Construção quebra “barreira” das qualificações na integração dos ucranianos

Construtoras garantem “ampla capacidade” para criar empregos para os refugiados provenientes da Ucrânia. Setor sofre com a escassez de trabalhadores há quase década e meia.

A indústria portuguesa da construção e obras públicas garante que está pronta a ajudar na “resposta à crise humanitária que está a chegar à Europa”, na sequência da guerra na Ucrânia, assegurando ao ECO que “no que diz respeito às empresas do setor, existe uma grande vontade de apoiar a integração dos ucranianos e, no plano laboral, acolher quem necessitar de apoio”.

“Existem, naturalmente, barreiras como a língua ou as qualificações, mas recordo que, por um lado, temos centros de formação, como o CICCOPN [no norte do país] ou o CENFIC [no sul] que podem prestar apoio a esse nível e, por outro, estamos a falar de uma atividade que é reconhecida precisamente pelo seu caráter inclusivo e pela capacidade de absorver e qualificar profissionais, independentemente da sua proveniência ou experiência prévia”, frisa Manuel Reis Campos.

Manuel Reis Campos, presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN)AICCOPN

A principal associação empresarial do setor (AICCOPN) estima que faltam perto de 80 mil trabalhadores para dar resposta às necessidades atuais, “o que significa que existe uma ampla capacidade para criar oportunidades para responder às necessidades de uma população que necessita de reconstruir, no imediato, toda uma vida que foi posta em causa com este conflito”.

Até esta quarta-feira, as empresas nacionais já tinham registado 4.900 vagas de emprego na plataforma criada para reunir as ofertas de trabalho disponíveis para os refugiados ucranianos que cheguem a Portugal. O Ministério do Trabalho descreve uma “enorme diversidade de profissões pretendidas”, sendo a maior parte das vagas nas áreas de tecnologias de informação, transportes (motoristas), restauração e hotelaria, setor social e construção civil.

Existe uma ampla capacidade para criar oportunidades para responder às necessidades da população ucraniana.

Manuel Reis Campos

Presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas

“Quanto às condições [remuneratórias], o que compete às empresas nacionais, como é evidente, é assegurar as mesmas condições que são, atualmente, oferecidas a qualquer pessoa que integre o setor”, acrescenta o presidente da AICCOPN, quando questionado sobre a atratividade do país para profissionais especializados em comparação com países como a Alemanha, Bélgica ou França, que sofrem igualmente com a escassez de trabalhadores e que conseguem pagar salários superiores.

Sindicato teme acidentes de trabalho

Já o presidente do Sindicato da Construção de Portugal, Albano Ribeiro, receia que os ucranianos sem experiência no setor sejam colocados a trabalhar nas obras em Portugal, alertando para os acidentes de trabalho.

Em declarações ao ECO, Albano Ribeiro avisa que os refugiados da Ucrânia que venham a chegar a Portugal precisam de ter formação intensiva para conseguir trabalhar em segurança neste setor. “Os ucranianos fogem à guerra para vir morrer aqui nas obras? Não se pode pôr pessoas sem experiência a trabalhar neste setor. Muitos podem acabar por morrer aqui”, dramatiza.

“Uma coisa é dar-lhes formação, integrá-los social, laboral e culturalmente. Outra coisa é o primeiro-ministro [António Costa] abrir a boca e dizer que há trabalho para todos. Não é assim. Este é um setor muito perigoso, o perigo espreita a cada segundo. Não tenho nada contra, antes pelo contrário. Há falta de mão-de-obra porque os salários são baixos e os portugueses vão trabalhar para outros países”, descreve o dirigente sindical.

Além de poder aumentar os acidentes de trabalho, Albano Ribeiro avisa que a contratação de mão-de-obra não qualificada afeta também a qualidade do produto final e “quem vai comprar, o cliente, vai ser penalizado porque a obra não foi bem construída”. Nas obras em Portugal, atualmente, as principais nacionalidades dos trabalhadores oriundos do estrangeiro são brasileira, indiana, angolana e moçambicana.

Em Portugal os patrões pagam o salário mínimo nacional. Os ucranianos [com experiência no setor] não vêm para aqui. Já aprenderam que neste país não se ganha como na Alemanha, França ou Bélgica.

Albano Ribeiro

Presidente do Sindicato da Construção de Portugal

É que, acrescenta, os refugiados ucranianos que antes da guerra começar já trabalhavam na construção civil vão antes “preferir ir para outros países”, sobretudo no centro da Europa. “Porque aqui os patrões pagam o salário mínimo nacional. Os ucranianos não vêm para aqui. Já aprenderam que neste país não se ganha como na Alemanha, França ou Bélgica”, detalha.

“Na década de 1980 e 1990, no tempo da Expo’98 e de outras grandes obras que aqui tivemos, como as barragens e as autoestradas, tivemos aqui milhares e milhares de trabalhadores ucranianos, que agora já não estão em Portugal. Entretanto foram todos trabalhar para os países ricos, como a Alemanha, Bélgica e França”, completa o presidente do Sindicato da Construção de Portugal.

Faltam trabalhadores e… salários mais altos

O setor da construção civil em Portugal sofre com a escassez de trabalhadores desde, sensivelmente, 2008. A Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) estima que haja cerca de 400 mil trabalhadores no setor, mas o problema é que faltam quase 80 mil para dar a resposta necessária.

Em fevereiro de 2021 foi feita uma revisão ao Contrato Coletivo de Trabalho (CCT) aplicável ao setor da construção civil e obras públicas, resultando num salário mínimo de 532 euros para o escalão mais baixo (praticantes, aprendizes e estagiários — apenas por um ano) e de 1.020 euros para o escalão mais alto. A esses valores, que entraram em vigor em setembro de 2021, junta-se o subsídio de refeição, que foi aumentado para seis euros.

O inquérito mais recente do Ministério do Trabalho, realizado em julho de 2020, indicava que o salário médio mensal dos trabalhadores da construção civil era de 1.010 euros, o equivalente a uma subida de 3,7%. Contudo, o Sindicato da Construção de Portugal estima que cerca de 40% recebia o salário mínimo.

Em entrevista ao ECO, no início deste ano, o presidente da AICCOPN, Manuel Reis Campos, já referia que as empresas do setor apontam a falta de mão-de-obra qualificada como o principal constrangimento e insistia que persiste “um grande desfasamento no mercado de trabalho entre a procura e a oferta de emprego, que resulta sobretudo de um desajustamento da formação profissional”.

E além da “reconversão dos desempregados dos setores mais afetados pela pandemia, reposicionando-os no mercado de trabalho”, o porta-voz do setor falava da captação dos jovens para esta fileira e dizia ainda ser “determinante promover a mobilidade transnacional da mão-de-obra, permitindo às empresas internacionalizadas uma gestão mais dinâmica e eficiente dos seus recursos humanos”.

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