BCP poderia crescer 20% numa fusão com o Montepio

Ainda não há negócio e o banco liderado por Miguel Maya já está a ser a aplaudido pelos investidores em bolsa. Possível fusão permitiria cortar custos numa altura de pressão sobre o setor.

Mais ativos e menos custos poderá ser o fruto da fusão do BCP com o Banco Montepio, caso a operação avance. A possibilidade foi avançada este fim de semana pelo Expresso, que noticiou que o banco liderado por Miguel Maya terá mesmo comunicado essa disponibilidade ao Governo. Em bolsa, os investidores já estão a aplaudir a possibilidade.

Em causa estará uma eventual fusão que servisse para salvar o Montepio em caso de necessidade. O gestor negou quais negociações com o banco ou com o ministro das Finanças, João Leão, mas não excluiu a possibilidade. “Estamos tranquilos com a nossa estratégia. Agora, se houver operações que justifiquem que o banco as analise com rigor, assim faremos“, disse Miguel Maya esta segunda-feira, em declarações aos jornalistas à margem de uma conferência em Lisboa.

Se avançar, o banco liderado por Miguel Maya poderá crescer 20% em termos de ativos, de acordo com as estimativas da equipa de research do CaixaBank/BPI. Os analistas apontam que o Banco Montepio tem cerca de 17,9 mil milhões em total de ativos. A fusão do Montepio com o BCP iria implicar um aumento do total de ativos do BCP em cerca de 20% (aumentos de 18% e 17% nos empréstimos e nos depósitos, respetivamente)“, dizem, sublinhando que o impacto da operação é “por agora, neutro”.

Retrato dos dois bancos no final do primeiro semestre

Fonte: CaixaBank / BPI (com base em dados dos relatórios semestrais dos dois bancos)

A eventual fusão poderia reforçar o peso e quota do BCP no mercado bancário português, enquanto permitiria cortar custos operacionais, numa altura de forte pressão para o setor. A banca tem sido um dos setores mais prejudicados pela pandemia, levando a uma onda de consolidação, acompanhada de despedimentos por toda a Europa.

Como o ECO noticiou, o Montepio está na linha da frente dessa tendência, estando a implementar um plano de reestruturação que vai implicar o despedimento de 600 a 900 pessoas. As saídas acontecem depois dos prejuízos de 51 milhões registados no primeiro semestre. Do outro lado, o BCP conseguiu manter-se acima da linha de água, mas os lucros de 76 milhões de euros foram 55% inferiores aos registados em igual período do ano passado.

“No contexto atual, estamos a viver a tempestade perfeita e a lei de Murphy no BCP. A recessão financeira, a fusão dos maiores bancos do país vizinho (Caixabank-Bankia) que torna uma ameaça para que a concorrência BPI possa ter produtos mais competitivos, a entrada de empresas tecnológicas no negócio bancário, e o aumento de imparidades nunca antes visto, pondo quase 30% dos créditos do BCP em risco, é mesmo a lei de Murphy”, acredita Pedro Amorim, analista da corretora Infinox.

"No setor bancário europeu tem conseguido, através de fusões e aquisições, aumentar os seus resultados com o aumento de sinergias. Estas sinergias resultam num aumento de economias de escalas devido à redução de custos com pessoal e infraestruturas.”

Pedro Amorim

Analista da Infinox

A conjugação de fatores de pressão para o setor, que foi agravada na semana passada com os FinCEN Files, levou as ações do BCP a tocarem mínimos históricos nos 7,92 cêntimos por ação. Na sessão desta segunda-feira, os títulos do banco recuperaram em reação à notícia, com uma valorização de 4,2% — a maior subida diária desde início de junho — para 8,25 cêntimos.

“Usualmente, os retornos destes tipos de investimentos são a longo prazo, mas o facto de assistirmos a uma reação positiva no mercado acionista do BCP acaba por ser um bom indicador que esta fusão é vista de bons olhos para os investidores e poderá vir a ser uma mais-valia a longo prazo”, sublinha Henrique Tomé, analista da XTB.

Amorim concorda com a avaliação, mas diz que ainda não viu o fim das desvalorizações das ações devido à ameaça, para a sustentabilidade de longo prazo, de fatores como elevados custos com regulamentação, competição das fintech ou baixas taxas de juro.

"Usualmente, os retornos destes tipos de investimentos são a longo prazo, mas o facto de assistirmos a uma reação positiva no mercado acionista do BCP acaba por ser um bom indicador que esta fusão é vista de bons olhos para os investidores e poderá vir a ser uma mais-valia a longo prazo.”

Henrique Tomé

Analista da XTB

Além do Montepio, o BCP está igualmente a reagir à notícia do Jornal Económico de que está a preparar a venda de duas carteiras de ativos tóxicos, com um valor global de cerca de 721 milhões de euros. Em causa estão dois pacotes, um de crédito malparado e outro de ativos imobiliários, cuja venda está a ser assessorada pela KPMG.

O projeto “Webb” engloba aproximadamente 266 milhões de euros de crédito malparado de pequenas e médias e empresas, enquanto o pacote “Ellis” envolve dívida empresarial e ativos imobiliários, num montante de 455 milhões de euros. De acordo com o CaixaBank/BPI, estes portefólios representam 18% da non-performing exposure (NPE) da instituição financeira, cujo plano estratégico até 2021 pretende reduzir o stock de NPE para três mil milhões de euros (tinha 3,9 mil milhões em junho).

Os analistas do CaixaBank/BPI consideram, também neste caso, que o impacto do negócio é “neutro, por agora” para as ações. “Os impactos finais de uma potencial venda dependem dos termos finais do negócio e as provisões atuais sobre os empréstimos que estão a ser vendidos“, acrescentam.

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