Portugal enfrenta sérios riscos de escassez de água até 2040, revela estudo da Gulbenkian

Até 2040 pode faltar água em Portugal para as atividades mais básicas, concluiu o estudo “O uso da água em Portugal: olhar, compreender e atuar com os protagonistas-chave", da Fundação Gubenkian.

Portugal enfrenta um risco de escassez de água já nos próximos 20 anos: “É urgente antecipar o risco de ter de gerir pouca água face às necessidades do país”, alerta Filipa Saldanha, sub-diretora do Programa Desenvolvimento Sustentável da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ou seja, num horizonte até 2040, pode mesmo faltar água em Portugal para as atividades mais básicas, concluiu o estudo “O uso da água em Portugal: olhar, compreender e atuar com os protagonistas-chave”, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, desenvolvido pelo C-Lab – The Consumer Intelligence Lab entre 2019 e 2020, e agora apresentado a propósito do Dia Mundial da Água, que se celebra esta segunda-feira, 22 de março.

“Ameaças à disponibilidade de água colocam em risco a nossa saúde e a nossa capacidade de produção de bens e serviços essenciais, incluindo alimentos. Num cenário de escassez de água, uma das áreas que ficaria desde logo comprometida seria a produção agrícola nacional e o grau de autossuficiência alimentar de Portugal. Isto teria implicações ao nível da criação de riqueza e geração de emprego na economia portuguesa”, explicou em declarações ao Capital Verde Filipa Saldanha.

A responsável sublinha ainda que “a falta de água pode afetar, também, o consumo quotidiano das comunidades locais”. Em última análise, e no pior dos cenários, as torneiras podem mesmo chegar a secar.

“Cada região do país é alimentada por bacias hidrográficas onde a agricultura, a indústria e o consumo urbano competem pelas mesmas reservas de água. Pela escala, os ganhos de eficiência na rega têm um impacto mais significativo na disponibilidade hídrica, mas, na verdade, a importância de usar de forma eficiente e responsável a água é um desígnio para todos”, frisou Filipa Saldanha.

Agricultura absorve 75% do uso de água em Portugal

Precisamente para prevenir este cenário futuro de escassez de água, e tendo em conta as conclusões do estudo, a Fundação Calouste Gulbenkian quer agora promover uma utilização mais eficiente deste recurso junto de toda a cadeia de valor do setor agroalimentar: desde o campo de cultivo à mesa do consumidor.

Importa começar pelos números: em Portugal, o setor agrícola é responsável por 75% do total de água utilizada, um número que contrasta com a média da União Europeia (24%) e chega a ser superior à média mundial (69%), estando no entanto alinhado com o de países mediterrânicos como a Espanha e a Grécia. Tal é explicado pela existência de regadio, em que a rega de culturas compensa o calor e a falta de chuva que caracterizam as estações quentes do ano.

Tendo em conta este cenário, o estudo agora apresentado pela Fundação Calouste Gulbenkian concluiu que a grande maioria dos agricultores ainda não mede a água que gasta (71% não tem sequer contador), sendo a água maioritariamente retirada de furos, charcas, poços e outras estruturas privadas. O seu custo é por isso baixo e tem fraca expressão no total de despesas da atividade agrícola, conclui a análise do C-Lab.

Além disso, 85% dos agricultores afirmam não ter de cumprir nenhuma exigência de poupança ou eficiência em relação à água que gastam junto dos seus clientes e apenas 3% já incluem cenários de longo prazo e de sustentabilidade no planeamento da sua atividade.

Os investigadores foram ao terreno e verificaram que a transição já está a ser feito mas tem de continuar a ser incentivada: se a maioria (65%) dos agricultores já utiliza sistemas de rega localizada (gota-a-gota), a adoção de tecnologias mais avançadas para controlo de rega e gestão da água ainda só foi adotada por uma minoria (30% utiliza sondas de apoio à rega, 23% utiliza estações meteorológicas, 37% utiliza programas de controlo de rega). Ou seja, recomenda o estudo, a transição para uma agricultura mais sustentável do ponto de vista hídrico exige a adoção de novas tecnologias de rega e gestão de água.

Diz-me quanta água usas para regar

Sublinha o estudo que é urgente generalizar a medição do uso da água na agricultura e adotar soluções tecnológicas para fazer a transição para uma rega mais precisa e eficiente.

“A inovação tecnológica na agricultura, a chamada AgriTech, tem ganhos significativos no uso mais eficiente da água. Contudo, a integração tecnológica no setor agrícola ainda é embrionária. A transição para esta nova forma de fazer agricultura exige apoio e demonstração num contexto de proximidade. Não existe um formato único que sirva todos os perfis de agricultores mas esta investigação permitiu estruturar e caracterizar os perfis de agricultores e a compreender o que motiva cada perfil. Ajustar a capacitação à escala, à cultura e ao contexto desses agricultores é fundamental para acelerar a mudança”, argumenta Filipa Saldanha.

Entretanto, 81% dos agricultores que já adotaram as novas tecnologias não têm dúvidas de que poupam água, o que abrange também a energia utilizada ou os fertilizantes. “A transformação do setor tem de chegar a todos, com o apoio de organizações de produtores, consultores especializados ou empresas do setor agroalimentar”, sublinha o estudo.

“Foi um estudo de proximidade, com muitas visitas ao terreno, entrevistas e inquéritos, que permitiu compreender que existem diferentes perfis de agricultores, as motivações de cada um e a proximidade a agentes (organizações de produtores, consultores técnicos e outros) que desempenham um papel fundamental na sua sensibilização e motivação”, revela a mesma responsável.

A investigação concluiu também que, em média, 53% dos agricultores portugueses (esta percentagem sobre para 64% no Alentejo e 71% no Algarve) sentem que há menos água disponível e identificam a falta de água como uma das principais preocupações num futuro próximo. “São eles os principais interessados em encontrar soluções. É um caminho exigente, que implica uma disponibilidade conjunta da cadeia de valor e da sociedade”, diz.

Do campo à mesa do consumidor, todos têm de poupar água

Para a sub-diretora do Programa Desenvolvimento Sustentável da Fundação Calouste Gulbenkian, “este estudo é o ponto de partida para um debate sobre o tema da água que, não obstante constituir um risco mais próximo do setor agrícola, afeta e diz respeito a todos nós”.

As conclusões estão agora a servir de base de conhecimento para desenhar a atuação da Fundação em prol da eficiência hídrica e de uma nova cultura da água no setor agroalimentar em Portugal, que abrangerá toda a cadeia de valor: agricultores, setor agrícola, indústria alimentar, grande distribuição e consumidor, que faz a escolha final.

Daqui para a frente, a continuação do trabalho também será feita em grande proximidade com o setor. No desenho de um plano de ação, as conclusões do estudo foram debatidas com 30 stakeholders, entidades da cadeia de valor agroalimentar, que ajudaram a identificar as áreas com necessidades mais prementes e as iniciativas a desenvolver.

Além disso, o estudo identifica agentes com capacidade de mobilizar a mudança no setor agrícola, como agricultores ‘mentores’ de referência, consultores técnicos e organizações de produtores. Por último, a sensibilização para uma cultura de consciência e respeito no uso da água tem de chegar ao cidadão comum.

“No estudo o “ser local” é o segundo fator de valorização mais referido na decisão de compra de frutas e legumes (o 1º é o preço). Se se aprecia o produto local, reconhecendo-lhe qualidade, importa ajudar a distinguir o que é “apenas” local e o que é, mais do que isto, local e sustentável. Para isso é preciso informar e contar as histórias dos agricultores portugueses que procuram produzir um produto de qualidade respeitando os recursos naturais e regando-os apenas na quantidade estritamente necessária”, diz Filipa Saldanha.

No Dia Mundial da Água, esta segunda-feira, a Fundação Calouste Gulbenkian vai divulgar um, pequeno vídeo com imagens e depoimentos recolhidos durante a investigação, por forma a comunicar o tema a um público mais alargado. E lançar uma edição do projeto Hack for Good @Home sobre o valor da água no setor agrícola, uma maratona online de desenvolvimento de soluções tecnológicas para problemas sociais e ambientais, que contribuirá para incentivar o uso da tecnologia para endereçar desafios identificados na investigação “O Uso da Água em Portugal”.

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