Como é que a pandemia transformou a casa ideal? E o escritório perfeito?

A pandemia mudou as necessidades das famílias e das empresas. O escritório acabou por ser levado para dentro de casa. Mas há mais mudanças.

A pandemia trouxe mudanças na forma de viver, mas também na forma de trabalhar. Confinadas em casa, as famílias procuraram habitações maiores, com mais espaço e mais longe dos centros urbanos, ao mesmo tempo que se adaptaram para criar o melhor escritório possível. O mesmo aconteceu e — acreditam os especialistas — vai continuar a acontecer com as empresas, que se reinventaram para oferecer aos colaboradores espaços mais dinâmicos e flexíveis, deixando de lado a normalidade do escritório comum, criando, assim, um novo normal.

“Com a pandemia, a casa tornou-se para muitos um misto de residência e escritório. Há necessidade de mais espaço”, começa por dizer ao ECO Miguel Poisson, CEO da imobiliária Sotheby’s International Realty Portugal. Uma das tendências que se observou neste ano de pandemia, impulsionada pelo teletrabalho e pela telescola, foi a transformação de quartos e divisões da casa em escritórios. “Há, claramente, uma necessidade de mais espaço para acomodar o teletrabalho e a telescola”, continua.

Outro ponto é uma consequência direta do confinamento, com o facto de as pessoas estarem “saturadas” de estar em casa. “A procura por espaços exteriores e piscinas tornou-se muito importante, assim como por jardins e casas inseridas em condomínios”, explica o responsável.

E isso acabou também por levar muitas famílias a procurarem casa fora dos grandes centros urbanos. “Há pessoas que têm uma casa arrendada no centro da cidade e acabam por arrendar outra mais fora da cidade, numa zona mais económica, ou até utilizar essa casa como segunda habitação com caráter mais permanente”, afirma Miguel Poisson, notando, contudo, que esta segunda tendência é mais observada no mercado de luxo, onde o poder de compra é maior.

Um ponto importante à volta da procura por casa em tempo de pandemia tem também a ver com o facto de algumas pessoas estarem a “antecipar” que se caminha para um “modelo mais híbrido”, em que “não há necessidade de permanência total em casa e no escritório”.

Mais millenials a comprar casa, mas com novos requisitos

Mas na Sotheby’s observou-se ainda uma outra tendência: a procura por habitações mais sustentáveis. Contudo, aqui, é uma questão “mais geracional”, explica o CEO da imobiliária. “Começámos a ter alguns clientes millenials, mas com um poder de compra muito elevado, não só por heranças, mas também por negócios de sucesso, como startups”, explica, referindo-se, novamente, a um segmento mais alto.

E o que se verificou foi que este tipo de clientes procura um produto diferente: “valorizam muito as questões de domótica e sustentabilidade –com a recente certificação BREEAM [Building Research Establishment Environmental Assessment Method], atribuída em função da circularidade, bem-estar e Pegada carbónica –, e tecnologias integradas na construção“.

Além disso, estes clientes dão particular importância à “energia, saúde e bem-estar e inovação dos materiais utilizados na própria construção”, assim como têm um “especial cuidado com a poluição e gestão de resíduos”. “No fundo, procuram-se casas com bioarquitetura. São casas que procuram a sustentabilidade, uma maior integração no meio onde estão e respeito pelo meio ambiente”, explica Miguel Poisson.

Um futuro onde “as pessoas terão o seu próprio cacifo e se sentam onde há lugar”

Para as empresas também houve — e continuará a haver — mudanças. Na Cushman&Wakefield, Eric Van Leuven recorda como “as empresas se adaptaram muito rapidamente e de forma muito mais eficiente do que tinham pensado ao teletrabalho”. Mas aquilo que muitos pensavam ser uma questão temporária, acabou por se tornar num cenário a longo prazo e que veio, certamente para ficar.

O “novo normal” deu-se por volta de maio/junho, lembra o CEO da consultora imobiliária, altura em que o país entrou em desconfinamento. “As empresas tiveram de adaptar os espaços para cumprir as exigências do distanciamento social e foi nessa altura o novo normal”, em que se começou a pensar em como seria dali para a frente, uma vez que “os colaboradores tinham provado do benefício de trabalhar a partir de casa”.

Imensos estudos depois, a conclusão é só uma: “o teletrabalho veio para ficar”, diz Eric Van Leuven, afirmando, contudo, que “a grande questão é qual é a proporção”. E aí as opiniões divergem. “São poucas as empresas que dizem que os colaboradores nunca mais precisam de voltar para o escritório”, nota o responsável da Cushman, que se diz convencido que o teletrabalho irá ocupar entre 20% a 30% da ocupação/tempo dos colaboradores. “Ou seja, em média, as pessoas irão trabalhar um ou um dia e meio a partir de outro sítio que não o escritório”.

Mas que efeitos tem essa tendência no espaço físico? “A ideia de cada colaborador ter a sua secretária, cadeira e bloco de gavetas já estava um pouco em desuso e agora ainda vai ficar mais”, diz Eric Van Leuven, que vê um futuro em que as “pessoas terão o seu próprio cacifo e se sentam onde há lugar”. “Haverá menos postos de trabalho, mas isso será compensado, de alguma forma, pelo facto de a distância entre postos de trabalho ser maior”, explica.

Escritórios da Maleo, Parque das Nações, comercializados pela Cushman& Wakefield.

Além disso, haverá necessidade de mais espaços comuns, como zonas de convívio, mas também espaços para formações e auditórios. “Isso tem muito mais importância agora, a função do escritório como um sítio para onde as pessoas vão aprender, inspirar-se, conviver e trocar ideias, e muito menos de um sítio para cumprir horários“, diz.

Eric Van Leuven indica que, em cidades maiores do que Lisboa, o que se começa a notar são empresas que optam por ter uma pequena sede no centro da cidade e escritórios mais pequenos em zonas à volta. A ideia é poupar os trabalhadores de fazerem grandes deslocações. Contudo, o CEO da Cushman admite que isso não faça muito sentido em Portugal, dada o tamanho do país.

Ainda assim, o responsável acredita que “as empresas podem facilitar, na medida em que uma pessoa que vive em Cascais, em vez e vir para o centro da cidade, pode trabalhar a partir de um coworking em Carnaxide, onde a empresa tem uma assinatura”. Mas volta a sublinhar que em termos de distância, isso poderá não fazer muito sentido em Portugal.

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