Biden a caminho da Casa Branca. Vão os EUA juntar-se finalmente à ação climática global?

Durante a campanha Biden apresentou o seu "Plano para a Mudança Climática e Justiça Ambiental", no valor de 1,5 mil milhões de euros, que tem como meta levar os EUA a serem neutros em carbono em 2050.

Confirmada a sua vitória nas eleições americanas, o democrata Joe Biden não tem tempo a perder e quer começar a trabalhar muito antes do dia da tomada de posse, a 20 de janeiro de 2021. De Donald Trump herda um país em crise profunda, o mais afetado no mundo pela pandemia de Covid-19, à beira de uma guerra civil, divido por lutas sociais e raciais, fortemente dependente dos combustíveis fósseis e já oficialmente fora do Acordo de Paris.

De uma longa lista, a luta contra as alterações climáticas é uma das muitas tarefas hercúleas que Biden tem pela frente nos próximos quatro anos. Olhando para trás, desde que chegou à Casa Branca Trump sempre defendeu fervorosamente a indústria petrolífera e os combustíveis fósseis e criticou abertamente os cientistas internacionais e as suas teses acerca do aquecimento global.

“Não acredito nisso”, escreveu trump no Twitter, a propósito das alterações climática e do aquecimento global, um “conceito” que acredita ter sido “criado por e para os chineses para retirar competitividade à indústria americana. Sobre o Acordo de Paris, Trump diz que tem “falhas graves”, além de “proteger os poluidores, prejudicar os americanos e custar uma fortuna”.

Durante a campanha Biden já mostrou que quer fazer diferente e apresentou o seu “Plano para a Mudança Climática e Justiça Ambiental”, no valor de quase 1,5 mil milhões de euros, que tem como principal meta seguir as pisadas de Bruxelas e levar os Estados Unidos a alcançarem a neutralidade carbónica até 2050. Mas para isso acontecer, os incentivos ao petróleo e ao gás do passado terão de ser substituídos por uma enorme ofensiva nas energias renováveis.

De acordo com a Bloomberg, a agenda de Biden para a transição energética e a energia mais limpa é a mais ambiciosas de sempre, por comparação com qualquer outro candidato presidencial americano e poderia contribuir para uma redução significativa das emissões a nível global. Há cinco anos, quando o presidente Barack Obama assinou o Acordo de Paris, os EUA comprometeram-se a reduzir as emissões de gases com efeito estufa em 26% a 28% face a 2005, até 2025. Até agora, o país já conseguiu uma redução de 15% das emissões, muito motivada pelas políticas dos governos estaduais e pelo setor privado, que assumiu medidas para reduzir voluntariamente suas próprias emissões.

Os Estados Unidos são o segundo maior emissor de gases com efeito estufa do mundo, a seguir à China. Se regressarem ao Acordo de Paris daqui na três meses, como Biden já prometeu, 63% das emissões poluentes do mundo estarão cobertas por promessas governamentais dos maiores poluidores mundiais para as reduzir, face aos atuais 51%, de acordo com o Climate Action Tracker, citado pela Bloomberg Green. Os EUA poderão estar de regresso à luta contra as alterações climáticas já a 19 de fevereiro de 2021, um mês depois de Joe Biden tomar posse como presidente.

“Com a eleição de Biden, China, Estados Unidos, União Europeia, Japão, Coreia do Sul — dois terços da economia mundial e mais de 50% das emissões globais de gases de efeito estufa — teriam [compromissos para levar a zero] as emissões de gases com efeito estufa até meados do século”, calcula Bill Hare, especialista do Climate Action Tracker, citado pela BBC. E acrescenta: “Este pode ser um ponto de viragem histórico.” Ou seja, pela primeira vez, existem de facto uma possibilidade de alcançar o limite de 1,5°C do Acordo de Paris, garante.

Fonte: Bloomberg

 

Antes de chegar à neutralidade carbónica, a meio do século, Biden ambiciona tornar a produção de energia americana livre de carbono até 2035. O presidente eleito quer reduzir as emissões modificando quatro milhões de edifícios para torná-los mais eficientes em termos de energia, investir nos transportes públicos e no fabrico de veículos elétricos e pontos de carregamento, e ainda dar incentivos financeiros aos americanos para trocarem os seus carros por versões menos poluentes.

Apesar de tudo, já foram feitos alguns avanços no país. Em setembro, democratas e republicanos trabalharam juntos num projeto de lei para reduzir o uso de gases para refrigeração, amplamente responsáveis pelo efeito estufa. Ao memso tempo, o Senado também aprovou um projeto de lei para a preservação da vida selvagem, que visa melhorar a preservação de espécies e proteger ecossistemas vitais.

“Apesar da pandemia do coronavírus, as mudanças no clima apareceram de forma mais proeminente durante esta campanha eleitoral do que em qualquer outra antes. De facto, é uma questão difícil de ignorar quando incêndios florestais sem precedentes rasgam a região oeste [dos Estados Unidos] e são tantas as tempestades tropicais na região leste”, escreveu o diretor da organização não-governamnetal do World Resources Institute, Dan Lashof.

Na sua visão, Biden vai ter trabalho acrescido para tentar “reparar os estragos feitos pela administração de Trump”, que tentou reverter mais de 125 leis ambientais e travou a capacidade de atuação da Agência de Proteção Ambiental. Além de sua própria plataforma climática, Biden contará com a ajuda do Comité de Crise Climática da Câmara dos Representantes e do Comité Especial do Senado para a Crise Climática

10 ações prioritárias de Biden para a ação climática nos EUA

Na sua análise, Dan Lashof defende que o novo presidente dos EUA se deve focar em 10 ações prioritárias

  1. Reduzir o total de emissões de gases de efeito estufa entre 45% e 50% até 2030, em relação aos níveis de 2005;
  2. Aprovar um generoso pacote de estímulo climático para a recuperação económica pós-Covid-19.
  3. Exigir que todos os novos veículos de passageiros vendidos a partir de 2035 sejam de emissão zero.
  4. Elevar os níveis de energias renováveis para 55% até 2025, 75% até 2030 e 100% até 2035.
  5. Combater os gases de refrigeração super poluentes, maiores responsáveis pelo efeito de estufa.
  6. Substituir os combustíveis fósseis por eletricidade no aquecimento das casas e edifícios.
  7. Estabelecer limites de emissões para as indústrias do cimento, aço e plásticos.
  8. Aumentar a capacidade de sequestro de dióxido de carbono da atmosfera.
  9. Colocar a ação climática no topo da política externa e apresentar às Nações Unidas um novo plano climático nacional antes da cimeira de Glasgow.
  10. Taxar a poluição e responsabilizar os grande emissores e poluidores.

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Biden a caminho da Casa Branca. Vão os EUA juntar-se finalmente à ação climática global?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião