Tomás Almeida Ribeiro, sócio da PLMJ, assume que 2025 foi um ano que, em termos de M&A, dececionou face às expectativas, mas sublinha que não se trata só de Portugal.
Tomás Almeida Ribeiro, sócio da PLMJ, assume que 2025 foi um ano que, em termos de M&A, dececionou face às expectativas, mas sublinha que não se trata só de Portugal, tendo antes sido um comportamento generalizado.
O sócio não acredita ser “facilmente sustentável” durante muito mais tempo que as economias ibéricas continuem em expansão enquanto os seus principais parceiros comerciais contraem do ponto de vista da sua atividade económica.
Que balanço faz do panorama de M&A em Portugal em 2025?
Já vamos suficientemente adiantados no ano para podermos dizer que foi um ano que dececionou face às expectativas com que entrámos em 2025. E não se trata só de Portugal, foi um comportamento generalizado.
Mas falando de Portugal, olhando para os primeiros três trimestres, quer o M&A, quer o Private Equity contraíram em número de transações e valor agregado, respetivamente uma quebra de 7% e 30%. Considerando que 2024 já tinha sido um ano de quebra nas transações, longe vai o pico de 2023.
Por outro lado, realçando os aspetos positivos, há sinais de recuperação no segundo semestre, sobretudo em número de operações. No terceiro trimestre assistiu-se a uma aceleração próxima de 10% face ao mesmo trimestre de 2024, movimento que os números de outubro parecem confirmar. Em contrapartida, se olharmos para o valor agregado das operações, aí não vemos os mesmos sinais positivos: no terceiro trimestre de 2025 transacionaram-se cerca de 2.500 milhões de euros, abaixo dos cerca de 3.500 milhões de euros no mesmo período de 2024 e dos quase 5.500 milhões de euros em 2023.
Em síntese, 2025 foi um ano de abrandamento do mercado de M&A em Portugal, com sinais de estabilização na segunda metade e uma base potencialmente mais favorável para 2026.

Que tendências considera que emergiram e que expectativas acabaram por não se concretizar?
Havia expectativas que não se confirmaram e que explicam a letargia do mercado.
Em primeiro lugar, a incerteza internacional, marcada por choques geopolíticos, volatilidade nas cadeias de fornecimento e maior protecionismo, condicionou decisões de investimento e prolongou calendários de transação.
Em segundo lugar, a instabilidade política interna, com a queda do Governo e eleições legislativas sem maioria estável, ampliou o quadro de incerteza e atrasou dossiês relevantes, com destaque para a TAP.
Por fim, diria que observamos com alguma desilusão que não se tenha verificado uma aceleração mais rápida da economia de defesa na União Europeia, tendo em conta a guerra na Ucrânia e o reposicionamento dos Estados Unidos em matéria de segurança europeia. A lenta mobilização industrial para produção de equipamentos de uso dual pode bem vir a ser, no futuro, um importante catalisador de M&A na Europa e em Portugal, mas ainda não o foi em 2025. E esta é uma necessidade urgente também do ponto de vista económico, tendo em linha de conta a necessidade de encontrar um novo e potente catalisador para a indústria europeia que tem sido tão penalizada nos últimos tempos, em particular o setor automóvel, que é fundamental para o crescimento da economia europeia.
Não me parece que seja facilmente sustentável durante muito mais tempo que as economias ibéricas continuem em expansão enquanto os seus principais parceiros comerciais contraem do ponto de vista da sua atividade económica.
Quais foram os setores mais ativos em 2025 no que respeita a fusões, aquisições e investimentos de private equity?
No M&A, destacaram-se imobiliário, serviços informáticos, turismo e energias renováveis.
Em Private Equity, sobressaíram o setor industrial, o resiliente setor imobiliário, bem como turismo e saúde. Sublinho em particular o crescimento do setor industrial face aos anos anteriores (2021–2023), com maior atividade em operações de consolidação e projetos com ambição exportadora.
Mas gostaria de destacar ainda dois setores que têm vindo a ganhar importância: o setor da educação, com várias operações relevantes; e o setor de agribusiness, onde se continuam a desenvolver projetos com escala e capacidade de atração de capital estrangeiro.
Em 2025 observou-se uma redução relativa das operações transfronteiriças face às domésticas, tanto em número como em valor.
Verificou-se um aumento ou um decréscimo de operações transfronteiriças versus nacionais?
Em 2025 observou-se uma redução relativa das operações transfronteiriças face às domésticas, tanto em número como em valor.
O encarecimento e a seletividade do financiamento, a aversão ao risco associada à incerteza geopolítica e regulatória, bem como a prudência acrescida dos investidores internacionais, travaram processos bilaterais e leilões internacionais. A má performance e dificuldades estruturais da economia europeia também contribuiu para um certo arrefecimento do interesse estrangeiro por ativos portugueses. Esta realidade é particularmente aguda em alguns setores em crise, o setor automóvel destacado de todos os outros.
Em contrapartida, as operações domésticas mantiveram um ritmo mais estável, apoiadas em lógicas de consolidação setorial, reforço de escala e transações de médio porte com maior visibilidade de risco e retorno.
Este desvio não foi estrutural nem uniforme por setor, mas foi percetível nos segmentos mid-market e em ativos mais sensíveis a condições de financiamento.
Que papel teve a inflação, as taxas de juro, as tensões geopolíticas ou a escassez de capital como fatores de influência nas operações de M&A em 2025?
A persistência de taxas de juro em patamares relativamente elevados, a incerteza na evolução da inflação e a instabilidade geopolítica no Médio Oriente e na Ucrânia condicionaram avaliações, estruturas de capital e apetite de risco.
No plano comercial, o episódio do chamado “Liberation Day” e a escalada de tarifas nos EUA acrescentaram incerteza às cadeias de fornecimento e aos fluxos de comércio. Com efeito, o aumento de tarifas e medidas protecionistas, bem como a incerteza quanto à sua duração e amplitude, introduziram volatilidade nas cadeias de valor e nos planos de negócios, ampliando o gap entre as expectativas de vendedores e compradores.
O contexto económico na Alemanha e em França, parceiros comerciais fundamentais para Portugal, afetou a procura externa e o desempenho de exportadores nacionais, com efeitos assimétricos por setor.
Acresce o ruído em torno da sustentabilidade das dívidas públicas em várias economias avançadas, variável que influencia o custo de capital e a confiança com nuvens cinzentas no horizonte de uma possível nova crise de dívida soberana.
No Private Equity, refletiu-se tudo isto em ciclos de desinvestimento mais longos, maior número de participadas em carteira, menor ritmo de reembolsos aos investidores e, por arrasto, maior seletividade na alocação de capital e prudência no levantamento de novos fundos de capitais de risco.

Que tipo de due diligence se tornaram mais exigentes no mercado e porquê?
A due diligence ambiental tornou-se cada vez mais frequente e mais profunda, combinando análises jurídicas e técnicas.
A proteção de dados e a cibersegurança ganharam também centralidade, com ênfase na resiliência operacional e na gestão de incidentes.
Em termos de estrutura de negócio, como vê a utilização de cláusulas de earn-out, mecanismos de locked box ou garantias de indemnização (W&I insurance) em Portugal?
Tem-se privilegiado a engenharia contratual para mitigar a dissonância persistente entre expectativas de preço de vendedores e o apetite de compradores.
Cláusulas de earn-out e aquisições faseadas, com avaliações indexadas à performance futura, têm sido particularmente úteis para fechar valuation gaps.
As apólices de W&I e, em certos casos, soluções complementares como title e tax insurance, consolidaram-se no mercado, com maior acessibilidade em custos e perfis de risco, e um ecossistema segurador mais competitivo.

Quais os principais obstáculos regulatórios ou práticos que se levantam numa transação de M&A em Portugal?
A elevada atomização do tecido empresarial dificulta processos de venda estruturados e profissionalizados, com informação completa e organizada para due diligence, o que gera atrasos e incerteza na execução.
Por outro lado, a dimensão reduzida das empresas portuguesas coloca, em alguns casos, ativos abaixo do radar de investidores internacionais com tickets mínimos definidos.
Sublinho ainda um enquadramento jurídico-fiscal e uma prática administrativa que, na sua configuração atual, tendem a favorecer a micro e pequena escala, desincentivando, na prática, a criação e consolidação de grupos económicos de dimensão relevante. Esta realidade limita a formação de campeões nacionais com escala para competir nos mercados internacionais, inovar na sua forma de desenvolver o negócio e remunerar melhor o talento.
Em 2026, que fatores acredita que vão determinar o ritmo de M&A em Portugal?
O desempenho da economia europeia, a trajetória das taxas de juro, a evolução do quadro geopolítico, a confiança quanto à sustentabilidade da dívida pública nas principais economias da OCDE, a volatilidade dos mercados de capitais e a estabilidade política interna e nos nossos principais parceiros comerciais e investidores serão determinantes.
Em 2026, quem chegar preparado, com convicções fundamentadas e capacidade de execução, terá melhores oportunidades de fechar bons negócios.
Quais os setores que oferecem as maiores oportunidades de M&A ou de investimento de private equity em Portugal em 2026?
Imobiliário, turismo e energias renováveis deverão manter-se no topo da atividade. Antevejo igualmente dinamismo em IT, com destaque para software B2B, cibersegurança e IA.
Vejo ainda oportunidades em agribusiness, de que já falei, e na saúde, com transações no low e mid-market impulsionadas por estratégias de add-on de players europeus.
Que conselho daria a investidores ou empresas que estão a pensar em movimentar-se no mercado em 2026?
Para compradores, a disciplina será tão importante quanto a velocidade. Estruturas flexíveis que combinem preço fixo com componentes variáveis (earn-outs e opções de aquisição faseada) e financiamento assegurado e diversificado aumentam a taxa de sucesso. Também aconselharia a ponderarem o recurso a seguros de W&I, sobretudo em casos em que um ou mais vendedores continuam a colaborar com o comprador, como é o caso de operações com aquisições faseadas. Em 2026, quem chegar preparado, com convicções fundamentadas e capacidade de execução, terá melhores oportunidades de fechar bons negócios.
Para vendedores, citando um sócio de uma private equity nossa cliente, lembrar que “as árvores não crescem até ao céu”. Ou seja, muitas vezes é preferível uma venda relativamente rápida com um retorno interessante, ainda que antes de a empresa atinja o ponto rebuçado em termos de valorização, do que adiar a saída na esperança de capturar mais valor. Um ativo com perspetivas claras e credíveis de crescimento futuro é mais líquido e proporciona maior margem de negociação de múltiplos.
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