Este pode finalmente ser o ano do 5G

Primeiro era 2020. Depois, 2021. Mas o coronavírus não vai embora e o leilão lá avançou. Agora que as operadoras já lançaram a rede em Portugal, 2022 pode, finalmente, ser o ano da quinta geração.

Quando arrancou 2020, dizia-se que seria o ano do 5G. Numa perspetiva global, a previsão não falhou por muito. O ano anterior tinha sido pródigo no lançamento de redes de quinta geração em vários países, principalmente Coreia do Sul e EUA. E, entre os europeus, a expectativa era alta: a Comissão Europeia queria que houvesse, pelo menos, uma cidade com 5G em cada Estado-membro até ao fim do ano.

Em março, chegou a pandemia. A saúde pública e a crise económico-social suplantaram a política de telecomunicações. Investimentos foram suspensos, trabalhadores foram para lay-off e o tema do 5G foi encostado a um canto. Portugal, que planeava vender as licenças às operadoras num leilão ao longo do ano, meteu o dossiê na gaveta. O tempo era de prudência, confinamento e distanciamento social.

Não é que o 5G não fosse necessário. Se tivesse chegado antes, poderia ter desempenhado um papel relevante nos momentos mais críticos da pandemia. Apesar de as redes fixas e móveis terem aguentado bem a avalanche de tráfego provocada pelo teletrabalho, ensino à distância e streaming de conteúdos, a Covid-19 acentuou as desigualdades entre ricos e pobres, litoral e interior. Nas regiões mais remotas do país, onde a pobreza é mais prevalente, famílias em confinamento ficaram isoladas do mundo lá fora, com os filhos sem acesso à sala de aulas virtual.

2021 não foi melhor: o combate à pandemia continuou a ser a prioridade. Mas a experiência acumulada no ano anterior aligeirou alguns dos problemas. A Anacom viu condições para dar início ao leilão das frequências nos primeiros meses do ano, na expectativa de fazer o 5G chegar aos portugueses ainda no primeiro trimestre. João Cadete de Matos, presidente, estava redondamente enganado.

A venda das frequências foi-se arrastando meses a fio. O porquê depende de a quem se pergunta. Para o regulador, foi responsabilidade da Meo e da Nos, que empataram o processo ao promoverem licitações de valores muito baixos. Para as operadoras, o problema esteve nas regras desajeitadas criadas pelo regulador.

O primeiro-ministro alinhou com as empresas do setor. No Parlamento, durante um debate, António Costa lançou um ataque sem precedentes à Anacom, por ter desenhado “o pior modelo de leilão possível” para o 5G. A crítica espoletou novos pedidos de demissão da administração do regulador, mas o Governo caiu primeiro, dias depois, com o chumbo do Orçamento do Estado para 2022.

Precisamente no mesmo dia da rejeição da proposta do Governo, 27 de outubro, acabava o leilão da Anacom, ao fim de 1.727 rondas, gerando um encaixe de quase 567 milhões de euros para o Estado. 143 milhões vão ser investidos na construção de estradas.

Os prazos apertados levaram alguns a vaticinar que o 5G só chegaria a Portugal já em 2022, como foi o caso deste seu correspondente, aqui, neste mesmo jornal. Em 26 de novembro, depois de um sprint burocrático, a Nos anunciou o lançamento da quinta geração em Portugal. O país escapava, assim, de ser o último da União Europeia a ter 5G, título que caberá à Lituânia. Não fica muito melhor na fotografia. De líderes no lançamento do 4G, os portugueses passaram a ser “carro-vassoura” na quinta geração, disse a dada altura o CEO da Altice Portugal, Alexandre Fonseca.

Em 30 de novembro, foi a vez de a Vodafone irradiar o 5G. A operadora decidiu manter a rede aberta a todos os clientes até 31 de janeiro deste novo ano, estratégia que foi imediatamente seguida pela concorrente Nos. Já a Meo, uma das operadoras mais vocais do setor, optou por ficar para trás por motivos que ainda estão por explicar. Para já, a empresa só pagou metade das licenças à Anacom, uma possibilidade oferecida pelo regulador, acabando por lançar o 5G no passado dia 1 de janeiro, à meia-noite.

Chegados ao novo ano, a Covid-19 continua a fazer estragos e a tirar vidas, com os novos casos diários a baterem recordes, por causa da variante Ómicron. Mas, no que às telecomunicações diz respeito, 2022 tem todas as condições para ser, finalmente, o verdadeiro ano do 5G em Portugal. As operadoras vão alargar e melhorar a cobertura, até porque existem metas obrigatórias a cumprir já a partir de 2023. Apesar do atraso do leilão, os prazos continuam a ser os mesmos, avisou o Governo.

Este ano, o setor também deverá levar um abanão, com a chegada ao mercado de duas novas operadoras móveis: a Nowo, que já operava em Portugal na rede fixa; e a Dixarobil, que chega ao país pelas mãos dos romenos da Digi Communications. Uma terceira operadora grossista, Dense Air, venderá rede a empresas interessadas. Segundo o presidente da Anacom, pelo menos a Nowo já pediu à Meo, Nos e Vodafone para negociar o acesso às suas redes via roaming nacional, uma das novidades previstas no leilão, fortemente criticada pelas principais operadoras.

Com o 5G a sair das páginas dos jornais e a avançar no terreno, mais portugueses e empresas experimentarão o potencial da tecnologia. Os early adopters contratarão tarifários mais caros a troco de internet mais veloz, mas que ainda tem muito que amadurecer. Outros comprarão o seu primeiro telemóvel 5G, ainda que não contratem já um serviço móvel de quinta geração. Continuarão as campanhas para renovar o parque de smartphones dos portugueses.

Em 2022, deverá ganhar força a discussão em torno do lançamento do 5G ultrarrápido, uma melhoria só possível graças a frequências muito elevadas na faixa dos 26 GHz. A Anacom já tem em curso uma consulta pública para aferir o interesse das operadoras. Havendo, poderão arrancar os preparativos para um novo leilão de espetro em 2023.

Mas o 5G é, sobretudo, um meio para atingir um fim. A tecnologia permitirá um maior número de dispositivos conectados, puxando o lustro à chamada internet das coisas (IoT). A velocidade muito elevada e as latências reduzidas gerarão novos casos de uso, da indústria aos videojogos. Se a realidade virtual conquistar novos adeptos e os preços dos equipamentos continuarem a baixar, poderemos assistir a avanços no desenvolvimento do chamado “metaverso”, uma espécie de universo paralelo online.

Em suma, 2022 tem potencial para ser o ano do 5G. Com as licenças nas mãos das operadoras, cabe agora às empresas e cidadãos o desenvolvimento do ecossistema.

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