Como planeiam as empresas voltar aos escritórios? Assim que possível, adiando o regresso ou tornando-o opcionalpremium

Cada empresa prepara o seu plano de regresso ao escritório. Há quem deixe a decisão de voltar para os próprios colaboradores, mas há também quem esteja "ansioso" por voltar a reunir equipas.

Um ano depois e... poucos sinais deles. Os escritórios tornaram-se lugares vazios e, como a Pessoas escreveu na última edição, o trabalho transformou-se neste lugar estranho. Numa altura em que a maioria das empresas tem escritórios fechados e colaboradores em teletrabalho, as organizações começam a planear - ou ainda não - uma espécie de "regresso". Se, por um lado, há quem esteja apenas à espera "luz verde" do Governo, por outro lado, há também quem pretenda adiar a volta mesmo que esta já seja permito.

As empresas do setor tecnológico são as que mais prolongam o trabalho remoto, com algumas a adotar mesmo uma política de remote first, que permite aos colaboradores escolherem quando (e se) querem ir aos escritórios ou, se preferem, trabalhar a partir de casa. Nestes casos, liberdade é a palavra de ordem.

Já os setores hoteleiro, de retalho e cosmética, embora admitam que manterão uma política de work from home, estão a aguardar a "luz verde" do Governo para avançar com o plano de regresso dos colaboradores aos escritórios e ao terreno. Para a hotelaria, que tem sido um dos setores mais afetados pela crise pandémica, retomar a atividade o mais rápido possível é, agora, o mais importante.

Reabrir escritórios assim que possível, mas só vai quem quer

A New Work Portugal está à espera da "luz verde" do Governo para reabrir o seu escritório em Matosinhos. No entanto, a reabertura não é sinónimo do regresso dos colaboradores, pois a decisão de voltar ou não ao escritório transcende o grupo que engloba a rede social profissional alemã Xing.

"Estamos muito conscientes das diferentes circunstâncias e perspetivas das nossas pessoas. Se, por um lado, temos colegas muito preocupados e até, de alguma forma, relacionados com grupos de risco e, portanto, não querem correr riscos, por outro lado, temos colegas que, dada a sua situação familiar, a sua habitação ou até a necessidade de saúde mental, estão desejosos de voltar ao escritório", começa por dizer Miguel Garcia, general manager da New Work Portugal, à Pessoas.

Mezzanines da New Work Portugal, em Matosinhos, antes da pandemia da Covid-19.Bruno Barbosa/ECO

São, precisamente, as diversas circunstâncias que fazem com que o grupo opte por uma decisão de maior "liberdade e conforto", em grande parte possível pela facilidade com que se adaptou à situação de trabalho remoto proporcionada pela pandemia da Covid-19. "Não vemos necessidade de forçar ninguém a nada. Queremos respeitar a vontade e dar tempo para que também se possam adaptar e decidir quando faz sentido para elas regressar e em que moldes", afirma.

Esta decisão não é, contudo, completamente nova para a New Work Portugal, uma vez que, ainda antes da pandemia, começou uma iniciativa chamada Mobile50, que tinha como objetivo oferecer aos colaboradores a possibilidade de trabalharem fora do escritório até 50% do tempo.

Também a americana PandaDoc, que se prepara para abrir escritórios em Portugal, vai permitir, assim que o Governo decrete, a ida ao espaço de trabalho localizado na capital. No entanto, a política continua a ser remote first. Por agora, todos os colaboradores em território nacional, incluindo os recém-recrutados, estão a trabalhar remotamente.

(...) o trabalho remoto é a nossa política-padrão. Vamos manter escritórios em Lisboa para ser o nosso núcleo e uma opção para os colaboradores trabalharem em pessoa quando for necessário e considerado seguro.

Robin Corralez

Global VP de recursos humanos da PandaDoc

"A PandaDoc é uma empresa remote first, o que significa que o trabalho remoto é a nossa política-padrão. Vamos manter escritórios em Lisboa para ser o nosso núcleo e uma opção para os colaboradores trabalharem em pessoa quando for necessário e considerado seguro", explica a global VP de recursos humanos da empresa de software na automatização de documentos, Robin Corralez.

Adiar regresso por mais algum tempo

Mesmo que o Governo dê "luz verde" para a reabertura dos escritórios, há empresas que preferem adiar o regresso por mais alguns meses. É o caso da Uber, que irá alargar o teletrabalho até setembro de 2021. À Pessoas, fonte da tecnológica conta que seguirá as recomendações dos recursos humanos, a par das políticas locais de todos os países onde opera.

Após a pandemia, a Uber adotará, provavelmente, um modelo híbrido, disse Nikki Krishnamurthy, chief people officer da Uber, à TechCrunch (acesso livre, conteúdo em inglês). Contudo, a transição para um modelo de trabalho mais flexível ainda é um trabalho em curso, salienta. Recorde-se que, em agosto do ano passado, a Uber avisou os seus trabalhadores de que deveriam continuar em teletrabalho até junho de 2021. Nesse momento, outras empresas, nomeadamente do setor tecnológico, decidiam também adiar o regresso aos escritórios: tanto o Facebook como a Google estenderam o trabalho a partir de casa até, pelo menos, julho de 2021.

Quem também decidiu esperar mais algum tempo até voltar às suas instalações foi a EDP, que se encontra numa situação de teletrabalho generalizado, sempre que a função o permita, "até, pelo menos, final de março", afirma Paula Carneiro, diretora da people experience unit da empresa. Nessa altura, a elétrica voltará a avaliar a situação e tomará uma nova decisão, sempre com a prioridade de salvaguardar a segurança de todos colaboradores, salienta.

Sede da EDP, na Avenida 24 de julho, em Lisboa.Paula Nunes/ECO

"A empresa e as pessoas têm conseguido atingir os objetivos, independentemente do contexto generalizado de teletrabalho", afirma Paula Carneiro, acrescentando que, para já, o grupo EDP está focado em dar todas as condições aos colaboradores em teletrabalho e aos que estão no terreno, para que estes possam continuar a ser produtivos.

Na plataforma de anúncios OLX todas as hipóteses estão em cima da mesa. Por agora, a política de teletrabalho será mantida. Mesmo nos países onde não existe um confinamento total, a empresa optou por colocar todos os colaboradores a trabalhar a partir de casa, diz avança Sebastiaan Lemmens, diretor geral do OLX Portugal, acrescentando que, em Portugal, consoante a evolução do cenário atual e as decisões tomadas pelo Governo, novas medidas serão implementadas.

À espera da "luz verde" do Governo para voltar, mas modelos híbridos mantêm-se

Nos setores do retalho ou beleza, o regresso aos escritórios planeia-se de forma um pouco distinta. Espera-se a permissão para voltar ainda que, de forma faseada e progressiva, ou com as equipas em espelho. No El Corte Inglés Portugal, a reabertura dos espaços de trabalho será feita assim que "o Governo entender que há condições para tal". No entanto, a cadeia espanhola de lojas admite, também, que, quando tal aconteça, será mantido um sistema híbrido, em que as equipas vão ao escritório de forma alternada para reduzir o número de colaboradores em simultâneo nas instalações.

Também a L'Oréal pretende manter uma certa política de work from home após o regresso. "Os nossos colaboradores poderão trabalhar duas vezes por semana a partir de casa. Acreditamos que esta medida vem de encontro ao novo normal que os colaboradores ambicionam por forma a equilibrar melhor a vida profissional e pessoal, mantendo ao mesmo tempo viva a nossa cultura", começa por dizer Clara Trindade, diretora de recursos humanos da L'Oréal. Por outro lado, a líder de pessoas garante que as equipas da multinacional de cosméticos estão todas "ansiosas para retornar ao escritório, para perto dos colegas".

Tal como no ECI, na multinacional francesa, voltar aos escritórios deverá acontecer assim que as recomendações do Governo sejam nesse sentido. "Estaremos sempre alinhados com as medidas do Governo, tendo como prioridade a saúde e bem-estar dos nossos colaboradores", afirma, acrescentando que a empresa aguarda a decisão do Governo, não somente no que diz respeito ao teletrabalho obrigatório, mas também à abertura dos cabeleireiros e lojas, para que as equipas de terreno possam voltar a estar perto e a dar apoio aos parceiros.

Os nossos colaboradores poderão trabalhar duas vezes por semana a partir de casa. Acreditamos que esta medida vem de encontro ao novo normal que os colaboradores ambicionam por forma a equilibrar melhor a vida profissional e pessoal, mantendo ao mesmo tempo viva a nossa cultura.

Clara Trindade

Diretora de recursos humanos da L'Oréal

A aguardar ansiosamente para voltar a colocar equipas no terreno está, também, o setor da hotelaria, que tem sido um dos mais penalizados pela Covid-19. "O setor do turismo tem sido particularmente afetado pela crise pandémica e a hotelaria vive indicadores contrastantes e drasticamente afastados dos registados até fevereiro de 2020. A tão desejada retoma progressiva da atividade parece cada vez mais um processo lento e duradoiro", começa por afirma Vítor Silva, diretor de recursos humanos do InterContinental Lisbon.

Neste momento, para Vítor Silva, o mais importante é conhecer, respeitar e promover as boas práticas para que, o mais depressa possível, "os aviões estejam no ar, os clientes a entrar e o hotel cheio daqueles que lhe dão vida, os colaboradores", diz.

Para o InterContinental Lisbon, a pandemia serviu para experimentar modelos e regimes de trabalho que lhe eram totalmente novos. "Nos nossos hotéis, o regime de teletrabalho não era uma prática. Flexibilização, investimento em engagement, saúde mental e tecnologia passaram a ser prioridades, e a gestão remota dos colaboradores passou a ser uma das tendências que está para ficar", afirma o líder de recursos humanos, admitindo que, "se tudo funcionar assim, pode continuar (ainda que seja novo no hotel), sem que a fixação de timings para o regresso aos escritórios seja uma prioridade". "O que interessa é voltar à atividade", acrescenta.

Regressar? Sim, progressivamente

Apesar de algumas diferenças nos planos de regresso aos escritórios, uma coisa é certa: as empresas que estão apenas à espera de novas medidas anunciadas pelo Governo, no sentido de permitir a reabertura dos espaços de trabalho, querem um regresso gradual. Para reduzir o número de colaboradores no escritório ao mesmo tempo, muitas optam por colocar as equipas em espelho.

"Vamos agendar o regresso aos escritórios apenas quando o confinamento doméstico deixar de ser obrigatório. Quando passar a ser esse o cenário, iremos regressar ao trabalho presencial no nosso escritório em condições semelhantes às que tínhamos antes do atual confinamento, com divisão de equipas num sistema de espelho, que implica a utilização alternada dos espaços por diferentes grupos de pessoas que não se cruzam entre si", refere Miguel Kreiseler, managing director da MVGM em Portugal.

Na Sodexo, o plano de regresso ao escritório tem vindo a ser discutido há alguns meses. No entanto, a evolução da situação pandémica dificulta a tomada de decisões, nomeadamente no que toca a fixar datas para voltar aos espaços de trabalho. "Tendo em consideração a evolução da atual conjuntura, ainda não existe uma data definida. Mas será certamente um regresso implementado por fases distintas, de forma a mitigar quaisquer riscos de contágio", conta o CEO da empresa em Portugal, Nelson Lopes, à Pessoas.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos