“Sobrevivência do setor automóvel” exige apoio específico, diz presidente da ARAN

A Associação do Ramo Automóvel pede ao Governo um plano especifico para apoiar o setor que está a ser brutalmente afetado pela pandemia. "Está em causa a sobrevivência do setor”, alerta líder da ARAN.

O ano de 2020 marcou o mercado automóvel pela acentuada queda de vendas provocadas pela pandemia. As vendas de carros em Portugal recuaram 34%, uma das maiores quedas de mercado de sempre. O setor lamenta que os apoios sejam insuficientes e pede ao Governo um plano específico para apoiar o setor.

“O Governo sempre privilegiou apoios às empresas de uma forma transversal. Defendemos apoios específicos para o setor automóvel, até porque o setor tem uma importância fundamental para a economia nacional. Se o setor não estiver bem, a economia nacional também não estará bem”, alerta o presidente da Associação Nacional do Ramo Automóvel (ARAN), Rodrigo Ferreira da Silva.

Para o líder da associação está em causa “a sobrevivência do setor automóvel” que representa cerca de 20% das receitas fiscais do Estado, 19% do PIB português e que emprega cerca de 200 mil pessoas e alerta que “a retoma só será possível com a implementação de medidas de apoio por parte do Governo.

A Associação Nacional do Ramo Automóvel propôs ao Governo a redução do Imposto Sobre Veículos (ISV) e a criação de um registo profissional de revendedores automóveis para a recuperação do setor, impactado pela pandemia de Covid-19. O presidente da ARAN destaca que o setor automóvel “necessita de medidas mais fortes para impulsionar a retoma económica”.

A ARAN contesta o Orçamento de Estado que esquece o setor automóvel sem uma única medida de apoio específico para o setor. “O Orçamento de Estado não está a apoiar o setor automóvel. Em oposição está apenas a aumentar o fosso fiscal, acentuando as diferenças e favorecendo a economia de outros países em detrimento da nacional. Isso deixa-nos frustrados e as empresas muito preocupadas”, lamenta o presidente da ARAN.

Em entrevista ao ECO, Rodrigo Ferreira da Silva explica que o setor automóvel já tinha “muitas dificuldades antes da pandemia” devido à elevada carga fiscal. “Em Portugal, a atividade do setor automóvel é muito penalizada fiscalmente. Somos dos países que têm os automóveis mais baratos da Europa antes dos impostos, e dos mais caros depois dos impostos. Não faz sentido, até porque temos algumas fábricas em Portugal, como a PSA, Autoeuropa e Tramagal”, refere.

A pandemia veio evidenciar ainda mais as dificuldades do setor. O presidente da ARAN adianta que os “consumidores têm menos poder de compra e isso está a ter um impacto muito negativo”. 16 meses depois da pandemia ter chegado a Portugal, as vendas de carros estão a acelerar, mas estão aquém do pré-pandemia. O presidente da ARAN lembra que “grande parte dos veículos produzidos em Portugal são para exportação, o que significa que este aumento está relacionado com a recuperação de outros mercados e não do nacional”

Não são apenas as vendas que estão a ser afetadas, toda a indústria está a sofrer com os impactos da pandemia, incluindo as oficinas automóveis. Automóveis parados, pessoas em teletrabalho, viagens restritas, menos quilómetros percorridos. “Menos quilómetros percorridos são menos avarias, menos acidentes, menos manutenção”, explica o presidente da ARAN.

A escassez de chips está a afetar vários setores de atividade, incluindo o automóvel. Rodrigo Ferreira da Silva destaca os fornecedores de semicondutores orientaram a sua oferta para satisfazer a procura de produtos informáticos como os os tablets, computadores e telemóveis.

O presidente da ARAN alerta que com a digitalização de todos os equipamentos vai necessitar de mais chips, a juntar aos novos modelos automóveis que têm mais exigência de chips, mais eletrónica, e “isso faz com que aumente a procura, mesmo em condições normais de mercado”.

O futuro passa pelos carros elétricos?

Numa altura que os carros elétricos estão a ganhar terreno, o ECO questionou o presidente da ARAN para tentar perceber se o futuro será elétrico. Para Rodrigo Ferreira da Silva o futuro “nunca será apenas de uma tendência”.

Na ótica do líder da associação, os “elétricos não são a solução totalmente perfeita” e passar todos os automóveis para elétricos “não resolve os problemas climáticos do mundo”. Rodrigo Ferreira da Silva explica que níquel, lítio e o cobalto são importantíssimos, mas “são exportados em países do centro de áfrica e toda essa cadeia de valor tem que ser tida em conta quando analisámos se o veículo é mais verde ou menos verde. Temos que pensarmos na origem das matérias-primas, como são exploradas, qual a riqueza criada nesses países, se está a ser distribuída de uma forma justa”.

“Não podemos só falar dos automóveis. Há todo um universo, os navios, os cargueiros, os cruzeiros, todo esse ecossistema tem que ser visto. O holofote é posto, muitas vezes, em cima do automóvel e parece que, ao resolvermos as emissões de CO2 nos automóveis, estamos a resolver todos os problemas climáticos do mundo. Não é verdade”, destaca Rodrigo Ferreira da Silva.

A ARAN comemora 80 anos na sexta-feira e vai organizar uma conferência no Porto com o mote “Repensar o futuro do setor automóvel”, que reúne especialistas nacionais e internacionais nesta área.

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