Green e smart mining. Pode uma mina de lítio ser “verde”?

David Archer, CEO da Savannah Resources, reconhece que "ninguém quer uma mina ao pé de casa". Mas garante que a sustentabilidade ambiental assume hoje um papel central nas explorações de lítio.

A britânica Savannah Resources acredita que vai ter luz verde da Agência Portuguesa do Ambiente para arrancar em 2022 com a primeira grande exploração de lítio na Europa. Se tudo correr como planeado, no espaço de três anos a Mina do Barroso, no concelho de Boticas, poderá estar a produzir por ano 30 mil toneladas de lítio, o suficiente para fabricar meio milhão de carros elétricos.

O projeto tem sido alvo de reprovação e protestos por parte dos de ambientalistas, da autarquia e da população local — que criou a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso para tentar travar a mina –, mas a empresa cotada no segmento AIM da bolsa de valores de Londres (London Stock Exchange), que se dedica à prospeção e desenvolvimento de ativos mineiros, garante que toda a operação obedecerá a práticas de green e smart mining.

“O objetivo é tornar a Mina do Barroso “um projeto sustentável e inovador no setor mineiro português. Trata-se de usar ferramentas para mitigar os problemas sociais, ecológicos e técnicos aplicando conceitos holísticos e trabalhando em conjunto com as autoridades e populações locais”, garante David Archer, CEO da Savannah Resources, sublinhando que “os trabalhos de mineração atuais nada têm a ver com a forma como o setor mineiro trabalhava há 20 ou 30 anos”.

O que mudou então? O responsável da mineira britânica garante que “a exploração tornou-se cada vez mais exigente”, com a sustentabilidade ambiental a assumir um papel central na forma como é retirado o minério do solo. “Com a adoção de medidas de green e smart mining, a Savannah irá promover ativamente a eliminação ou mitigação de quaisquer impactes ambientais e sociais adversos em todas as etapas da operação, possibilitando também às comunidades a monitorização dos trabalhos em tempo real”, promete.

Desde 2017 a empresa já investiu 30 milhões de euros numa primeira fase de compra, avaliação e prospeção. Agora espera avançar, no final de 2021, com uma segunda fase que durará cerca de nove meses e incluirá a construção de uma fábrica dentro da própria mina para a produção de um pó concentrado (com um teor de 6% de óxido de lítio), na qual vão ser investidos mais 110 milhões de euros.

Antes disso, há ainda um longo caminho a percorrer: até o fim de novembro está a decorrer o processo de resposta às dúvidas levantadas pela Agência Portuguesa do Ambiente ao Estudo de Impacte Ambiental (EIA) apresentado pela Savannah a 30 de maio, após o qual o documento seguirá para consulta pública. Depois disso, caberá à APA emitir uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA).

“Estamos muito contentes com o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) entregue à APA e com a profundidade de análise conseguida. Acredito numa análise baseada em factos e que vamos conseguir pôr todos os factos na mesa para que haja um bom entendimento do que a mina significa e quais os seus impactos. Estes impactos podem ser analisados por um prisma ambiental, social, demográfico e económico. Temos de olhar para isto como um todo. Os impactos económicos vão ser muito bons para a região e para o país”, disse David Archer ao Capital Verde.

Na opinião do CEO, desenvolver um novo negócio nesta região de Portugal (Alto Tâmega, distrito de Vila Real) é consistente com a intenção do Governo de desenvolver a economia nas zonas mais remotas do país. “Com a população a colapsar nos meios rurais, a nossa mina poderá revigorar a economia e o equilíbrio demográfico”, defendeu David Archer.

O CEO reconhece que “ninguém quer uma mina ao pé de casa”:Há muita gente que não gosta de minas, é uma tendência na Europa e na Península Ibérica. Claro que mudará as coisas, mas achamos que podemos fazê-lo de forma a ser aceite pelas populações locais. Os benefícios e as oportunidades serão grandes para a comunidade local. Desenhámos o projeto de forma a eliminar impactos ou reduzi-los até serem insignificantes. Existirá uma mina e uma fábrica de produção de lítio, mas a população local não a vai ver porque vai estar escondida. Estamos a desenvolver um projeto de green e smart mining”.

O que implica então o green mining? A Savannah promete desenvolver novos negócios locais e criar empregos para a reabilitação futura dos terrenos. Além disso, vai criar um plano de benefícios partilhados: anualmente será atribuído dinheiro da mina a projetos comunitários. “Queremos dar de volta a quem nos rodeia, é obrigatório. Estamos muito conscientes disso. Queremos construir algo que devolva valor à comunidade e ao ambiente”, refere David Archer. O estudo sobre os impactos económicos do projeto da Mina do Barroso, realizado pela Universidade do Minho a pedido da empresa britânica recomenda precisamente a criação de um montante financeiro anual (em torno dos 500.000 euros anuais) para constituir um Fundo de Desenvolvimento Comunitário.

O projeto prevê a criação de 210 empregos diretos e cerca de três vezes mais empregos indiretos. Outra medida para a redução da pegada de carbono da Mina do Barroso passa por dar preferência à eletricidade a partir de fontes renováveis (hídrica e eólica) para dar energia à mina. “É uma atividade com consumo intensivo de energia, para extrair e moer 1,5 milhões de toneladas de rocha por ano”, disse David Archer. Na calha a empresa tem também a construção de uma nova central solar para abastecer a mina e dar energia elétrica à comunidade local, além de projetos de sequestro de carbono e reflorestação de áreas ardidas.

“Temos de desenvolver a exploração mineira de forma diferente, não pode ser como no passado. Quando se pensa em minhas como a da Panasqueira, as pessoas ficam com medo, mas esta mina é diferente. Não é a mesma forma de exploração”, garante o CEO, lembrando que “o Governo apoia o desenvolvimento da indústria mineira, desde que seja de forma responsável e sustentável”.

David Archer apela a que a mina de lítio seja vista num contexto mais alargado. “A Europa tem um verdadeiro desafio com as emissões, se quer ser neutra em carbono até 2050. Principalmente no que diz respeito aos transportes – cerca de 20% das emissões são dos transportes e têm vindo a aumentar, em vez de diminuir. O material que vamos produzir em Portugal, em última análise, vai para baterias elétricas que têm como missão evitar 100 milhões de toneladas de CO2″, rematou.

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