Covid-19, preço do petróleo e renováveis roubam metade do valor à Galp Energia

Prejuízos de 45 milhões de euros espoletaram a pressão vendedora das ações, mas a tendência não é de agora. Investidores mostram resistência à reconversão do negócio e à aposta em renováveis.

A Galp Energia já perdeu 5,35 mil milhões de euros em bolsa só este ano, ou seja, metade da capitalização. A tendência de queda acentuou-se esta semana após a apresentação de resultados da empresa, mas não é nova. A pressão que a Covid-19 gerou nos preços do petróleo a par dos esforços de investimento na transição energética estão entre os principais fatores para a desvalorização da petrolífera liderada por Carlos Gomes da Silva.

A petrolífera registou prejuízos de 45 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, o que compara com lucros de 403 milhões no mesmo período de 2019. Logo a seguir comunicou a venda de 75,01% da participação de 77,5% na Galp Gás Natural Distribuição por 368 milhões de euros. Dois dias depois chegava a acordo com a Petrobras para a alienação da participação numa plataforma flutuante em construção no Brasil por 85 milhões de euros.

As perspetivas de encaixe financeiro nos próximos meses não foram suficientes para animar os investidores. A reação foi imediata e prolongou-se ao longo das sessões, levando as ações a caírem 15,7% até aos 6,862 euros por ação em que fechou esta quarta-feira. É o valor mais baixo desde outubro de 2008.

A empresa liderada por Carlos Gomes da Silva não está sozinha. Pares como a BP, a Shell ou a Total também têm sido fortemente penalizadas na bolsa. As petrolíferas “estão a ser penalizadas pelo forte declínio dos preços do petróleo”, explica Paulo Rosa, senior trader do Banco Carregosa, apontando para desconto de que o valor do barril caia abaixo dos 30 dólares.

A queda dos preços comprime as margens face ao preço de extração, ainda que a portuguesa tenha alguma margem de manobra. “A Galp é uma das empresas petrolíferas com o breakeven mais baixo no nosso universo de cobertura e oferece longevidade sobre o perfil de produção até 2030″, aponta a RBC Capital Markets, numa nota a que o ECO teve acesso.

Ainda assim, a empresa não é imune às variações, especialmente numa altura em que é expectável que o crescimento da procura por combustíveis fósseis estagne nos próximos dez anos. A remoção do dividendo e a falta de clareza sobre a alocação de capital geraram alguma underperformance. Consideramos que o portefólio está significativamente subavaliado“, acrescenta.

A alocação de capital a que os analistas se referem alinha com algum “stress ambiental” que Rosa também vê. O ambiente tornou-se um ponto fulcral para o setor. As petrolíferas têm-se apressado a procurar estratégias para reforçar a presença nas renováveis, incluindo a Galp. Depois de, na viragem do século, o então CEO Manuel Ferreira de Oliveira ter feito uma experiência nas renováveis, mas ter posto a pasta na gaveta, foi o atual líder Gomes da Silva a retomar o tema.

Fatura pesada das renováveis

A Galp Energia comprometeu-se, em 2017, a alocar anualmente entre 10% e 15% do investimento em renováveis. No entanto, a chegada tardia obrigou a empresa a acelerar. Só este ano, já comprou dois projetos ligados a energia renovável. Em janeiro, anunciou a aquisição de uma empresa de energia solar em Espanha, a Zero-E, num investimento que vai ascender a 2,2 mil milhões de euros até 2023. Em julho, comprou também uma participação de 50% nos projetos de construção de duas centrais fotovoltaicas em Ourique, onde vai investir um total de 315 milhões.

“Tinha de ter sido feita uma diversificação antes, mas não foi feita. A Galp não perdeu o comboio das renováveis, acabou por apanhá-lo, mas definitivamente não esteve na dianteira. Está a tentar recuperar caminho e com vontade, mas os retornos são baixos”. É assim que uma das fontes contactadas pelo ECO sumariza o que se está a passar na Galp Energia.

Não é fácil neste momento comprar ativos renováveis e o retorno é baixo (de cerca de 8% a 10%). E devia ter reforçado a equipa com pessoas especialidades, o que não fez“, diz a mesma fonte da banca de investimento, sobre a empresa que tem a gestora Susana Quintana Plaza com o pelouro das renováveis. Acrescenta que as petrolíferas BP, Shell e Total “têm maior músculo financeiro para comprar grandes ativos financeiros”.

Se o caminho de mudança do negócio poderá ser visto como positivo para a sustentabilidade de longo prazo da empresa, a estratégia (de aquisições) os custos (com impacto na disponibilidade financeira e dividendos) e a incerteza face ao setor poderão pesar no sentimento dos investidores. Isto apesar de o petróleo continuar a ser o principal negócio da Galp Energia, com grande parte dos resultados a serem gerados no Brasil.

Queda exagerada? CEO aproveita

A pressão vendedora que tem tomado conta das ações da Galp Energia está a levar, contudo, a que os títulos estejam a transacionar em bolsa a um valor muito inferior àquele a que deveriam, considerando os indicadores fundamentais. Ou seja, há sinais de que queda pode ter ido longe demais, subavaliando o negócio.

A média do preço-alvo das ações da Galp Energia situa-se em 12,56 euros (com um potencial de valorização de 83%) contra 12,89 euros há um mês. Há, por isso, quem veja oportunidades. “É tempo para ser audaz”, afirmava a Société Generale, numa nota emitida esta quarta-feira, em que elevou a recomendação para “comprar” de “manter”.

Entre os 22 analistas que cobrem a Galp, 14 recomendam aos clientes “compra forte” ou “compra”, sete “manter” e apenas um “vender”. E se poucos investidores têm seguido estas recomendações, dentro da Galp Energia há quem o faça, procurando dar um sinal de confiança na empresa e no seu futuro. Carlos Gomes da Silva, o CEO, comprou 7.500 a 7,05 euros, cada, enquanto Filipe Silva, CFO da empresa, comprou 5.000 títulos a 7,02 euros, cada.

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