PJ confirma que Vieira de Almeida foi alvo de ataque informático

Em janeiro deste ano, a sociedade de advogados Vieira de Almeida garantia ao ECO/Advocatus que não tinha sido alvo de pirataria informática.

A Polícia Judiciária (PJ) confirmou esta quinta-feira que a Vieira de Almeida (VdA) foi alvo de ataque informático de Rui Pinto — arguido no processo do FootballLeakse que essa violação na correspondência eletrónica de um dos três maiores escritórios portugueses está a ser alvo de investigação, num processo autónomo.

Segundo o inspetor da PJ, José Amador, o escritório de advogados que representa a Doyen terá sido igualmente visado – à semelhança do que é imputado a Rui Pinto em relação ao Sporting, Doyen, Federação Portuguesa de Futebol, à sociedade de advogados PLMJ e à Procuradoria-Geral da República – por ter sido encontrada uma denúncia do CEO do fundo de investimento à então procuradora-geral Joana Marques Vidal nos dispositivos apreendidos ao criador da plataforma.

“No meio de outras entidades que tiveram o mesmo tipo de problema foi o escritório de advogados que representava a Doyen, a Vieira de Almeida. Com elevada probabilidade, [os documentos] terão sido exfiltrados do escritório Vieira de Almeida”, afirmou a testemunha do processo Football Leaks na audiência de julgamento desta quinta-feira, sublinhando que foi extraída uma certidão deste processo e que está agora em investigação e sob segredo de justiça. E que, por isso, disse o inspetor, não pode revelar mais pormenores ao coletivo de juízes e audiência que se encontravam no Campus de Justiça, em Lisboa. Contactado pelo ECO, fonte oficial do escritório gerido por João Vieira de Almeida não quis comentar o facto.

Em janeiro deste ano, a sociedade de advogados Vieira de Almeida garantia ao ECO/Advocatus que não tinha sido alvo de pirataria informática. “Essa informação está totalmente incorreta e profundamente enganadora. Faz referência a uma situação de hacking ocorrida há mais de dois anos, não havendo, como admite a própria notícia, qualquer evidência de ligação ao Luanda Leaks”, referindo-se a uma notícia do Público à data (janeiro de 2020) e que dava conta que a VdA tinha sido alvo de um ataque e que não tinha feito queixa às autoridades.

Já esta quinta-feira, de acordo com José Amador, a PJ não se alongou sobre esta situação em específico do escritório de advogados porque “o tempo não dava para mais”, sem deixar de lamentar o indeferimento do pedido de especial complexidade do processo que alargaria o tempo de trabalho da investigação. “Quando nos deparámos com a realidade daqueles discos, percebemos muito rapidamente que estávamos perante uma coisa de dimensão ímpar. Teríamos de ser dez vezes mais e provavelmente isso não chegaria para metade [da informação]”, frisou, acrescentando: “Não tivemos muito tempo para a análise dos ficheiros e isso presidiu à seleção das entidades que figurariam na acusação”. Apenas a violação à correspondência eletrónica e ao sistema informático da PLMJ foi alvo de investigação deste processo que agora está a ser julgado.

Em julho, o ECO já tinha dado conta que a Vieira de Almeida, Abreu Advogados, o sócio da Morais Leitão Carlos Osório de Castro, a Vaz Serra e a RPS Advogados tinham sido alvo de pirataria pelo hacker português Rui Pinto. No total, era uma lista de 33 entidades — públicas e privadas — que deram origem a um novo processo, cujas certidões foram extraídas do Football Leaks, cuja acusação o ECO teve acesso, na altura.

O Ministério da Justiça, a Rede Nacional de Segurança Interna, a Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública, Liga Portuguesa de Futebol, Atlético de Madrid, Leixões, Urbinvest, Landscape, Fidequity, SIGA, Sable, Grupo Fosun, IURD, Vilarreal, Shaktar, FIFA, UEFA, Benfica, Barcelona, Manchester City, Real Madrid, Inter de Milão, Juventus, Ajax, Club Desportivo Nacional, Futebol Clube do Porto, Record, Correio da Manhã perfaziam a lista dos restantes nomes constantes na acusação, que ainda hoje se encontra em segredo de Justiça.

José Amador admitiu mesmo que houve uma “seleção das entidades” atacadas que “constariam na acusação”. Ainda assim, foi extraída certidão desses alegados ataques — entre eles, o da Vieira de Almeida — e decorrem agora investigações isoladas.

Com efeito, o inspetor realçou que Rui Pinto teria acompanhado desde muito cedo a investigação, ao terem sido encontradas “digitalizações muito vastas do inquérito” e “peças específicas” do processo.

O caso “Luanda Leaks” revelou um conjunto de 715 mil documentos contendo informações sobre Isabel dos Santos, nomeadamente sobre transferências feitas pela empresária angolana para contas offshore no Dubai. E acabou por ser a razão da saída de Jorge Brito Pereira — advogado de anos de Isabel dos Santos — da Uría Menéndez-Proença de Carvalho e ex-PLMJ.

Rui Pinto, de 31 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, por 14 de violação de correspondência e por seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol e a Procuradoria-Geral da República, e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e levou também à pronúncia do advogado Aníbal Pinto, então representante de Rui Pinto.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 7 de agosto, “devido à sua colaboração” com a Polícia Judiciária (PJ) e o seu “sentido crítico”, mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.

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