como ambição revitalizar aquela zona ribeirinha da cidade. “A doca do espanhol está muito abandonada, em particular a partir do final do dia, e durante a semana. Há pouca oferta de restauração, por exemplo. Queremos em breve lançar uma esplanada digital onde se pode pedir qualquer um dos conceitos incubados no espaço, com delivery imediato nessa esplanada”, revela Frederico Carneiro.

Assim, o acesso a uma cozinha cuja certificação e instalação pode supor um investimento de entre 20 a 30 mil euros fica, no WEAT, por um investimento mensal de 2.200 euros. Cada cozinha independente consegue produzir entre 40 a 50 refeições por time slot (almoço ou jantar). “Vamos supor que a pessoa tem imenso sucesso no negócio: quando ultrapassa uma determinada marca, aluga uma cozinha própria. É como acontece em todas as empresas que crescem. O WEAT está completamente direcionado para incubar negócios de delivery, pessoas que querem começar até uma dada escala e, no fundo, aquilo que temos aqui são as condições para o poderem fazer de forma autónoma”, assegura.

Além de cozinhas equipadas e certificadas, e de uma rede de mentores disponíveis para apoiar os projetos na sua fase inicial, as “startups” incubadas no WEAT contam ainda com um conjunto de incentivos entre os quais uma parceria já feita com a Uber Eats com condições especiais. “Quem vem para aqui tem uma cozinha montada, tem tudo, só tem de ter o negócio na cabeça, o conceito. Já tem o protocolo estabelecido, é só lançar na Uber Eats, receber as encomendas e entregar”, assinala Frederico.

O WEAT está completamente direcionado para incubar negócios de delivery, pessoas que querem começar até uma dada escala e, no fundo, aquilo que temos aqui são as condições para o poderem fazer de forma autónoma.

Frederico Carneiro

Cofundador do WEAT

“Vais estar aqui e ver gente a trabalhar por todo o lado, é essa a lógica, sentires-te no meio de uma mega cozinha com muita gente a cozinhar, a produzir comida. Há uma porta de saída onde param as motas que chegam, recolhem e arrancam”, detalha.

Por enquanto, o WEAT tem duas das quatro dark kitchens ocupadas, com os projetos Green Burger, marca 100% biológica e sustentável, e a marca de comida indiana de fusão Raimethi. Os fundadores do WEAT preveem que a ocupação dure, em média, um ano de aluguer por projeto.

 

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Bancadas em vez de impressoras. Neste cowork partilham-se cozinhas (e incubam-se negócios)

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião