Dos recordes às quedas. O que se passa com as criptomoedas?

O valor das criptomoedas esteve perto de baixar da fasquia do bilião de dólares, caindo 20% em apenas dois dias. Algumas moedas afundaram 50% numa semana. Rebentou a bolha?

O que muito sobe, também muito desce — sendo uma velha máxima, continua bem atual. E encaixa que nem uma luva no mercado das criptomoedas. Se muitos novos investidores foram surpreendidos pelas quedas expressivas da última semana, os mais experientes ter-se-ão lembrado de janeiro de 2018, quando ocorreu a primeira grande derrocada no valor da bitcoin.

Há três anos, o gatilho que precipitou a queda da moeda virtual, depois do pico alcançado em dezembro de 2017, foi pouco claro. Porém, atualmente, os fatores que influenciam as subidas e descidas das criptomoedas são um pouco mais evidentes: investir é agora uma experiência social e as discussões na internet ditam cada vez mais o rumo das bolsas. Se vir a bitcoin a subir ou a descer muito, é provável que encontre explicação numa breve pesquisa no Google.

Dito isto, o crescimento no número de pequenos investidores particulares tem gerado um novo tipo de fenómeno: o dos investidores-influencers. É o caso de Cathie Wood (Ark Invest) com as ações de tecnologia, de Chamath Palihapitiya com as SPAC (empresas cotadas em bolsa com o objetivo de adquirirem outras empresas, geralmente startups) ou de Elon Musk (Tesla) com as moedas virtuais. No Twitter, atiram farpas, comentam os investimentos. Querendo ou não, influenciam os mercados.

Foquemo-nos neste último. Musk é conhecido por ser um gestor controverso. Nos últimos anos, viu-se envolvido em várias polémicas, mas a genuinidade da atitude não lhe tem custado muito. É considerado o homem mais rico do mundo. E, por ser uma figura de culto, as suas mensagens no Twitter movem os mercados (e não só).

No ano passado, as ações da Tesla multiplicaram o seu valor por cinco. Este ano, as atenções de Musk voltaram-se primeiro para a bitcoin. Em fevereiro, a Tesla anunciou um investimento de 1,5 mil milhões de dólares na criptomoeda, o que deu grande alento aos fãs das moedas virtuais. Na imprensa, a decisão foi interpretada como a muito aguardada chegada dos investidores institucionais ao universo da bitcoin. Pouco depois, a fabricante de carros elétricos passou a aceitar pagamentos em bitcoin pelos seus produtos, incluindo automóveis.

As decisões da Tesla, presumivelmente tomadas com a influência direta de Musk, puxaram pela generalidade dos ativos virtuais. O mercado passou a valer mais de dois biliões como um todo. A subida teve ainda um efeito de “bola de neve”, atraindo novos investidores para a “mina de ouro”. As perspetivas de ganhos rápidos alimentaram ainda mais a subida, naquilo que, nos mercados financeiros, é conhecido por uma bolha.

O problema é que Musk terá perdido o interesse na bitcoin. Ao longo das últimas semanas, Musk passou a focar-se numa criptomoeda alternativa que derivou de uma piada na internet, chamada Dogecoin. A 10 de maio, a SpaceX, outra empresa de Musk, aceitou um pagamento em Dogecoin para pôr um satélite na lua.

Em meados deste mês, surgiu a bomba: Musk admitiu no Twitter que a bitcoin tem uma pegada carbónica demasiado elevada, algo já conhecido há muito e que tem a ver com os milhares de milhões de computadores que se mantêm ligados na potência máxima e que estão na base do funcionamento da rede. Face a isto, a Tesla, que tem cultivado uma imagem de “empresa verde”, decidiu recuar e deixar de aceitar bitcoin como meio de pagamento. Naturalmente, o valor da moeda afundou.

Fica assim explicado o principal fator na base da queda do valor das criptomoedas, que está a desamparar os muitos investidores que compraram criptomoedas mais recentemente, e que, por isto, terão pela frente uma de duas alternativas: aguardar por uma nova subida, que pode nunca acontecer, ou vender o investimento e realizar menos-valias avultadas.

China aperta cerco, suspeitas minam a confiança

Mas o recuo da Tesla não terá sido o único fator a prejudicar as criptomoedas. A China está a desenvolver uma moeda virtual suportada pelo banco central. A primeira das chamadas govcoins já está a ser testada no terreno e permitirá ao regime comunista um maior controlo sobre a vida dos cidadãos.

Esse facto até podia jogar a favor da bitcoin, significando a rendição do mundo mainstream à nova realidade visionada no final da década de 2000 por Satoshi Nakamoto (cuja identidade real é desconhecida). Porém, na semana passada, o presidente chinês Xi Jinping apertou o cerco às criptomoedas: as instituições financeiras foram proibidas de transacionar criptomoedas ou de oferecerem serviços baseados em criptoativos. Sendo o principal mercado destes ativos de risco, o valor das criptomoedas ressentiu-se.

A escalada de problemas para as criptomoedas não fica por aqui. As quedas aconteceram em simultâneo com dois grandes ataques de ransomware, um que parou um dos grandes oleodutos dos EUA, outro que gerou severos constrangimentos no sistema de saúde da Irlanda. Em ambos os casos, os burlões exigiram pagamentos em bitcoin pelo resgate dos dados que foram roubados, contribuindo para uma desconfiança generalizada que ainda tende a associar criptomoedas a burlas, e com motivos para tal.

Coincidiu ainda com a abertura de uma investigação à Binance, uma das grandes corretoras de criptomoedas; com a entrada em bolsa da Coinbase, a maior corretora de todas; e com o anúncio da criptomoeda Tether, uma stablecoin com valor indexado ao dólar e usada para facilitar transações de bitcoin, de que apenas 2,9% das moedas em circulação, avaliadas em 58 mil milhões de dólares, têm o seu valor garantido por reservas de dólares reais.

Antes disso, no início do ano, o regulador dos mercados de capitais nos EUA, a Securities and Exchange Commission, considerou que a Ripple, uma criptomoeda centralizada, foi, na verdade, uma oferta pública inicial (IPO) não autorizada. A Coinbase deixou mesmo de a suportar na sua plataforma de negociação.

Fim de semana elimina 333 mil milhões de valor

É neste contexto que, no rescaldo de um fim de semana agitado para os criptoativos, o mercado global caiu mais 20%, uma perda de valor de quase 333,3 mil milhões de dólares em apenas dois dias. O recuo atirou o valor global destes criptoativos para mínimos de fevereiro, a rondar 1,26 biliões de dólares, segundo cálculos do ECO.

Sábado e domingo foram dias de particular volatilidade para a bitcoin. A 22 de maio, o preço de uma bitcoin recuou de 40,6 mil para 37,4 mil dólares. No domingo, dia 23, a cotação acabou por estabilizar, mas uma bitcoin chegou a trocar de mãos a 31,2 mil dólares. Em sete dias, o Ethereum, outra criptomoeda, desvalorizou 36% — significa que um investidor que tenha aplicado 1.000 euros no início da semana passada já tinha perdido 360 quando acordou esta segunda-feira de manhã.

Qual o futuro de tudo isto? A The Economist argumentou recentemente que, para saber o que vai acontecer às criptomoedas, é necessário ver o que vão fazer os bancos. A euforia despertou o interesse de grandes financeiras como o Goldman Sachs e o Morgan Stanley, atraídos pelas perspetivas de receitas com comissões. Mas a queda do preço pode afugentar a massa crítica e espoletar um novo “inverno” no mercado das criptomoedas.

Se for verdade que serão os bancos a ditar o futuro das criptomoedas, esta segunda-feira voltou a ser dia de más notícias: à Reuters, o presidente executivo do HSBC, Noel Quinn, disse que o banco não está interessado na bitcoin: “Não é para nós”, atirou.

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