BRANDS' ECO Infraestruturas, energia e talento colocam Portugal no mapa europeu dos data centers
A ambição existe, os clientes estão a chegar e Portugal tem vantagens claras. Mas falta acelerar processos e capacitar reguladores e empresas para o novo ecossistema, dizem peritos.
Portugal reúne “todas as condições” para receber grandes investimentos em data centers, beneficiando de conectividade, energia competitiva e mão de obra qualificada. Mas precisa de simplificar licenças e articular melhor o ecossistema, concluíram oradores da conferência Digital Union: O Futuro dos Data Centers em Portugal, organizada pela VdA com a APDC e a Portugal DC, esta quarta-feira, em Lisboa.
“Portugal tem todas as condições para receber esta indústria, temos conectividade e energia a preço competitivo. A energia em Portugal é 30% abaixo do preço médio da Europa, além de termos acesso a mão de obra qualificada”, afirmou Daniela Silva e Sousa, da Start Campus, defendendo “simplificação processual” para atrair mais players.
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Magda Cocco, Sócia Responsável pelas áreas de Comunicações, Proteção de Dados & Tecnologia e Digital Frontiers -
Daniela Silva e Sousa, Start Campus -
Pedro Mota Soares, APRITEL -
Augusto Fragoso, ANACOM -
Hugo Moredo Santos, Sócio da Área de Bancário & Financeiro da VdA -
Carlos Paulino, Equinix
Magda Cocco, Sócia Responsável pelas áreas de Comunicações, Proteção de Dados & Tecnologia e Digital Frontiers, destacou que os data centers fazem parte de um ecossistema digital mais amplo e que o sucesso destes projetos depende de uma abordagem integrada ao nível das políticas públicas e da regulação, especialmente no que diz respeito aos cabos submarinos e às redes de fibra ótica. Muitas entidades envolvidas nas diversas fases de aprovação destes projetos desconhecem os custos e impactos negativos que os atrasos podem ter para o país (refira-se, por exemplo, que um navio para lançar cabos submarinos pode custar 150.000 euros por dia). Apesar de serem considerados projetos de interesse nacional, “o diabo está nos detalhes”, afirmou, sugerindo a criação de um enquadramento fast track que permita às equipas nomeadas pelo Governo assegurar calendários previsíveis e céleres.
Sócio da Área de Bancário & Financeiro da VdA, Hugo Moredo Santos lembrou que a atração de investimento estrangeiro depende de estabilidade regulatória e de uma visão de longo prazo. “Temos um caderno regulatório longo e cada vez mais complexo. A sustentabilidade é uma área em que ainda temos muito para desbravar no sentido da lei se adaptar à realidade e não tornar impossível o cumprimento daquilo que prevê”, defendeu.
Da perspetiva do regulador, Augusto Fragoso, da ANACOM, sublinhou a necessidade de visão estratégica e capacitação técnica. “A prioridade de qualquer regulador é ter um pensamento estratégico sobre o ecossistema. O segundo é de capacitação. Temos limitações de financiamento e recursos humanos que é preciso colmatar”, reconheceu. Sem travar a inovação, frisou, “a regulação tem de sair da frente e atuar apenas onde é necessário”.
No painel de investimento, o apelo foi à previsibilidade. “Precisamos mesmo de dar estabilidade e previsibilidade ao investimento, porque a Europa vai precisar de muito investimento para acompanhar os EUA e a China”, avisou Pedro Mota Soares, da APRITEL. Carlos Paulino, da Equinix, reforçou as vantagens competitivas como “os eletrões verdes, a capacidade de conectividade e talento de alta qualidade”, mas pediu foco na “potência” disponível e em licenças. “Esse é um ponto que exige atenção governamental”.
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Alberto Petermann, Start Campus -
Ana Luís de Sousa, sócia da VdA responsável pela área de Energia e Recursos Naturais -
António Coutinho, APE -
João Emanuel Afonso, REN -
Ângelo Monteiro, NVIDIA
Do lado dos operadores, a flexibilidade técnica é palavra-chave. “A tecnologia está a evoluir demasiado rápido. Os data centers têm de estar preparados para os hyperscalers senão ficamos obsoletos em três, quatro anos”, notou Alberto Petermann, da Start Campus, apontando para soluções como o liquid cooling.
A energia dominou a discussão sobre sustentabilidade, num painel moderado por Ana Luís de Sousa, sócia da VdA responsável pela área de Energia e Recursos Naturais, em que João Emanuel Afonso, da REN, quantificou a onda de procura. “Temos já atribuído, ainda não ligado, 9 gigawatts e em carteira mais de 30 gigawatts”, admite. A rede é “um desafio técnico passível de ser resolvido”, mas “a energia necessária é que é desafiante”. António Coutinho, da APE, advertiu que “a transição energética é, em 25 anos, refazermos por completo a infraestrutura energética do mundo. Precisamos de modelos de planeamento e contratação integrados”, sugeriu.
Na frente tecnológica, a inteligência artificial redesenha cada vez mais a arquitetura dos data centers. “As AI Factory são um espaço em que entra energia e dados, e sai conhecimento”, explicou Ângelo Monteiro, da NVIDIA, lembrando a urgência de altos níveis de eficiência. “É extremamente importante fazer muito mais com muito menos”, insistiu. Para a atração de novos centros, Cláudia Alves, da Google, foi direta e garantiu que é necessário ter “disponibilidade de energia e de energia verde” para ser competitivo. “A Google não investe num data center se não houver um driver de business”, acrescentou.
No fecho, o consenso foi claro para todos. É necessário um balcão único para licenciamentos, regras claras e estáveis, planeamento energético coordenado e capacitação humana. Ou, como resumiu Daniela Silva e Sousa, “não é sermos menos exigentes, mas haver um processo claro, transparente e com timings definidos”. Este caminho exige, porém, articulação entre as áreas técnica, jurídica e regulatória, como sublinhou o encontro organizado pela VdA, cuja equipa multidisciplinar acompanha os desenvolvimentos que estão a moldar o futuro dos data centers em Portugal.
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