OCDE diz que um terço dos portugueses pode trabalhar a partir de casa

Um estudo da OCDE calculou que em Portugal há cerca de um terço de postos de trabalho compatíveis com o teletrabalho. Atualmente é obrigatório nos concelhos com risco elevado ou superior.

Após o primeiro choque da pandemia em que o teletrabalho foi generalizado, este deixou de ser obrigatório em junho, tendo muitas empresas optado por organizar as equipas em espelho. Cinco meses depois, voltou a ser obrigatório para todas as profissões que o permitam nos concelhos que estejam nos níveis de risco “elevado”, “muito elevado” e “extremamente elevado”. Um estudo da OCDE publicado durante a primeira vaga estima que em Portugal cerca de um terço (33,9%) dos postos de trabalho são compatíveis com o trabalho remoto.

Em termos de regiões, como seria expectável por causa dos setores predominantes, Lisboa destaca-se por ter um potencial de teletrabalho de 42,3% dos postos de trabalho. O Norte (30,5%), apesar da forte componente industrial, o Centro (31,1%) e o Algarve (30,4%), apesar da forte componente de turismo, têm pelo menos 30% dos postos de trabalho compatíveis com teletrabalho. Nos Açores (30,2%) e na Madeira (32,3%), apesar da forte componente de turismo, o potencial também é de pelo menos 30%. A exceção é o Alentejo (29,3%), a região com menos potencial de trabalho remoto, abaixo de 30% dos empregos.

Contudo, apesar deste potencial, o Ministério do Trabalho identificou através de um inquérito que, em média, apenas 20% dos trabalhadores das empresas inquiridas é que estão a exercer funções em teletrabalho. Este resultado levou a um aviso para 400 mil empresas e a ações de fiscalização por parte da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT). Estas estatísticas não são diretamente comparáveis com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), que resultam de outro inquérito, mas estes podem dar contexto: INE estimava que houve 23% da população empregada em teletrabalho no segundo trimestre e 14,2% no terceiro trimestre.

O estudo de junho sobre a capacidade de teletrabalho foi realizado por economistas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE). Os autores argumentavam que o potencial de trabalho remoto iria levar a impactos diferenciados nos vários países e regiões por causa dos confinamentos totais ou parciais para combater a pandemia. Com 33,9%, Portugal está em linha com a média da OCDE, sendo que não há nenhum país onde metade (50%) dos empregos seja compatível com o teletrabalho.

Fonte: OCDE. O potencial de teletrabalho em Portugal, Espanha e França.

O país mais próximo dessa marca é o Luxemburgo, o país com maior potencial de teletrabalho. Segue-se o Reino Unido e a Suécia, sendo que tanto Londres como Estocolmo, as capitais, têm mais de 50% dos empregos compatíveis com o trabalho remoto. Contudo, além das diferenças entre países, há diferenças regionais significativas: há uma linha muito clara que separa as regiões rurais e industriais das grandes cidades em todos os países da OCDE. “O potencial de trabalho remoto varia muito entre e dentro dos países“, notavam os autores, referindo que a diferença pode ir até aos 15 pontos percentuais.

Do lado oposto está a Turquia (pouco mais de 20%), a Eslováquia, a Roménia e a vizinha Espanha. No caso dos espanhóis, o potencial de teletrabalho em Madrid é ligeiramente inferior ao de Lisboa e na maior parte do território situa-se entre 20 a 25%, um intervalo que fica abaixo do registado no Alentejo. Portugal também fica à frente dos Estados Unidos e de Itália, por exemplo, onde a média nacional fica pouco acima dos 30%.

Os autores do estudo sugerem que estas diferenças refletem o nível de educação da força de trabalho em cada região, assim como o tipo de atividades que habitualmente se situam nos diferentes locais. A conclusão é que as cidades, em particular as capitais dos países, têm tipicamente uma maior percentagem de compatibilidade com teletrabalho, o que poderá compensar alguns dos impactos negativos das medidas relativas à pandemia, apesar de potencialmente também serem mais afetadas pelo vírus por causa da maior densidade populacional. Já as regiões mais rurais tendem a ser mais impactadas ao nível económico.

Questionados pelo ECO, os autores dizem que há “vários fatores” a determinar estas diferenças entre cidades e locais mais rurais. Contudo, esse estudo em detalhe ainda não foi feito pelo que não é possível tirar conclusões mais detalhadas. O mesmo para o potencial impacto económico diferenciado, ainda que os autores admitam que os trabalhadores em teletrabalho foram menos afetados, em termos económicos, do que os trabalhadores que não o podem ou conseguem fazer.

O estudo ressalva ainda que estes números pressupõem de que há uma boa conexão à internet, que é necessária para o teletrabalho, em todas as regiões e países, o que pode não ser o caso. Assim, estes números podem estar sobrestimados face à realidade. Por outro lado, assumindo que certas regiões rurais terão níveis mais baixos de infraestruturas digitais, os autores concluem que a diferença face às cidades pode ser ainda superior à estimada neste estudo.

Para Portugal são conhecidos os dados do inquérito ao emprego feito pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) que mostravam que havia um milhão e 94 mil pessoas (cerca de 23% da população empregada) em teletrabalho no segundo trimestre, período em que este foi obrigatório. No terceiro trimestre, quando deixou de ser obrigatório, 412,5 mil trabalhadores voltaram para o escritório enquanto 681,9 mil trabalhadores (cerca de 14% da população empregada) mantiveram-se em casa. Alguns dos resultados deste inquérito confirmam as tendências identificadas pelo estudo da OCDE, nomeadamente o recurso maior ao teletrabalho por parte das grandes cidades — Lisboa é a que tem maior proporção de trabalhadores remotos — e por parte de trabalhadores mais qualificados.

Antes da pandemia, segundo os dados do Eurostat divulgados em abril deste ano, 6,5% dos trabalhadores portugueses exerciam as suas funções à distância, acima da média de 5,4% da União Europeia. Na Holanda e na Finlândia esse número mais do que duplica para os 14%. Já na Bulgária e na Roménia havia menos de 1% dos trabalhadores em trabalho remoto. Esta distinção não é linear, existindo exceções consoante a estrutura da economia de cada país, mas tendencialmente os países europeus mais desenvolvidos revelam um maior recurso ao teletrabalho do que os países menos desenvolvidos.

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