Representante do SIRESP diz que privados é que falharam no apagão

  • Lusa
  • 14 Janeiro 2026

As falhas de comunicações no apagão, a 28 de abril de 2025, são da responsabilidade das operadoras privadas, entende o SIRESP.

O representante do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) disse que falhas de comunicações no apagão, em 28 de abril de 2025, são da responsabilidade das operadoras privadas.

Numa audição pelo grupo de trabalho da comissão parlamentar de Ambiente e Energia para apurar o que aconteceu no dia do apagão, Vítor Judicibus negou que tenham existido falhas no SIRESP, uma vez que a energia da rede que falhou foi substituída por baterias.

Não houve uma falha de energia do nosso lado. O que falhou foi a transmissão – a conectividade entre as torres e os transmissores“, explicou o representante do SIRESP, que acrescentou que a transmissão que falhou está a cargo de operadores de telecomunicações privados.

A transmissão é toda suportada através de redes comerciais. Nós não temos soberania sobre essas linhas de transmissão. Se tivéssemos tido transmissão, se essas conectividades não tivessem falhado, teríamos 80% de rede a funcionar”, esclareceu.

Para Vítor Judicibus, a solução para ultrapassar estes constrangimentos passa por ter a soberania sobre a componente de transmissão.

Em resposta aos deputados, o representante do SIRESP considerou ainda que “o 5G [5.ª geração de redes de telecomunicações móveis], neste momento, é um mito”. “Não há 5G para comunicações críticas. Substituir o SIRESP é algo que para nós, SIRESP, não faz sentido“, acrescentou.

A propósito do SIRESP, existe um grupo de trabalho que, segundo anunciou a ministra da Administração Interna em novembro do ano passado, foi retomado, depois de suspenso por possível conflito de interesses.

Na altura da criação do grupo, que tinha como objetivo a substituição urgente do SIRESP, o Governo considerava que era necessário um novo sistema “mais robusto, fiável, resiliente e interoperável” devido às “limitações estruturais e operacionais em cenários de elevada exigência operacional”.

Interromper interligações com Espanha não protegia consumidores

O presidente da ERSE defendeu no parlamento que interromper interligações com Espanha para evitar um apagão energético não iria proteger os consumidores portugueses, pois implicava ter “máquinas elétricas” em permanência para substituir essa potência.

É evidente que evitar o apagão em Espanha, evitar que ocorresse em Portugal, não era um custo eficaz, temos que ter consciência disso”, disse o presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), Pedro Verdelho, durante uma audição no grupo de trabalho criado na Comissão de Ambiente e Energia da Assembleia da República sobre o apagão energético de 28 de abril de 2025.

Pedro Verdelho respondia aos deputados depois de ser questionado sobre o que era possível fazer para evitar o incidente energético.

“Temos nove interligações com Espanha. A capacidade técnica dessas interligações é superior à nossa ponta de consumo”, vincou, para a seguir defender que “estar a imunizar essas interligações” implicava, em alternativa, garantir reservas para assegurar que o sistema continuava a funcionar se um dos elementos falhasse, o que traria consequências para os consumidores.

Se assumimos que vamos interromper a interligação para imunizar este fenómeno que aconteceu em Espanha, significava ter máquinas elétricas em Portugal em permanência, em funcionamento, para substituir aquela potência de interligação, o que de forma razoável [não era] aceitável. Não era assim que protegíamos os consumidores”, advertiu.

Na audição, na qual foi questionado pelos deputados do PSD, PS, Chega, IL, Livre e PCP, o presidente da ERSE disse ainda que o regulador teve de tomar “uma série de decisões” relacionadas com o facto de, no dia do apagão, a compra de energia para esse dia e para o dia seguinte já estar fechada.

“Houve muitas outras decisões que tiveram que ser tomadas, porque quando houve o ‘blackout’ [apagão], a compra e venda de energia nos mercados organizados já estava fechada para o dia 28 e para o dia 29”, disse.

Com o apagão, cerca das 11h30, “o que aconteceu [com a energia] realmente foi algo completamente diferente” e, por isso, “houve que tomar uma série de decisões para reverter essas situações, para garantir a estabilidade do funcionamento do mercado – a estabilidade dos consumidores, a sustentabilidade do mercado em benefício dos consumidores”, sublinhou.

“Todas essas intervenções foram tomadas pela ERSE em processos de consulta pública que deram origem a uma série de decisões complexas”, frisou, referindo-se à definição dos cálculos da energia comprada pelas comercializadoras antes do apagão e que acabou por não ser consumida.

O corte generalizado no abastecimento elétrico afetou Portugal e Espanha durante cerca de 10 a 11 horas.

Na audição de hoje, o presidente da ERSE projetou uma apresentação aos deputados com uma análise visual, baseada no mapa da Península Ibérica, que revela como “em 20 segundos” se verificou “o colapso do sistema ibérico”.

A perda de geração em Espanha foi enorme. O fenómeno foi muito rápido e, portanto, não havia nada a fazer. Tivemos o colapso do setor elétrico.

Pedro Verdelho

Presidente da ERSE

A perda de geração em Espanha foi enorme. O fenómeno foi muito rápido e, portanto, não havia nada a fazer. Tivemos o colapso do setor elétrico”, disse.

O painel de peritos europeus que investiga o incidente – a Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E, na sigla em inglês) – concluiu, no primeiro relatório factual sobre o assunto, que o apagão foi provocado por uma sucessão de desligamentos súbitos de produção renovável, e subsequente perda de sincronismo com a rede continental europeia.

No relatório, de 3 de outubro de 2025, o grupo classifica o incidente como de “escala 3” — o nível mais grave previsto pela legislação europeia — e descreve-o como “o mais significativo ocorrido no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos”.

Na terça-feira, a Comissão Europeia autorizou Portugal a abrir um concurso no âmbito do Programa Sustentável 2030 para reforçar a resiliência de hospitais, maternidades e antenas de telecomunicações, através de energia solar e baterias.

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