Um Bacalhau de dez mil milhões no Brasil e o futuro da Galp
Com a entrada em exploração do mais recente projeto no Brasil, Galp dá um salto de produção petrolífera de 40% e uma receita de 400 milhões ao ano. A transição é para ir fazendo, mas "o mundo mudou".
Foi há uns longínquos 25 anos que foi atribuída a licença ao campo petrolífero agora designado como Bacalhau, no Brasil, a um conjunto de parceiros que inclui a Galp. Agora que o campo está a entrar em produção, o grande potencial das reservas detetadas acaba por marcar o que é o rumo dos negócios da empresa portuguesa, no curto e no médio prazo.
“Esta é uma atividade de longo, longo prazo. Vinte e cinco anos depois, estamos a chegar ao início da exploração, à fase crítica de produção”, explicou esta terça-feira Nuno Bastos, VP executivo da Galp para o upstream, ou seja, para a área de deteção e exploração de recursos energéticos. Num encontro com jornalistas, o responsável deixou uma pequena história deste longo processo e do investimento que lhe está associado. As contas rondam, desde esses primeiros momentos, os 10 mil milhões de euros. Dos quais dois mil milhões cabem à Galp, correspondente à sua parcela no consórcio, que explora o “maná” do pré-sal brasileiro, na Bacia de Santos.
Por cada furo, estamos a falar de um investimento que ronda os 100 milhões de euros, sendo sempre possível furar e não encontrar o que se procura, ou sem a qualidade necessária. O tão desejado petróleo está longe: são dois mil metros de água mais quatro quilómetros a seguir, debaixo do leito do mar. Porém, o retorno neste caso compensa. Segundo as informações já divulgadas pela Galp, a estimativa de produção é de 40 mil barris por dia (só a parte da Galp), um incremento de 30% face à produção média da empresa portuguesa. Em dinheiro? 400 milhões anuais de free cash flow, em velocidade cruzeiro de exploração.
Para efeitos de comparação, ilustra Nuno Bastos, a capacidade diária da instalação do Bacalhau, de 220 mil barris diários, “é equivalente à capacidade de Sines, alimentaria uma refinaria equivalente à de Sines”.
Segundo Nuno Bastos, esta operação “dá resiliência e dá futuro, e oportunidade de crescimento à Galp”, nomeadamente no investimento em novas oportunidades, seja na busca de licenças de exploração seja no desenvolvimento de oportunidades já consolidadas.
Namíbia para acelerar
Falando nessas oportunidades, outro tema quente e que se segue é a Namíbia, onde a Galp tem a maioria (80%) de um campo de 10 mil km2, equivalente a 11% do território de Portugal continental, e com sinais bastante promissores.
“Temos várias descobertas anunciadas na Namíbia, estamos em avaliação para chegarmos à fase de desenvolvimento”m afirma Nuno Bastos, mas para isso é preciso um parceiro, processo que tem tido altos e baixos mas que deverá, espera a Galp, estar decidido ainda este ano. “Buscamos um parceiro que seja uma ‘major’, que venha a operar o PEL 83, o bloco da Namíbia, que seja altamente reputado e forte na capacidade de execução”. Segundo o responsável, “o mais importante que tudo é sentir o apetite do parceiro para acelerar o desenvolvimento, tem que ser prioritário no portefólio deste parceiro“.
Ou seja, que esta empresa que venha juntar-se à Galp não veja aquele campo como mais um para ir trabalhando, mas sim que coloque a sua energia e os recursos em desenvolvê-lo de imediato. Seja como for, Nuno Bastos deixa claro que vai levar tempo até o petróleo jorrar de forma abundante. O objetivo é ter o PEL 83 em produção “no início da próxima década, nunca antes disso”. O mais provável é tal acontecer em 2031 ou 2032.
“As conversas têm acontecido, estão em curso e é por isso que estamos confiantes em ter o tema fechado antes do final do ano”, explicou o responsável. A ideia é o tal parceiro fique com 40% do consórcio, o mesmo que a Galp.
E a transição?
Com tanta exploração petrolífera, fica necessariamente a questão: onde fica a transição da Galp para energias limpas e o progressivo abandono dos combustíveis fósseis. A mensagem parece ser de que, na verdade, não será necessariamente assim e uma coisa não implica a outra. “Nos últimos anos, o mundo mudou”, afirmou o responsável.
Se as alterações climáticas não foram anuladas, antes pelo contrário, o que mudou no mundo para que a estratégia de transição pareça, agora, ser mais gradual e mais suave? Nuno Bastos lembra a guerra às portas da Europa e a emergência do custo energético cada vez mais como um fator de competitividade europeia na qual o continente tem de melhorar e muito, face aos Estados Unidos.
E o administrador reforça que “a geração de caixa do upstream é que permite investir mais no usptream, o pagamento de dividendos aos acionistas e descarbonizar o portefólio”. “Quando falamos do investimento em Sines, em HVO [combustível renovável), no hidrogénio verde, o retorno destes investimentos [em petróleo] vem para aqui”.
E acrescenta: “temos ambição de crescimento no usptream, é cada vez mais consensual que a transição vai demorar mais tempo do que se estava à espera. Todas as fontes energéticas vão ser críticas” para cobrir as necessidades atuais e futuras. “Já toda a gente percebeu que a sustentabilidade a todo o custo não é viável”, diz.
Ainda assim, Nuno Bastos salienta a muito maior eficiência da exploração petrolífera no Bacalhau, com 50% menos de emissões poluentes face à média da indústria, e também o processo de investimento em energias limpas e na “descarbonização das nossas refinarias”.
Isto ao mesmo tempo que algumas das alternativas energéticas, como o hidrogénio verde, não têm uma viabilidade económica óbvia, no imediato, e aqui a Galp lamenta o baixo nível de apoio público nacional a estes investimentos, por comparação com o que acontece com projetos semelhantes em Espanha.
Um “monstro” chamado Bacalhau
A norueguesa Equinor é o parceiro líder no projeto “Bacalhau”, no pré-sal brasileiro, Bacia de Santos, com 40% (operadora), a par da ExxonMobil, que também detém 40%, enquanto a Galp detém 20% do projeto através da Petrogal Brasil, uma joint-venture com a Sinopec (Galp 70% | Sinopec 30%), sendo ainda também parceira a Pré-Sal Petróleo SA.
Esta é a 13.ª unidade da Galp implantada no pré-sal brasileiro desde 2010, uma embarcação com 370 metros de comprimento e 64 metros de largura que está localizada a 185 quilómetros da costa de Ilhabela (São Paulo), em águas ultraprofundas com mais de 2.000 metros de lâmina d’água.
Para se ter uma ideia da dimensão, estamos a falar de três campos e meio de futebol de comprimento, e cerca de 12 andares de altura. Na embarcação, que labora 24 horas por dia, trabalham 160 pessoas. “É uma pequena cidade”, diz Nuno Bastos.

Segundo a empresa, este projeto vai criar cerca de 50.000 postos de trabalho ao longo dos seus 30 anos de vida útil, dos quais 3.000 foram criados durante a fase de desenvolvimento.
E como nasceu o nome de bacalhau? É tradição da Galp atribuir nomes de peixes (ou moluscos) aos seus campos, até porque já houve o campo Lula ou a Santola. Segundo Nuno Bastos, neste caso a tradição acabou por impor o nome de Bacalhau, “até pela origem dos parceiros envolvidos”, entre eles Portugal e a Noruega.
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